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A memória de
Paraty
Por volta de 1930, Paraty não
tinha água encanada nem fossas sépticas. Pela manhã,
carregadeiras a um tostão percorriam a cidade com latas de
água do chafariz do Pedreira,
que iam para a cozinha e o banho das casas.
O banho se tomava geralmente
aos sábados, nos quartos, que não tinham janelas e eram
chamados de alcovas. Depois do banho, era costume esperar um
pouco para sair, porque se acreditava que os golpes de ar
traziam doenças.
Nos quartos também se usavam
urinóis, porque, sem água nem esgoto, as casas não tinham
banheiros. E, tarde da noite,
as carregadeiras a um tostão percorriam a cidade
levando latas de dejetos para jogar no rio Perequê-Açu.
Quando alguém ficava doente, o
médico visitava em casa e era recebido com uma bacia de
louça, um jarro de água limpa e uma toalha fina pra
auscultar o paciente. Os remédios eram todos manipulados, a
partir de extratos, sais e tinturas.
Mas nem por isso as pessoas
dispensavam a benzedeira e os chás medicinais. Em cada
lugarejo do município havia alguém que conhecia as ervas
locais e as usava num primeiro atendimento. Mas o médico não
receitava ervas; só remédios feitos na farmácia.
De resto, durante o dia, os
meninos jogavam pião e bolinha de gude na praça; soltavam
papagaio sem cerol, para ver qual ia mais alto e brincavam
de pegar. As moças cantavam, brincavam de roda e cada lugar
da cidade tinha um grupo que jogava amarelinha.
Nas noites quentes e
silenciosas, havia o namoro na praça, embaixo da janela da
namorada e as serenatas, embaladas por violino, clarinete,
bandolim, violão e a voz de talentos locais.
Nos fins de semana, as
famílias se reuniam para jogar víspora ou davam bailes para
amigos e vizinhos, animados pelo rádio, pela vitrola ou
abrilhantados por músicos ao vivo. Às vezes, a dona da casa
servia para as moças um licorzinho de folha de figo.
Quem pinta esse e outros
retratos da Paraty antiga é o contador José Carlos de
Oliveira Freire, mais conhecido como Zezito, o memorialista
mais importante da cidade. Paratiense de 1922, foi provedor
da Santa Casa e chefe da contabilidade da Prefeitura, abriu
o primeiro escritório contábil de Paraty e,durante dez anos,
escreveu suas lembranças no jornal local. Hoje, tem seis
livros publicados, além de vários outros no computador.
A Paraty onde Zezito passou a
juventude era um pontinho esquecido da costa fluminense, que
tinha vivido três séculos como próspero corredor de
riquezas, mais outro como a maior produtora de cachaça do
Rio de Janeiro.
Mas, no final do século 19, o
trem desviou o café de seu porto, a Lei Áurea libertou os
escravos de seus alambiques e Paraty entrou numa decadência
profunda, da qual só sairia a partir da abertura da rodovia
Rio-Santos, que se deu em 1974, segundo Zezito.
Assim, nos anos 30 Paraty
estava praticamente sozinha no mundo. Para ir a Cunha, a
viagem demorava um dia, subindo a serra a cavalo
por um caminho lamacento. Para ir ao Rio de Janeiro,
era preciso tomar bem cedo a lancha para Mangaratiba e pegar
o trem, para chegar lá só á noite.
Mesmo assim, Paraty contava
com um comércio forte, para atender às necessidades básicas,
que se concentrava na rua da Praia, com lojas de tecidos,
armarinhos, armazéns de secos e molhados, casas de ferragens
e outros negócios.
Para abastecer esse comércio,
a lancha trazia mercadorias do Rio de Janeiro, o navio do
Lóide Brasileiro de Navegação vinha a cada quinze dias
e, toda semana, tropas de mulas desciam o caminho de
Cunha com milho, feijão, batata inglesa, marmelo, pêssego,
pinhão, mantas de porco, galinhas e ovos.
Paraty plantava mais para o
consumo das fazendas, que forneciam o leite para a cidade e
ainda havia engenhos de cachaça que vendiam para o Rio de
Janeiro, mas, com a decadência da produção, as fazendas
passaram a plantar banana, que ia para Cunha e o vale do
Paraíba.
Havia, também, a pesca de
cerco, artesanal.
Produzia-se peixe seco, que também subia com as tropas e o
cação eviscerado, prensado e desidratado, o chamado bacalhau
de pobre, que tinha um bom mercado no Rio de Janeiro.
Nessa época, Zezito dava duro
entre a Santa Casa e a Prefeitura e ainda arranjava tempo
para jogar vôlei e basquete, para dançar a ciranda na roça e
tocar clarinete na banda Lira da Juventude, que se
apresentava em procissões, retretas e casamentos.
Esse quadro só mudou
significativamente a partir de 1954, quando empresários do
vale do Paraíba lotearam o bairro da Jabaquara para a
construção casas de veraneio e paulistas endinheirados
começaram a comprar imóveis no Centro Histórico. Com isso, o
piso da Paraty-Cunha foi melhorado e a cidade ganhou um
ônibus diário para Guaratinguetá.
No entanto, Paraty continuou
sendo um canto escondido no litoral fluminense, freqüentado
apenas por artistas, intelectuais e descolados. Entre os
anos 60 e 70, vários filmes brasileiros foram rodados na
cidade, aproveitando suas belezas e seu cenário colonial. E
a vida local continuou na pouco alterada quietude do século
19.
Até que, por volta de 1968,
chegou a TV com toda a força e, aos poucos, a vida da cidade
foi sendo comandada pelas atrações da telinha. O cinema
local, que já tinha pouco público, acabou fechando. Foi o
fim, também, dos bailes caseiros e o jogo de víspora. O
namoro na praça continuou, mas a namorada não saía mais na
janela, porque ficava vendo a novela na TV. Por isso, não se
fizeram mais as serenatas de antes.
Em 1973, Zezito deixou a
Prefeitura, continuou trabalhando em seu escritório de
contabilidade e só deixou as calculadoras de lado por
problemas de saúde, no início dos anos 90. Foi quando
começou a rascunhar suas lembranças da cidade e das mudanças
rápidas que ela sofreu, depois de um século de sono.
Segundo ele, Paraty não tinha
água, esgoto, hospital de qualidade nem escola avançada. Mas
não tinha ricos muito ricos, nem pobres muito pobres. Havia
muita festa, porque a igreja católica comemorava todos os
santos. Havia dança, futebol e festa junina nas fazendas de
cachaça que ainda restavam. Mas, com a Rio-Santos, a cidade
sofreu uma grande transformação.
“Quem procurava a
tranquilidade em Paraty já foi embora. De lá para cá, vieram
os tóxicos, os pedintes, os camelôs. Hoje, há muito emprego
em pousada, em restaurante, mas é emprego de salário mínimo
e gorjeta. E continuamos não tendo esgoto, hospital de
qualidade nem escola avançada. As pessoas dizem que eu sou
nostálgico, mas não sei se isso é progresso”.
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