|

Debret, A senhora em seu lar, séc 19
A construção da cidade
A vida necessária
Quando se vêem, nas cidades históricas, aqueles casarões
coloniais de caixilhos caprichosos e balcões de ferro
forjado, a impressão é de que eram tempos bem mais simples,
sem lugar para as atribulações da vida moderna. Mas o
cotidiano dessas casas e de quem vivia nelas passavam longe
dessa visão romântica.
Nessas casas, as famílias levavam uma vida severa, onde o
dia começava com a aurora e terminava com o pôr-do-sol,
porque não havia luz elétrica. E também porque era preciso
economizar vela e óleo de candeeiro, artigos importados,
caros e difíceis, que às vezes levavam meses a fio para
chegar às cidades, com o atraso dos navios.
O mesmo acontecia com outros itens de primeira necessidade
como sal, azeite, remédios e ferramentas de trabalho. Nada
se produzia na Colônia e as pessoas levavam uma vida
auto-suficiente e voltada ao estritamente necessário.
Nessas residências senhoriais, quase tudo era caseiro, desde
a horta, o pomar e o criatório de animais de abate até os
defumados, os utensílios domésticos – feitos de barro e as
roupas pessoais, de cama e de banho.
Produzir roupas, quitutes e outros trabalhos manuais para o
lar era missão das sinhás, auxilidadas por escravas e essa
atividade era altamente recomendada para entretê-las de
forma sadia e desviá-as de pensamentos perniciosos.
Eram casas grandes, de parca manutenção, limpeza precária e
um verdadeiro paraíso para os insetos em geral. Como não
havia encanamentos, também não havia banheiros e se usavam
urinóis nos quartos, onde também se tomava banho de jarra e
bacia com sabão de cinzas.
Como as casas também não tinham esgoto, nem a cidade, os
dejetos eram recolhidos pelos escravos em grandes tambores
chamados de tigres, para jogar nos rios. Da mesma forma, não
havia coleta do lixo, que, dispensado de qualquer maneira,
dentro e fora da casa, alimentava tanto os porcos caseiros
como os ratos.
Até o século 19, as famílias coloniais brasileiras dormiam
no chão, em esteiras, sentavam-se em bancos toscos, comiam
em mesas rústicas e guardavam seus pertences em baús lisos
de madeira. As paredes das casas eram nuas ou decoradas com
crucifixos e gravuras religiosas.
Nessa vida nada fácil, o lazer eram o baralho, o xadrez, o
gamão, leituras em família e as reuniões de amigos com
danças e bebidas. O auge da vida social eram as festas
cívicas e religiosas, quando as famílias estendiam panos no
parapeito das janelas, acendiam lamparinas nos balcões e
assistiam a procissões e desfiles.
Desde o século 16, os ricos já conviviam com porcelanas das
Índias e, desde o 18, com baixelas inglesas de louça e
prata. Mas, em geral, as casas tinham poucos pratos e copos
e, até o século 19, ricos e pobres da Colônia comeram com as
mãos. E só nesse século chegaram, também as camas, cadeiras,
cômodas, lustres e tapetes.
Para essa mudança, contribuiu muito a chegada da Corte, em
1808, disseminando modas, etiquetas e critérios de bom
gosto; a abertura dos portos, que trouxe a importação de
supérfluos e, pouco mais tarde, a ascensão da elite
cafeeira, que adotou a França como referência cultural e um
estilo de vida mais sofisticado.
.
Mas os casarões coloniais continuaram acolhendo famílias
numerosas, com vários agregados familiares e dezenas de
escravos, dos quais tudo dependia, desde a cozinha até a
entrega de recados; numa economia totalmente baseada na
mão-de-obra cativa e numa cultura onde o trabalho manual era
considerado indigno.
Por isso, a abolição da escravatura foi um golpe mortal, na
produção das cidades coloniais e no estilo de vida dessas
residências, que foram sendo abandonadas e entrando em
ruínas, por não terem quem as mantivesse.
...............................................................................................................................................................
Fontes:
Algranti, Leila M, Famílias e vida doméstica, in História da
Vida Privada no Brasil, Volume 1, Companhia. das Letras, SP,
1997
Priore, Mary del, Ritos da vida privada, in História da Vida
Privada no Brasil, Volume 1, Companhia das Letras, SP, 1997
Consulte nossa bibliografia
geral
Volte a
pARATIANDo
|