|

Ciranda de
Tarituba
A tradição que voltou
A pequena comunidade de
Tarituba fica numa enseada azul, atrás da Ilha Comprida e de
um pequeno arquipélago, entre a Ponta do Arpuá e a Ponta
Grande do Timbuíba, perto de Paraty.
A população local, hoje em torno de oitocentas pessoas, já
viveu longe do mundo, entre a pesca farta e a Festa da Santa
Cruz, na pequena capela erguida, segundo a tradição, em
tributo a Tia Eva, velha escrava curandeira. .
Junto com a Rio-Santos, em 1974, vieram a especulação
imobiliária, a pesca de arrasto, a migração de pescadores
para as cidades mais próximas e foi se desfazendo a delicada
conjunção de fatores que mantinha manifestações culturais
como a ciranda, baile de danças caiçaras que reunia os
moradores em suas celebrações.
“Com a chegada da rodovia, tivemos um caiçara em outras
funções, até para melhorar sua vida. E essa forma de
progresso também afeta bastante o que existe de mais íntimo
nas comunidades atingidas”, analisa a professora Lola,
Eleonora Gabriel, da
Escola de Educação Física e Esportes da UFRJ e
coordenadora da Companhia Folclórica do Rio-UFRJ.
Diferente da ciranda pernambucana, que é uma dança de roda,
a ciranda de Tarituba é um baile composto de várias danças,
inclusive uma ciranda em fila.
Esse baile começa pelo xiba ou cateretê, com o compasso
marcado pela batida de tamancos. Depois, vêm danças e
canções chamadas de miudezas, como cana verde, caranguejo,
marrafa, flor do mar, canoa, limão, arara, chapéu, caboclo
velho, que vão do quase-samba à quase-valsa, passando pela
quadrilha junina. O encerramento se dava com a tonta, hoje
substituída pela ciranda de Paraty.
Os instrumentos são violão de seis cordas, viola de dez,
dois pandeiros artesanais e o mancado, caixa de madeira
batida com dois tamancos calçados nas mãos. A mesma
composição, substituindo o mancado por uma caixa-de-guerra,
acompanha as procissões da Festa da Santa Cruz.
“O tamanco da ciranda é português”, explica Sônia Bulhões,
coordenadora do Grupo de Danças Folclóricas de Tarituba. “A
ciranda também tem o sapateado e o rodopio da saia, que vêm
da Espanha e aquela reverência dos minuetos da corte
francesa. Esta região teve uma presença forte de todos esses
povos e eles deixaram sua influência no caiçara”.
Tudo começou quando Cascia Frade, pesquisadora de cultura
popular da Uerj, viu a ciranda em 1975, na Festa do Divino
de Paraty, dançada pelo grupo do Mestre Chiquinho, que era o
líder da comunidade de Tarituba e grande articulador dessa
tradição. E, como conta Sônia, Cascia quis conhecer aquelas
pessoas, como elas cantavam e dançavam, onde haviam
aprendido aquilo.
“Ela passava a noite conversando com os pescadores, ouvindo
casos. Trouxe alguns estudantes, que fotografaram tudo,
fizeram esboços da dança, desenharam as roupas dos
dançarinos. A Lola, que veio depois, também falou bastante
com a comunidade, principalmente os mais velhos e aprendeu
com eles muitos passos da dança”. .
Mas, no final de 1980, Mestre Chiquinho estava adoentado,
não podia mais seguir à frente do baile e a comunidade foi
parando junto. Os mais antigos foram morrendo e os mais
jovens estavam perdendo o interesse em aprender as danças,
até por um certo constrangimento em fazer algo que, àquela
altura, estavam achando completamente fora de seu universo.
Foi quando Eleonora Gabriel chegou a Tarituba, em 1984.
Estava fazendo um trabalho de especialização para uma
pós-graduação em folclore brasileiro e sentiu o quanto a
ciranda estava deixando as referências daquelas pessoas. E
teve a idéia de montar um espetáculo de ciranda com seu
grupo, para apresentá-lo à comunidade. .
Esse espetáculo aconteceu em 1989 e causou uma comoção. Os
moradores ficaram impressionados com a beleza de sua dança,
com a força da própria tradição, levadas ao palco por
pessoas que nem eram dali. E se questionaram por não estavam
deixando de lado algo que, por tantas gerações, tinha sido
parte de seu cotidiano e de sua identidade.
“As pessoas ficaram dizendo “Ah, é uma coisa tão bonita, por
que a gente não faz mais, nós, que nascemos dançando isso,
que aprendemos com nossos pais, com nossos avós?”, conta
Sônia. “E os jovens perceberam que não davam a mínima, para
tudo aquilo, mas outros jovens, de uma cidade grande e
moderna como o Rio de Janeiro, davam a maior importância”.
“No dia seguinte à nossa apresentação, eles nos chamaram à
Associação onde se reuniam”, conta Lola. “Um a um, foram
pegando os instrumentos e começaram a tocar para nós. Vários
jovens pegaram a viola. Uma neta de Mestre Chiquinho pegou o
mancado. E vimos que os mais jovens também se lembravam de
tudo aquilo”. .
A partir daí, as diferentes gerações voltaram a se reunir em
torno da tradição e, estimulado por Eleonora, surgiu o Grupo
de Danças Folclóricas de Tarituba, que hoje apresenta a
ciranda na Festa da Santa Cruz e outros eventos de cultura
popular. E todo ano, a partir dessa experiência, o grupo de
Eleonora também passou a se apresentar nessa festa,
mostrando as pesquisas que faz e trocando experiências com a
comunidade.
Sônia tem claro que, quando o pessoal da universidade
começou a trabalhar com a ciranda, ela não havia
desaparecido. Estava apenas adormecida e todo mundo se
lembrava dela. . Porque, se tivesse morrido, não teria
haveria condições de resgatá-la. Lola diz o mesmo:
“O que fizemos, em Tarituba, não foi um trabalho de resgate,
mas de reavivar, revitalizar, recontextualizar uma tradição.
Porque a ciranda não era mais dançada, mas não havia
morrido. Ainda estava viva, na memória das pessoas”.
E, nesse sentido, ela lembra que ainda há muito a fazer, na
região de Paraty:
“Apesar da Rio-Santos, ainda há muitas manifestações
culturais no sul fluminense que podem ser reativadas e que
poucos conhecem. Mesmo Paraty não conhece o que Tarituba
faz. Paraty tem seus cirandeiros, mas foi Tarituba quem
manteve as danças. Tarituba é Paraty, mas a Festa da Santa
Cruz não está no calendário da Sectur”.
O grupo conta com gente da antiga, muitos jovens e crianças,
mas ainda não é profissionalizado. Seus integrantes
trabalham em outras ocupações e o mantêm nas horas vagas,
Mas está alterando os estatutos da Associação para concorrer
a editais de patrocínio
“Com o trabalho do nosso grupo, nós resgatamos muitas danças
tradicionais”, diz Aldo de Bulhões Lara, o Pardinho,
presidente da Associação Recreativa e Folclórica de
Tarituba, mantenedora do Grupo “E muitas dessas danças foram
readaptadas, porque, das pessoas daquela época, só sobraram
umas nove ou dez”.
E, para voltar ao grupo, algumas delas estão esperando que a
Associação retome sua sede, que foi erguida em mutirão por
Mestre Chiquinho e a comunidade, mas tomada na Justiça por
herdeiros do terreno. .
“A gente passou o chapéu, junto com o Mestre Chiquinho, para
construir essa sede. Todo mundo trabalhou, levamos cinqüenta
dias levantando aquilo e a perda de tudo isso desanimou
muitos de nós”, conta ele.
Da Tarituba até a Mambucaba, o que havia era uma fazenda de
café da família Bulhões, que acabou se reduzindo a Tarituba.
Quando veio a Rio-Santos, um comprador se encantou com o
lugar e procurou os donos da terra. O patriarca da família
não queria vender, mas acabou cedendo, porque tinha a esposa
doente e precisava de recursos.
E, como a comunidade estava ali há décadas, foi um desses
negócios meio no papel, meio na palavra. O patriarca até
vendeu a terra mais barato, porque já havia doado,
verbalmente, vários terrenos aos moradores. E o comprador
prometeu não tirar ninguém dali. .
Cumpriu a promessa. Mas seu casamento terminou e a ex-esposa
voltou cercando tudo. E, depois de trinta anos brigando na
Justiça pelas doações do patriarca, conseguiu o campo de
futebol, a sede da Associação e o local do posto de saúde.
Agora, quer os terrenos das casas.
“Depois de perder a sede, a gente passou a ensaiar na rua
ou, quando chove, no pátio da escola. Mas eu sempre digo que
não adianta preservar a ciranda sem preservar os
cirandeiros. Se a gente perder nossas casas, vai se espalhar
por aí, perder a raiz e perder a identidade”.
...............................................................................................................................................................
Volte a
pARATIANDo |