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Themilton Tavares
A arte de
Themilton
Professor, jornalista, escritor, dramaturgo, aos 63 anos
Themilton Tavares é um dos maiores artistas plásticos da
cidade. Seu trabalho retrata as festas e tradições locais.
Mais que isso, retrata as cores e a alma de Paraty.
Themilton também escreve livros, assinou mais de setenta
peças de teatro, reúne a comunidade inteira no Auto da
Paixão da Semana Santa, faz animação cultural no colégio
estadual e estrela, diáriamente, um dos programas de rádio
mais ouvidos da cidade
Ele faz questão de dizer que o naïf que faz é sofisticado,
que tem luz, que tem perspectiva. Para ele, naïf não é
primitivo, como alguns querem carimbar: de maneira
alguma é coisa de quem não sabe pintar ou desenhar.
“Há, inclusive, quem ache que todos os naïfs são iguais e
isso também não é verdade. Cada um tem um estilo. Se você
colocar, lado a lado, meu trabalho e o de Júlio Paraty ou
o de Almir Tã, que são naïfs daqui, vai ver que são coisas
muito diferentes”.
E acrescenta: não faz só naïf. Tem desenhos de mais de 30
anos, com um traço sinuoso que lembra as curvas de
Beardsley e que continua produzindo ainda hoje.
Ele desconhece influências em seu trabalho. Mas sempre se
interessou por arte, galerias, museus, exposições. E sempre
se exercitou muito:
“Talvez essa tenha sido minha grande escola. Minha mão é
viciada em desenho”.
Themilton começou sua carreira como artista plástico
pintando com esmalte de unhas um lençol de linho branco do
enxoval de sua mãe. Ao invés de palmas, levou palmadas, mas
seguiu em frente. E, aos oito anos de idade, desenhava o
tempo todo. Inclusive na sala de aula.
“Os professores não entendiam. Eles achavam que era falta de
atenção. Mas, pelo contrário, eu me concentro muito, quando
desenho. Sou capaz, ao mesmo tempo, de desenhar, assistir a
um filme policial na TV e ainda descobrir quem é o
assassino”.
Ele conta que nunca teve formação alguma como artista
plástico: apenas uma semana de aulas numa escola onde seu
pai o matriculou a contragosto. E na qual não agüentou
ficar, porque o professor queria obrigá-lo a desenhar com
régua.
Tomou uma bronca monumental. A família inteira era contra
sua inclinação para o desenho, porque achava que esse tipo
de coisa não dava dinheiro. E o enquadrou num curso de
Direito, que ele fez até os vinte anos:
“Mas eu não conseguia me imaginar como um advogado. E
percebi que estava ali apenas perdendo meu tempo, para minha
mãe dependurar meu diploma na parede”.
Foi quando ele abandonou tudo, na fervilhante década de 70,
inclusive seu futuro na próspera distribuidora de remédios
da família. Saiu de Niterói, onde nasceu e foi para o Rio,
trabalhar na rede de hotéis Othon.
Lá, uma colega de trabalho o indicou para uma vaga como
assistente de decorador em
São Paulo, porque achou que ele tinha jeito para a coisa.
Themilton voou para a Rodoviária.
Na Paulicéia, começou repaginando a suíte presidencial do
Othon Palace Hotel, um dos mais estrelados da cidade. Ficou
por lá e começou a fazer teatro, com Perry Sales, Miriam
Mehler, Ênio Gonçalves, Antunes Filho e outros medalhões do
palco. Foi até galã da TV.
Aí, veio passar um fim-de-semana em Paraty. Viu a cidade do
alto da serra, igualzinha a um presépio e ficou
enlouquecido. Aqui embaixo, encontrou um bando de hippies
assistindo ao pôr-do-sol, com um deles tocando Greensleeves
na flauta doce. Achou que havia encontrado o Paraíso.
“Fiquei mais de um fim-de-semana aqui. Fui a São Paulo, dei
tudo que tinha e voltei para cá. Dia 12 de outubro, fez 34
anos que estou aqui. Hoje, se eu passo três dias fora, o
terceiro já é péssimo. Minha estética mudou. Não acho mais
nada bonito no Rio e em São Paulo. Nem a avenida Paulista,
que eu gostava, com aqueles prédios modernos. Prefiro as
casinhas coloniais daqui”.
Em Paraty, Themilton ficou encantado com a Festa do Divino,
a primeira que viu na vida, porque a cidade grande não
conhece isso. Viu a procissão, correu atrás do Boi e da
Miota e foi parar no almoço, que era na casa do festeiro.
“Não deixaram meu prato ficar vazio. Eu vi quartos
abarrotados de doces para distribuir. E achei uma loucura
aquela coisa comunitária, uma festa com comida para a cidade
inteira”.
Depois disso, Themilton fez três exposições e escreveu dois
livros sobre a Festa do Divino.
“Eu descobri o tesouro que eram o folclore e as tradições de
Paraty, que muitos desconhecem, inclusive gente daqui. Senti
necessidade de registrar tudo aquilo”.
Alguns quadros de Themilton Tavares mostram coisas que não
existem mais na Festa do Divino, como a luta canadense, o
porco ensebado, o jongo.
“Este ano, já não houve as danças, nem o Boi e a Miota.
Está havendo um empobrecimento da festa. Ao mesmo tempo,
era uma coisa para a comunidade e agora querem transformá-la
num produto turístico. E, por causa disso, todas as outras
festas querem ser como a do Divino”.
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