Antigos tanoeiros
Zezito Freire
 
Não sei se ainda existem nem se seu ofício continua sendo importante. Pelo que me consta, desapareceram há muito tempo, acompanhando a decadência da produção de aguardente no município.
 
Por que a aguardente deixou de ser fabricada na mesma quantidade de antigamente, muitas razões há para justificar: a primeira foi a abolição dos escravos. Faltou o braço forte dos negros que trabalhavam o dia inteiro, desde o nascer do sol até o lusco-fusco do anoitecer, por que o senhor mandava e a eles só cabia obedecer. Os senhores de engenho não se prepararam para a drástica mudança e, de uma hora para outra, viram-se à volta com um sério problema: substituir a mão de obra. O sistema de agregados e trabalhadores a jornal (por dia) foi implantado aos poucos e o rendimento dos engenhos caiu.
 
A outra, que foi solapando a produção de pouco em pouco, foi o empobrecimento do solo. A cana no município, na sua grande maioria, era plantada nas encostas de morro a partir do mar, pois a maior quantidade de engenhos ficava à beira-mar, e os de sertão, plantavam em terrenos equivalentes.
 
Diziam, então, que uma das razões por que a aguardente de Paraty suplantava qualquer outra em qualidade, provinha da cana plantada em terreno seco, onde crescia com maior quantidade de sacarose, que facilitava a fermentação espontânea do caldo.
 
Um outro motivo, que provocou desânimo na produção, foi o Imposto de Consumo, que somado ao imposto estadual, levava a metade do preço de venda. Chegou ser tentado qualificar a aguardente paratiense como produto artesanal, livre de imposto, mas, seja por que o fisco com isso não concordou, seja por que o problema não foi tratado com a necessária sabedoria, e mesmo, por falta de apoio logístico, nada foi conseguido à época em que alguns grandes engenhos ainda existiam.
 
Finalmente, o nascimento das grandes usinas, plantando cana em terreno plano, com maquinário apropriado, usando fermento especial para adiantar a fermentação do caldo, produzindo num só dia a quantidade que os antigos engenhos produziam durante o ano, barateou o produto a nível que os produtores de Paraty não podiam competir.
 
O decréscimo da produção deu fim aos depósitos que havia na cidade: comerciantes que recebiam o produto em barris e faziam o engarrafamento.
 
Também acabou a necessidade de tanoeiros na cidade, operários especializados que cuidavam da manutenção dos tonéis, cartolas e barris.
 
No ano de 1937, ainda existia o depósito do Leontino Melo, situado na Rua Jácome de Melo, ao fundo do seu armazém de secos e molhados, na esquina da Rua Tenente Francisco Antonio com a Rua Jácome de Melo.
 
Além desse, na Rua da Praia, em um armazém que desapareceu com a construção do sobrado que ficou conhecido como sobrado do Vogelar, existia o depósito de José Conti.
 
Por esse tempo ainda eram usados os serviços dos tanoeiros, e me lembro bem do Antonino Benedito do Carmo, conhecido como “Mestrinho”, porque era filho do mestre Silvino, que lhe ensinou os segredos do ofício. Antonino, respeitado zagueiro do Jaú Futebol Clube, sem ter mais onde praticar seu ofício, transferiu-se para Cunha, lá se estabeleceu, chegou a ser eleito vereador e depois de falecido passou a ser nome de rua. Também Diógenes, um senhor que residia na Rua Dona Geralda, era mestre nesse ofício e como o Mestrinho, exercia a profissão nos depósitos da cidade.
 
Além deles, cada engenho tinha seu tanoeiro, pois não era admissível guardar a pinga em tonéis com vazamentos, nem utilizar dornas que deixassem o caldo fugir pelas frestas das tabuas mal ajustadas, por falta de calafeto ou pela corrosão dos arcos de ferro. – o arco de barril.
 
Dos engenhos que deram fama à pinga da Paraty restam uns poucos, quatro ou cinco, se tantos, pequenos engenhos movidos por roda d’água ou por força elétrica, mantidos por aqueles que vêm de famílias com tradição no ramo.

São eles que ainda lutam com os problemas da produção e dão sustentação ao Festival da Pinga, um dos eventos turísticos da cidade.


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