Na linha do tempo
A saga da História


Século 16: os primórdios
 

A área onde está Paraty ficava sob a jurisdição da atual Angra dos Reis, que começou com um povoado na localidade de Vila Velha e, em 1593, se elevou a Vila dos Santos Reis Magos. Angra dos Reis, por sua vez, pertencia à Capitania de São Vicente.

O donatário da Capitania de São Vicente era Martim Afonso de Sousa, que fundou como sede a vila de São Vicente, no litoral paulista, em 1532, a primeira povoação oficial da América portuguesa.

O território da Capitania de São Vicente tinha uma seção norte, que ia de Macaé a Caraguatatuba, passando por Cabo Frio, Niterói, Rio de Janeiro, Angra dos Reis e Ubatuba. E uma seção sul, que ia de Bertioga à ilha do Mel, na baía de Paranaguá, passando por São Vicente, Santos, Itanhaém, Peruíbe, Iguape e Cananéia. Entre essas duas seções ficava a Capitania de Santo Amaro, com parte de Caraguatatuba e Bertioga, cujo donatário era Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso de Sousa.

A atividade econômica de São Vicente era a produção de açúcar para exportação, mas fracassou, entre outros fatores, por problemas do solo e pelo transporte caro, devido à distância do Rio de Janeiro e aos riscos da viagem por mar aberto.

Diante disso, os colonos de São Vicente e seus descendentes avançaram pelo litoral, subiram a serra do mar e alcançaram o planalto, procurando sítios melhores para se estabelecerem, desenvolvendo outras atividades econômicas, partindo para a busca de riquezas, deixando povoações em seu rastro e promovendo o desbravamento do território brasileiro.

No planalto paulista, os colonos de São Vicente fundaram várias povoações, entre elas São Paulo de Piratininga, em 1554, onde se dedicaram à agricultura de subsistência, ao gado e chegaram a grandes plantações de trigo usando indígenas como escravos.

Enquanto isso, a Capitania de São Vicente acabou abandonando a seção norte de seu território e a baía da Guanabara foi invadida pela França, em 1555, sob o comando de Nicholas de Villegaignon, para criar a França Antártica, um encrave colonial no Brasil.

Entre os objetivos desse encrave estava a comercialização do pau-brasil, madeira de grande valor na Europa e que eles exploravam no Brasil desde o início do século 16, associados a grupos indígenas. Na baía da Guanabara, que abrigava importantes reservas dessa madeira, os franceses foram calorosamente recebidos pelos tupinambás (1), com quem comerciavam desde 1530.

No sudeste brasileiro, os tupinambás dominavam desde Caraguatatuba e São Sebastião, em São Paulo, até o cabo de São Tomé, no Rio de Janeiro, concentrando-se na baía da Guanabara e em Cabo Frio. A presença dos tupinambás no litoral sudeste foi registrada pelo viajante alemão Hans Staden (2) em 1556, na primeira referência impressa a Paraty.

Aliados aos tupinambás, que estavam unidos na Confederação dos Tamoios (3) contra a escravização pelos portugueses, os franceses passaram a armar emboscadas contra os portugueses por todo o litoral paulista, impedindo-os de se fixarem na terra. Para vencerem os franceses, os portugueses tiveram que fazer um acordo com os tupinambás, mediado pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Com a expulsão dos franceses, em 1567, a seção norte da Capitania de São Vicente foi desmembrada e refundada como Capitania do Rio de Janeiro, sob o comando de Salvador Correia de Sá.

Em 1572, a Coroa instalou nessa capitania o Governo Geral do Leste e do Sul (4) , que abriu comunicações com a Capitania de São Vicente. E, desde o século 16, essa ligação foi articulada pela baía de Paraty, onde se chegava por mar e de onde se subia ao planalto por um antigo caminho indígena da serra da Bocaina.

Mais tarde, esse caminho seria batizado como trilha do Facão, nome do arraial onde terminava, hoje a cidade de Cunha. Agora, a trilha do Facão é conhecida, em Paraty, como Caminho do Ouro.

Essa trilha se transformou no elo essencial de uma próspera rota de comércio conhecida por Caminho Marítimo-Terrestre (5), onde as mercadorias saíam do Rio de Janeiro, desembarcavam no porto de Paraty, subiam a serra até Cunha, passavam por Guaratinguetá e chegavam a São Paulo, de onde seguiam para as povoações paulistas do planalto e desciam a serra do Cubatão rumo a São Vicente e outras vilas litorâneas.
 
Essa intensa linha de comércio pode ter estimulado os colonos da vila de São Vicente, fundadores de São Paulo e dessas povoações, a se estabelecerem na baía de Paraty, formando um povoado no atual morro do Forte e erguendo, em 1630, uma capela a São Roque.

1630-1667: de povoado a vila

A escolha do local para esse povoado seguiu critérios da colonização portuguesa da época. Um deles foi a existência de água potável, essencial para a subsistência da futura população e para o reabastecimento das embarcações de passagem.

Outros foram a proximidade de terrenos próprios para o cultivo e a localização numa baía abrigada, que favorecesse a defesa e a comunicação com o litoral e o interior. No item defesa entrou a elevação do terreno, elemento determinante na localização de cidades durante os séculos 16 e 17. E, nesse caso, a ameaça eram os ataques dos índios guaianás (6).

Do alto do morro do Forte se vêem a Paraty atual e a praia do Jabaquara, onde fica o sítio arqueológico da Toca do Cassununga, um impressionante arranjo natural de rochedos que faz parte do lendário da cidade e sob o qual está enterrado um cemitério indígena que remonta à primitiva ocupação da região (7)..

Em 1646, o povoado do morro recebeu da sesmeira (8) Maria Jácome de Melo uma doação de terras para se fixar entre os rios Perequê-Açu e Patitiba, atual Mateus Nunes, onde está hoje o Centro Histórico. Sesmeiros eram colonos que recebiam da Capitania porções de terra para cultivo e povoamento, chamadas de sesmarias. A condição de D.Maria para a doação dessa área foi de que o povoado erguesse uma Matriz a N.S.dos Remédios, da qual ela era devota.

Nesse mesmo ano, o povoado iniciou a transferência do morro do Forte para essas terras e atendeu à exigência da sesmeira, erguendo a essa santa uma matriz de pau-a-pique, com cobertura de palha. Por isso, o edifício se arruinou em pouco tempo e os moradores ergueram outro semelhante, mais próxima da baía onde se situou o arraial.

Cessada a ameaça dos guaianás, com sua dizimação quase total, foi possível o estabelecimento definitivo do povoado na nova área. Essa transferência também foi possível porque, com o desenvolvimento da artilharia, as povoações ganharam defesa maior para ocupar terrenos planos, ao invés de, obrigatoriamente, lugares altos.

Em 1660, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, mandou alargar a trilha do Facão, então uma estreita picada na mata, transformando o antigo caminho guiaianá numa via de riquezas para a vila Nesse mesmo ano, o povoado se separou por conta própria da freguesia de Angra dos Reis e se auto-nomeou Vila de N.S.dos Remédios de Paraty (9).

Em 1667, a Coroa portuguesa reconheceu essa nomeação como fato consumado e o assentimento a isso se deu em razão do desenvolvimento econômico do povoado e do comércio pela trilha do Facão. Em 1668, a vila iniciou as obras de uma segunda Matriz, em pedra e cal, substituindo a de pau-a-pique.

Até 1700: a busca de riquezas

Ao longo do século 17, principalmente na segunda metade, Paraty testemunhou várias expedições que subiram a trilha do Facão à busca de riquezas, alternativa da Coroa para ampliar as possibilidades de financiamento da colonização, estimulada pela descoberta de civilizações do ouro na América espanhola.

Uma dessas expedições foi a de Martim Correia de Sá, filho do governador da Capitania do Rio de Janeiro, que desembarcou na baía de Paraty em 1596, com 2.700 integrantes, movido pelo sonho de Sabarabuçu, fabulosa serra na Mata Atlântica, com uma lagoa dourada no sopé e um clarão de esmeraldas no topo (10).

A busca de riquezas pelos colonizadores mudaria o destino de Paraty. A partir dessas incursões, nasceu o Caminho Geral do Sertão ou Caminho dos Paulistas, que ligava São Paulo a Guaratinguetá e se embrenhava nas fechadas matas do interior da Capitania.

Foi por esse caminho que, finalmente, foi encontrado ouro no sertão de Cataguases, em 1698, por uma expedição chefiada pelo bandeirante paulista Antonio Dias.

E, graças à sua posição no mapa, Paraty se tornou o caminho mais viável para esse ouro, que vinha pelo Caminho do Sertão, descia a trilha do Facão, embarcava em seu porto e seguia para o Rio de Janeiro, de onde ia para Lisboa.

1703-1733: caminho do ouro

No início do século 18, a vila de Paraty foi oficialmente nomeada como Porto do Ouro e nela foi aberta uma Casa de Registro, para cobrar o imposto sobre o metal transportado. Movimentado porto comercial e escala para as minas, Paraty era passagem de milhares de viajantes.

A segunda Matriz, que ficou longo tempo parada por falta de recursos, retomou as obras em 1709 e chegou à nave e ao frontispício em 1712. Ainda durante o ciclo do ouro foram levantadas as igrejas de Santa Rita, em 1722 e a de N.S.do Rosário, em 1725.

O ouro continuava passando por Paraty, dando-lhe status como caminho de riquezas, mas, desde a descoberta das lavras a Coroa pensou numa mudança dessa rota, para ter mais controle sobre o fluxo do metal e transportá-lo com mais segurança ao Rio de Janeiro, longe de um mar infestado de corsários e piratas (11).

Por isso, logo em 1698, os portugueses começaram a abrir uma ligação terrestre e direta entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, passando pela serra dos Órgãos, que encurtaria a viagem de 30 para 12 dias e ficaria conhecida como Caminho Novo, em contraposição ao Caminho Velho, como passou a ser chamado o Caminho Marítimo-Terrestre.

Em 1710, foi aberta uma Casa de Registro no Caminho Novo e o Caminho Velho foi fechado à circulação de ouro, não sem protestos. Nesse mesmo ano, comerciantes do Rio de Janeiro pediram permissão para ir às minas pelo Caminho Velho, porque o Novo ainda estava “lastimoso”.

Em 1715, a população de Paraty pediu ao rei a reabertura do Caminho Velho, porque a vila havia crescido muito com o porto, o comércio, o transporte de mercadorias e, além do prejuízo nos negócios, corria o risco de ser abandonada pela população, por falta de perspectivas.

O rogo foi atendido, inclusive porque o Caminho Novo ainda era uma vereda estreita, sem postos de abastecimento nem passagem para animais de carga. Mas, em 1725, foi aberta outra via para o Rio de Janeiro, o Caminho Novo da Piedade.

Esse caminho ligou o Caminho do Sertão ao Caminho Novo e uniu São Paulo ao Rio de Janeiro, desviando o resto de ouro que ainda passava por Paraty – o das minas de Goiás e Mato Grosso, descobertas em 1715 e 1721. E, após várias outras medidas, o Caminho Velho foi definitivamente fechado para o ouro em 1733.

Em 1756, os paratienses ainda tentaram impedir a conclusão do Caminho Novo, mas o rei os repreendeu pela insubordinação e as obras principais da nova estrada foram concluídas em 1767.

Na verdade, apesar de sua relevância para a história econômica do Brasil, o ouro deixou pouca riqueza em Paraty. Fatos e documentos mostram que a passagem dessa riqueza pela vila não formou uma elite capaz de se projetar em sobrados magníficos ou igrejas suntuosas, como nas vilas mineiras ou no Rio de Janeiro.

Em 1717 – pleno ciclo do ouro – Paraty foi descrita como um vilarejo pobre, com menos de 50 casas térreas, a maior parte de taipa e coberta de palha. E suas igrejas dessa época não ganharam as fachadas esculpidas, o entalhe das portas, o ouro dos altares, as imagens em madeira policromada ou os tetos primorosamente pintados do barroco mineiro.

Pelo contrário, Paraty lutaria até o final do século 19, para erguer sua Matriz definitiva, enquanto que, logo em 1733, Ouro Preto ergueu sua fabulosa Matriz de N.S.do Pilar, com 472 anjos e 434 quilos de ouro, inaugurada com um verdadeiro esbanjamento de riqueza pela lendária procissão do Triunfo Eucarístico.

Quem sustentou Paraty, antes e depois da passagem do ouro, sempre foi a trilha do Facão. Com a demanda cada vez maior de gêneros pela zona de mineração, a vila passou de simples entreposto distribuidor a produtor e exportador de alimentos e um dos grande escoadouro de mercadorias para o vale do Paraíba e a região do rio das Mortes.

1763: terra da cachaça

Em 1763, já na decadência do ouro, a Coroa transferiu a capital da Colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, trazendo para o sudeste a cultura da cana e as principais rotas de comércio do nordeste. Com isso, Paraty se tornou grande produtora de cana, a maior fabricante de cachaça da Capitania e o tráfego comercial pela trilha do Facão se tornou ainda mais intenso.

Engenhos grandes e pequenos foram instalados às dezenas e uma complexa rede de rios e canais foi aberta para entregar a produção no porto. Em 1799, Paraty concentrava 155 – ou mais de 61% - dos 253 alambiques do Rio de Janeiro, produzindo uma cachaça tão famosa que o nome da vila virou sinônimo do produto;

Pelo caminho da serra, continuavam indo mercadorias, escravos e viajantes para as minas e artigos como sal, azeite e vinho para as vilas mais próximas do vale do Paraíba, de onde vinha uma variedade de alimentos.

O cronista Pizarro e Araújo, que esteve em Paraty entre 1794 a 1799, conta que os negociantes de São Paulo conduziam pelo caminho da serra, em comboios de mulas chamados de tropas, o resultado das lavouras e artigos como fumos, carne de porco e toucinho.

Que, tendo atendido à vila e suas vizinhanças, seguiam em mais de doze embarcações para o Rio de Janeiro e portos mais distantes ao norte e ao sul, levando junto o café, arroz, milho, feijão, aguardente e vários outros produtos de troca comercial.

Pelo porto de Paraty também ia para o Rio de Janeiro o fumo de Baependi, sul de Minas, uma das principais moedas de troca por escravos na Costa da Mina, na África, além da aguardente produzida em Paraty.

Com esses recursos, Paraty começou a erguer a terceira Matriz em 1787. Em 1800, as senhoras da elite ergueram a pequena capela de N.S.das Dores.

1830-1877: a opulência do café

No segundo quartel do século 19, notadamente a partir de 1830, uma nova riqueza se somaria à economia da vila: o café, cultivado desde o início do século 19, que rapidamente se transformou no maior produto de exportação do Brasil.

O vale do Paraíba se transformou na região cafeeira mais importante do País e, nessa época, a única forma de encaminhar a produção ao Rio de Janeiro era transportá-la em tropas de muares até os portos mais próximos, entre eles Paraty. Com isso, o Caminho Velho foi reativado e Paraty conheceu um breve surto de riqueza.

Pela importância como escoadouro dessa riqueza, a vila foi elevada a cidade, em 1844. Nessa época, foi erguida a grande maioria das construções que se vêem hoje no Centro Histórico, entre elas vários sobrados de extremo requinte, com filigranas decorativas, elaborados caixilhos, vidros bisotados e balcões trabalhados em ferro, que muito acrescentaram ao vocabulário arquitetônico brasileiro do século 19 .

1877-1976: o longo sono

No terceiro quartel do século 19, porém, essa situação foi mudando rápida e drasticamente.

Em 1850, ainda era grande o movimento comercial pela trilha do Facão, graças ao café e outros produtos. Mas a repressão ao tráfico de escravos, proibido desde 1831, foi abalando profundamente as outras fontes de ingresso da vila, que eram a produção de aguardente com mão-de-obra cativa e o ativo contrabando de negros para as fazendas de café.

Em 1864, a ferrovia chegou a Barra do Piraí, no vale do Paraíba e o café passou a ser escoado por trem, deixando aos poucos o caminho da serra. Em 1877, o trem chegou a Guaratinguetá e deu o golpe de graça na velha trilha do Facão, que foi abandonada à voragem da mata. Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão e levou a economia de Paraty ao colapso final, por falta de mão-de-obra.

Paraty havia inaugurado a Matriz definitiva em 1873, mas as pessoas já estavam abandonando a cidade, em busca de perspectivas, inclusive à beira da ferrovia. A população de Paraty, que era de 10 mil habitantes por volta de 1830, no final do século baixou para 4 mil.

Sem a trilha para a região serra-acima e precariamente ligada por mar ao Rio de Janeiro, Paraty viveu quase 50 anos de isolamento até 1925, quando a estrada Paraty-Cunha a conectou novamente ao vale do Paraíba.

Destruída por veículos militares durante a Revolução de 30, essa via foi reaberta em 1954, por paulistas interessados na cidade como destino turístico. Mas continuou precária, de trânsito difícil, o que manteve a cidade praticamente inacessível e em estado de semi-abandono até 1976, quando a inauguração da rodovia Rio-Santos finalmente a despertou para o turismo.

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Notas


(1) O termo tupinambá pode se referir tanto a um grupo indígena como à grande nação de que eles faziam parte, junto com tamoios, temiminós, tupiniquins, potiguaras, tabajaras, caetés, amoipiras, tupinás ou tupinaês aricobés e vários outros.
Enquanto nação, os tupinambás dominavam quase todo o litoral brasileiro e tinham uma língua comum, o tupi antigo, cuja gramática foi organizada pelos jesuítas. Apesar disso, viviam numa permanente luta interna, onde os inimigos mortos eram devorados em rituais antropofágicos.

(2) Em seu livro Duas Viagens ao Brasil, Hans Staden conta de um pernoite , supostamente na região de Cairuçu, em Paraty e de um convite do cacique tupinambá Cunhambebe para uma refeição de carne humana. Em seu relato, Staden diz que recusou a gentileza, pontuando que nem os animais comiam exemplares de sua própria espécie, ao que o cacique respondeu que era uma onça e que aquela comida estava muito gostosa. Hans Staden teve duas passagens pelo Brasil. Na primeira, chegou a Pernambuco, em 1548, numa embarcação para carregar pau-brasil, combater franceses que negociavam a madeira com os índios e deixar degredados na Colônia. O governador-geral Duarte da Costa pediu ajuda ao navio para combater indígenas e Staden participou da luta. No mesmo ano, voltou ao Brasil, sofreu um naufrágio em São Vicente e foi contratado pelos portugueses como artilheiro no forte de São Filipe da Bertioga. Nesse período, foi aprisionado pelos tupinambás e passou mais de nove meses com os índios, esperando ser devorado, até que um corsário francês o resgatou. De volta á Europa, publicou suas aventuras, num dos primeiros relatos, para o grande público, sobre os costumes indígenas da América do Sul.

(3) A Confederação dos Tamoios uniu os tupinambás a outras tribos do litoral sudeste e do vale do Paraíba, num formidável poderio de guerra chefiado pelo cacique Cunhambebe, a quem se refere Hans Staden. Diante disso, os portugueses cogitaram em montar uma armada de canoas contra os índios, mas os jesuítas optaram pela negociação e o padre Manuel da Nóbrega levou Cunhambebe a São Vicente, para discutir um acordo. Anchieta ficou como refém na aldeia de Iperoig, atual Ubatuba, onde escreveu na areia da praia seu celebre Poema à Virgem. O acordo com os indios, conhecido como a Paz de Iperoig, é considerado o primeiro com os povos nativos das Américas e dispôs que, se os tupinambás deixassem de apoiar os franceses, não seriam mais molestados pelos portugueses. Mas, quando os colonizadores voltaram à luta contra os franceses, setores tupinambás apoiaram novamente os invasores e os que viviam na baía da Guanabara foram exterminados. Já os de Ubatuba, que não se envolveram na questão, foram assimilados pelos colonos do litoral, dando início à população caiçara ou se internaram na mata, gerando a população cabocla do vale do Paraíba paulista e fluminense.

(4)De 1572 a 1577 e de 1608 a 1612, houve duas tentativas de dividir o território brasileiro em duas regiões; a região norte, com sede em Salvador e a região sul, com sede no Rio de Janeiro. A primeira dessas tentativas se deu depois dos três primeiros governos gerais, os de Tomé de Sousa (1549-1553). de Duarte da Costa (1553-1557) e de Mem de Sá (1558-1572), entre outras razões porque a invasão francesa, entre 1555 e 1567, mostrou que o território era grande demais para apenas um núcleo administrativo.

(5)Muito provavelmente, o Caminho Marítimo-Terrestre foi aberto por volta de 1572, com a instalação do Governo do Leste e do Sul. Antes disso, o Rio de Janeiro estava tomado pelos franceses e, antes dos franceses, era um território abandonado da Capitania de São Vicente. Portanto, logo ao retomar esse território, seria do interesse da Coroa tirá-lo do isolamento e desenvolvê-lo, dentro do lema povoar para defender, da colonização portuguesa. E o melhor caminho para isso seria ligá-lo, pelo comércio, às vilas paulistas do planalto e do litoral.

(6)Os guaianás, também conhecidos por cainguás, eram índios de diversas filiações linguísticas que viviam no Paraná e em São Paulo. Por esse nome foram chamados os guaranis do Paraná e os caingangues de São Paulo. Entre os grandes caciques guaianás da época da colonização, estavam Piquerobi e Tibiriçá, cuja filha era casada com João Ramalho. O interior era dominado por Jagoanharo, filho de Piquerobi.

(7)Diz o lendário de Paraty que, na Toca do Cassununga, vive uma aparição chamada Corpo Seco. Trata-se se um homem que seviciou a própria mãe e levou a vida praticando maldades. Por isso, quando morreu, não foi acolhido nem por Deus nem pelo Diabo. A própria terra expulsou seu corpo e até hoje ele vaga por lá, na calada da noite, assombrando os passantes com a pele sobre os ossos.
Também se diz que na Toca se reunia o Clube dos Luvas Negras, grupo ligado à Maçonaria, que tinha a missão de punir membros faltosos e executar inimigos da seita.

(8)Chamavam-se sesmeiros os beneficiários das sesmarias, porções de terra doadas a colonos pelos donatários das Capitanias Hereditárias, para cultivo e colonização. Não se conhecem as circunstâncias em que D.Maria Jácome de Melo doou essas terras ao povoado de São Roque, nem a Lei de Sesmarias se pronunciava sobre doações de sesmeiros a outros colonos. Mas D.Maria pode ter feito isso como forma de aproveitar essas terras, já que teria que devolvê-las à Coroa em cinco anos, caso isso não acontecesse. E nem sempre os sesmeiros tinham condições de explorar toda a terra que recebiam, que ia de 10 a 60 quilômetros quadrados.

(9) Dificilmente as melhorias na trilha do Facão e a auto-nomeação do povoado como vila foram fatos isolados. A futura Paraty já era de fundamental importância para a colonização, como elo integrador do sudeste do território, através da rota comercial que passava pela trilha do Facão. As melhorias nessa trilha, ordenadas pela Capitania do Rio de Janeiro, podem ter funcionado como respaldo para a declaração de autonomia do povoado, que já se havia separado de Angra dos Reis, erigindo uma Matriz própria.

(10) Outras expedições foram atrás de Sabarabuçu e a mais famosa delas foi a de Fernão Dias Pais, em 1674, que passou à História como o Caçador de Esmeraldas.

(11) Os piratas eram bandidos do mar, que agiam por contar própria. Os corsários eram piratas oficiais, a serviço das Coroas que disputavam o Novo Mundo, notadamente a inglesa, a francesa e a holandesa. Em 1708, o pirata inglês Woodes Rogers, abordou um navio português carregado de escravos para as minas e ouviu de um dos tripulantes que os lotes de ouro eram frequentemente pilhados por corsários franceses que, certa vez, levaram mais de meia tonelada em lingotes. Os franceses, que já haviam invadido a baía da Guanabara em 1555, em função do pau-brasil, voltaram a assaltar a Colônia mais três vezes. Em 1614, foram rechaçados no Maranhão. Em 1704, o ministro da Marinha de Luís 14 enviou ao soberano francês notícias sobre o Rio de Janeiro e as minas. Em 1710, o almirante Jean-François Duclerc atacou o Rio de Janeiro com cinco navios e mil homens, mas foi aprisionado e morto. Em 1711, 18 navios entraram na baía da Guanabara sob o comando de René Duguay-Trouin, que tomou o Rio de Janeiro e só o devolveu sob um vultoso resgate, do qual participou Paraty, com todo o açúcar de que dispunha, mercadoria valiosa, na época. Em 1714, a referência é ao comerciante francês La Barbinais Le Gentil, que esteve em Paraty fazendo negócios com um contrabandista local e deixou um relato sobre a vila e seus habitantes, mostrando que sabia muito bem das riquezas que passavam por ali.

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Fontes:
Gold Route in Paraty and its landscape, Pro-Paraty WHeritage Permanent Comission, 2003
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sobre o Caminho do Ouro em Caminho de riquezas
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