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Na linha do tempo
A saga da
História
Século 16: os primórdios
A área onde está Paraty ficava sob a jurisdição da atual
Angra dos Reis, que começou com um povoado na localidade de
Vila Velha e, em 1593, se elevou a Vila dos Santos Reis
Magos. Angra dos Reis, por sua vez, pertencia à Capitania de
São Vicente.
O donatário da Capitania de São Vicente era Martim Afonso de
Sousa, que fundou como sede a vila de São Vicente, no
litoral paulista, em 1532, a primeira povoação oficial da
América portuguesa.
O território da Capitania de São Vicente tinha uma seção
norte, que ia de Macaé a Caraguatatuba, passando por Cabo
Frio, Niterói, Rio de Janeiro, Angra dos Reis e Ubatuba. E
uma seção sul, que ia de Bertioga à ilha do Mel, na baía de
Paranaguá, passando por São Vicente, Santos, Itanhaém,
Peruíbe, Iguape e Cananéia. Entre essas duas seções ficava a
Capitania de Santo Amaro, com parte de Caraguatatuba e
Bertioga, cujo donatário era Pero Lopes de Sousa, irmão de
Martim Afonso de Sousa.
A atividade econômica de São Vicente era a produção de
açúcar para exportação, mas fracassou, entre outros fatores,
por problemas do solo e pelo transporte caro, devido à
distância do Rio de Janeiro e aos riscos da viagem por mar
aberto.
Diante disso, os colonos de São Vicente e seus descendentes
avançaram pelo litoral, subiram a serra do mar e alcançaram
o planalto, procurando sítios melhores para se
estabelecerem, desenvolvendo outras atividades econômicas,
partindo para a busca de riquezas, deixando povoações em seu
rastro e promovendo o desbravamento do território
brasileiro.
No planalto paulista, os colonos de São Vicente fundaram
várias povoações, entre elas São Paulo de Piratininga, em
1554, onde se dedicaram à agricultura de subsistência, ao
gado e chegaram a grandes plantações de trigo usando
indígenas como escravos.
Enquanto isso, a Capitania de São Vicente acabou abandonando
a seção norte de seu território e a baía da Guanabara foi
invadida pela França, em 1555, sob o comando de Nicholas de
Villegaignon, para criar a França Antártica, um encrave
colonial no Brasil.
Entre os objetivos desse encrave estava a comercialização do
pau-brasil, madeira de grande valor na Europa e que eles
exploravam no Brasil desde o início do século 16, associados
a grupos indígenas. Na baía da Guanabara, que abrigava
importantes reservas dessa madeira, os franceses foram
calorosamente recebidos pelos tupinambás (1), com quem
comerciavam desde 1530.
No sudeste brasileiro, os tupinambás dominavam desde
Caraguatatuba e São Sebastião, em São Paulo, até o cabo de
São Tomé, no Rio de Janeiro, concentrando-se na baía da
Guanabara e em Cabo Frio. A presença dos tupinambás no
litoral sudeste foi registrada pelo viajante alemão Hans
Staden (2) em 1556, na primeira referência impressa a
Paraty.
Aliados aos tupinambás, que estavam unidos na Confederação
dos Tamoios (3) contra a escravização pelos portugueses, os
franceses passaram a armar emboscadas contra os portugueses
por todo o litoral paulista, impedindo-os de se fixarem na
terra. Para vencerem os franceses, os portugueses tiveram
que fazer um acordo com os tupinambás, mediado pelos
jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.
Com a expulsão dos franceses, em 1567, a seção norte da
Capitania de São Vicente foi desmembrada e refundada como
Capitania do Rio de Janeiro, sob o comando de Salvador
Correia de Sá.
Em 1572, a Coroa instalou nessa capitania o Governo Geral do
Leste e do Sul (4) , que abriu comunicações com a Capitania
de São Vicente. E, desde o século 16, essa ligação foi
articulada pela baía de Paraty, onde se chegava por mar e de
onde se subia ao planalto por um antigo caminho indígena da
serra da Bocaina.
Mais tarde, esse caminho seria batizado como trilha do
Facão, nome do arraial onde terminava, hoje a cidade de
Cunha. Agora, a trilha do Facão é conhecida, em Paraty, como
Caminho do Ouro.
Essa trilha se transformou no elo essencial de uma próspera
rota de comércio conhecida por Caminho Marítimo-Terrestre
(5), onde as mercadorias saíam do Rio de Janeiro,
desembarcavam no porto de Paraty, subiam a serra até Cunha,
passavam por Guaratinguetá e chegavam a São Paulo, de onde
seguiam para as povoações paulistas do planalto e desciam a
serra do Cubatão rumo a São Vicente e outras vilas
litorâneas.
Essa intensa linha de comércio pode ter estimulado os
colonos da vila de São Vicente, fundadores de São Paulo e
dessas povoações, a se estabelecerem na baía de Paraty,
formando um povoado no atual morro do Forte e erguendo, em
1630, uma capela a São Roque.
1630-1667: de povoado a vila
A escolha do local para esse povoado seguiu critérios da
colonização portuguesa da época. Um deles foi a existência
de água potável, essencial para a subsistência da futura
população e para o reabastecimento das embarcações de
passagem.
Outros foram a proximidade de terrenos próprios para o
cultivo e a localização numa baía abrigada, que favorecesse
a defesa e a comunicação com o litoral e o interior. No item
defesa entrou a elevação do terreno, elemento determinante
na localização de cidades durante os séculos 16 e 17. E,
nesse caso, a ameaça eram os ataques dos índios guaianás
(6).
Do alto do morro do Forte se vêem a Paraty atual e a praia
do Jabaquara, onde fica o sítio arqueológico da Toca do
Cassununga, um impressionante arranjo natural de rochedos
que faz parte do lendário da cidade e sob o qual está
enterrado um cemitério indígena que remonta à primitiva
ocupação da região (7)..
Em 1646, o povoado do morro recebeu da sesmeira (8) Maria
Jácome de Melo uma doação de terras para se fixar entre os
rios Perequê-Açu e Patitiba, atual Mateus Nunes, onde está
hoje o Centro Histórico. Sesmeiros eram colonos que recebiam
da Capitania porções de terra para cultivo e povoamento,
chamadas de sesmarias. A condição de D.Maria para a doação
dessa área foi de que o povoado erguesse uma Matriz a
N.S.dos Remédios, da qual ela era devota.
Nesse mesmo ano, o povoado iniciou a transferência do morro
do Forte para essas terras e atendeu à exigência da sesmeira,
erguendo a essa santa uma matriz de pau-a-pique, com
cobertura de palha. Por isso, o edifício se arruinou em
pouco tempo e os moradores ergueram outro semelhante, mais
próxima da baía onde se situou o arraial.
Cessada a ameaça dos guaianás, com sua dizimação quase
total, foi possível o estabelecimento definitivo do povoado
na nova área. Essa transferência também foi possível porque,
com o desenvolvimento da artilharia, as povoações ganharam
defesa maior para ocupar terrenos planos, ao invés de,
obrigatoriamente, lugares altos.
Em 1660, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de
Sá, mandou alargar a trilha do Facão, então uma estreita
picada na mata, transformando o antigo caminho guiaianá numa
via de riquezas para a vila Nesse mesmo ano, o povoado se
separou por conta própria da freguesia de Angra dos Reis e
se auto-nomeou Vila de N.S.dos Remédios de Paraty (9).
Em 1667, a Coroa portuguesa reconheceu essa nomeação como
fato consumado e o assentimento a isso se deu em razão do
desenvolvimento econômico do povoado e do comércio pela
trilha do Facão. Em 1668, a vila iniciou as obras de uma
segunda Matriz, em pedra e cal, substituindo a de
pau-a-pique.
Até 1700: a busca de riquezas
Ao longo do século 17, principalmente na segunda metade,
Paraty testemunhou várias expedições que subiram a trilha do
Facão à busca de riquezas, alternativa da Coroa para ampliar
as possibilidades de financiamento da colonização,
estimulada pela descoberta de civilizações do ouro na
América espanhola.
Uma dessas expedições foi a de Martim Correia de Sá, filho
do governador da Capitania do Rio de Janeiro, que
desembarcou na baía de Paraty em 1596, com 2.700
integrantes, movido pelo sonho de Sabarabuçu, fabulosa serra
na Mata Atlântica, com uma lagoa dourada no sopé e um clarão
de esmeraldas no topo (10).
A busca de riquezas pelos colonizadores mudaria o destino de
Paraty. A partir dessas incursões, nasceu o Caminho Geral do
Sertão ou Caminho dos Paulistas, que ligava São Paulo a
Guaratinguetá e se embrenhava nas fechadas matas do interior
da Capitania.
Foi por esse caminho que, finalmente, foi encontrado ouro no
sertão de Cataguases, em 1698, por uma expedição chefiada
pelo bandeirante paulista Antonio Dias.
E, graças à sua posição no mapa, Paraty se tornou o caminho
mais viável para esse ouro, que vinha pelo Caminho do
Sertão, descia a trilha do Facão, embarcava em seu porto e
seguia para o Rio de Janeiro, de onde ia para Lisboa.
1703-1733: caminho do ouro
No início do século 18, a vila de Paraty foi oficialmente
nomeada como Porto do Ouro e nela foi aberta uma Casa de
Registro, para cobrar o imposto sobre o metal transportado.
Movimentado porto comercial e escala para as minas, Paraty
era passagem de milhares de viajantes.
A segunda Matriz, que ficou longo tempo parada por falta de
recursos, retomou as obras em 1709 e chegou à nave e ao
frontispício em 1712. Ainda durante o ciclo do ouro foram
levantadas as igrejas de Santa Rita, em 1722 e a de N.S.do
Rosário, em 1725.
O ouro continuava passando por Paraty, dando-lhe status como
caminho de riquezas, mas, desde a descoberta das lavras a
Coroa pensou numa mudança dessa rota, para ter mais controle
sobre o fluxo do metal e transportá-lo com mais segurança ao
Rio de Janeiro, longe de um mar infestado de corsários e
piratas (11).
Por isso, logo em 1698, os portugueses começaram a abrir uma
ligação terrestre e direta entre Minas Gerais e o Rio de
Janeiro, passando pela serra dos Órgãos, que encurtaria a
viagem de 30 para 12 dias e ficaria conhecida como Caminho
Novo, em contraposição ao Caminho Velho, como passou a ser
chamado o Caminho Marítimo-Terrestre.
Em 1710, foi aberta uma Casa de Registro no Caminho Novo e o
Caminho Velho foi fechado à circulação de ouro, não sem
protestos. Nesse mesmo ano, comerciantes do Rio de Janeiro
pediram permissão para ir às minas pelo Caminho Velho,
porque o Novo ainda estava “lastimoso”.
Em 1715, a população de Paraty pediu ao rei a reabertura do
Caminho Velho, porque a vila havia crescido muito com o
porto, o comércio, o transporte de mercadorias e, além do
prejuízo nos negócios, corria o risco de ser abandonada pela
população, por falta de perspectivas.
O rogo foi atendido, inclusive porque o Caminho Novo ainda
era uma vereda estreita, sem postos de abastecimento nem
passagem para animais de carga. Mas, em 1725, foi aberta
outra via para o Rio de Janeiro, o Caminho Novo da Piedade.
Esse caminho ligou o Caminho do Sertão ao Caminho Novo e
uniu São Paulo ao Rio de Janeiro, desviando o resto de ouro
que ainda passava por Paraty – o das minas de Goiás e Mato
Grosso, descobertas em 1715 e 1721. E, após várias outras
medidas, o Caminho Velho foi definitivamente fechado para o
ouro em 1733.
Em 1756, os paratienses ainda tentaram impedir a conclusão
do Caminho Novo, mas o rei os repreendeu pela insubordinação
e as obras principais da nova estrada foram concluídas em
1767.
Na verdade, apesar de sua relevância para a história
econômica do Brasil, o ouro deixou pouca riqueza em Paraty.
Fatos e documentos mostram que a passagem dessa riqueza pela
vila não formou uma elite capaz de se projetar em sobrados
magníficos ou igrejas suntuosas, como nas vilas mineiras ou
no Rio de Janeiro.
Em 1717 – pleno ciclo do ouro – Paraty foi descrita como um
vilarejo pobre, com menos de 50 casas térreas, a maior parte
de taipa e coberta de palha. E suas igrejas dessa época não
ganharam as fachadas esculpidas, o entalhe das portas, o
ouro dos altares, as imagens em madeira policromada ou os
tetos primorosamente pintados do barroco mineiro.
Pelo contrário, Paraty lutaria até o final do século 19,
para erguer sua Matriz definitiva, enquanto que, logo em
1733, Ouro Preto ergueu sua fabulosa Matriz de N.S.do Pilar,
com 472 anjos e 434 quilos de ouro, inaugurada com um
verdadeiro esbanjamento de riqueza pela lendária procissão
do Triunfo Eucarístico.
Quem sustentou Paraty, antes e depois da passagem do ouro,
sempre foi a trilha do Facão. Com a demanda cada vez maior
de gêneros pela zona de mineração, a vila passou de simples
entreposto distribuidor a produtor e exportador de alimentos
e um dos grande escoadouro de mercadorias para o vale do
Paraíba e a região do rio das Mortes.
1763: terra da cachaça
Em 1763, já na decadência do ouro, a Coroa transferiu a
capital da Colônia de Salvador para o Rio de Janeiro,
trazendo para o sudeste a cultura da cana e as principais
rotas de comércio do nordeste. Com isso, Paraty se tornou
grande produtora de cana, a maior fabricante de cachaça da
Capitania e o tráfego comercial pela trilha do Facão se
tornou ainda mais intenso.
Engenhos grandes e pequenos foram instalados às dezenas e
uma complexa rede de rios e canais foi aberta para entregar
a produção no porto. Em 1799, Paraty concentrava 155 – ou
mais de 61% - dos 253 alambiques do Rio de Janeiro,
produzindo uma cachaça tão famosa que o nome da vila virou
sinônimo do produto;
Pelo caminho da serra, continuavam indo mercadorias,
escravos e viajantes para as minas e artigos como sal,
azeite e vinho para as vilas mais próximas do vale do
Paraíba, de onde vinha uma variedade de alimentos.
O cronista Pizarro e Araújo, que esteve em Paraty entre 1794
a 1799, conta que os negociantes de São Paulo conduziam pelo
caminho da serra, em comboios de mulas chamados de tropas, o
resultado das lavouras e artigos como fumos, carne de porco
e toucinho.
Que, tendo atendido à vila e suas vizinhanças, seguiam em
mais de doze embarcações para o Rio de Janeiro e portos mais
distantes ao norte e ao sul, levando junto o café, arroz,
milho, feijão, aguardente e vários outros produtos de troca
comercial.
Pelo porto de Paraty também ia para o Rio de Janeiro o fumo
de Baependi, sul de Minas, uma das principais moedas de
troca por escravos na Costa da Mina, na África, além da
aguardente produzida em Paraty.
Com esses recursos, Paraty começou a erguer a terceira
Matriz em 1787. Em 1800, as senhoras da elite ergueram a
pequena capela de N.S.das Dores.
1830-1877: a opulência do café
No segundo quartel do século 19, notadamente a partir de
1830, uma nova riqueza se somaria à economia da vila: o
café, cultivado desde o início do século 19, que rapidamente
se transformou no maior produto de exportação do Brasil.
O vale do Paraíba se transformou na região cafeeira mais
importante do País e, nessa época, a única forma de
encaminhar a produção ao Rio de Janeiro era transportá-la em
tropas de muares até os portos mais próximos, entre eles
Paraty. Com isso, o Caminho Velho foi reativado e Paraty
conheceu um breve surto de riqueza.
Pela importância como escoadouro dessa riqueza, a vila foi
elevada a cidade, em 1844. Nessa época, foi erguida a grande
maioria das construções que se vêem hoje no Centro
Histórico, entre elas vários sobrados de extremo requinte,
com filigranas decorativas, elaborados caixilhos, vidros
bisotados e balcões trabalhados em ferro, que muito
acrescentaram ao vocabulário arquitetônico brasileiro do
século 19 .
1877-1976: o longo sono
No terceiro quartel do século 19, porém, essa situação foi
mudando rápida e drasticamente.
Em 1850, ainda era grande o movimento comercial pela trilha
do Facão, graças ao café e outros produtos. Mas a repressão
ao tráfico de escravos, proibido desde 1831, foi abalando
profundamente as outras fontes de ingresso da vila, que eram
a produção de aguardente com mão-de-obra cativa e o ativo
contrabando de negros para as fazendas de café.
Em 1864, a ferrovia chegou a Barra do Piraí, no vale do
Paraíba e o café passou a ser escoado por trem, deixando aos
poucos o caminho da serra. Em 1877, o trem chegou a
Guaratinguetá e deu o golpe de graça na velha trilha do
Facão, que foi abandonada à voragem da mata. Em 1888, a Lei
Áurea aboliu a escravidão e levou a economia de Paraty ao
colapso final, por falta de mão-de-obra.
Paraty havia inaugurado a Matriz definitiva em 1873, mas as
pessoas já estavam abandonando a cidade, em busca de
perspectivas, inclusive à beira da ferrovia. A população de
Paraty, que era de 10 mil habitantes por volta de 1830, no
final do século baixou para 4 mil.
Sem a trilha para a região serra-acima e precariamente
ligada por mar ao Rio de Janeiro, Paraty viveu quase 50 anos
de isolamento até 1925, quando a estrada Paraty-Cunha a
conectou novamente ao vale do Paraíba.
Destruída por veículos militares durante a Revolução de 30,
essa via foi reaberta em 1954, por paulistas interessados na
cidade como destino turístico. Mas continuou precária, de
trânsito difícil, o que manteve a cidade praticamente
inacessível e em estado de semi-abandono até 1976, quando a
inauguração da rodovia Rio-Santos finalmente a despertou
para o turismo.
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Notas
(1)
O termo tupinambá pode se referir tanto a um grupo indígena
como à grande nação de que eles faziam parte, junto com
tamoios, temiminós, tupiniquins, potiguaras, tabajaras,
caetés, amoipiras, tupinás ou tupinaês aricobés e vários
outros.
Enquanto nação, os tupinambás dominavam quase todo o litoral
brasileiro e tinham uma língua comum, o tupi antigo, cuja
gramática foi organizada pelos jesuítas. Apesar disso,
viviam numa permanente luta interna, onde os inimigos mortos
eram devorados em rituais antropofágicos.
(2)
Em seu livro Duas Viagens ao Brasil, Hans Staden conta de um
pernoite , supostamente na região de Cairuçu, em Paraty e de
um convite do cacique tupinambá Cunhambebe para uma refeição
de carne humana.
Em seu relato, Staden diz que recusou a gentileza, pontuando
que nem os animais comiam exemplares de sua própria espécie,
ao que o cacique respondeu que era uma onça e que aquela
comida estava muito gostosa. Hans Staden teve duas passagens pelo Brasil. Na primeira,
chegou a Pernambuco, em 1548, numa embarcação para carregar
pau-brasil, combater franceses que negociavam a madeira com
os índios e deixar degredados na Colônia. O governador-geral
Duarte da Costa pediu ajuda ao navio para combater indígenas
e Staden participou da luta.
No mesmo ano, voltou ao Brasil, sofreu um naufrágio em São
Vicente e foi contratado pelos portugueses como artilheiro
no forte de São Filipe da Bertioga. Nesse período, foi
aprisionado pelos tupinambás e passou mais de nove meses com
os índios, esperando ser devorado, até que um corsário
francês o resgatou.
De volta á Europa, publicou suas aventuras, num dos
primeiros relatos, para o grande público, sobre os costumes
indígenas da América do Sul.
(3)
A Confederação dos Tamoios uniu os tupinambás a outras
tribos do litoral sudeste e do vale do Paraíba, num
formidável poderio de guerra chefiado pelo cacique
Cunhambebe, a quem se refere Hans Staden.
Diante disso, os portugueses cogitaram em montar uma armada
de canoas contra os índios, mas os jesuítas optaram pela
negociação e o padre Manuel da Nóbrega levou Cunhambebe a
São Vicente, para discutir um acordo. Anchieta ficou como
refém na aldeia de Iperoig, atual Ubatuba, onde escreveu na
areia da praia seu celebre Poema à Virgem.
O acordo com os indios, conhecido como a Paz de Iperoig, é
considerado o primeiro com os povos nativos das Américas e
dispôs que, se os tupinambás deixassem de apoiar os
franceses, não seriam mais molestados pelos portugueses.
Mas, quando os colonizadores voltaram à luta contra os
franceses, setores tupinambás apoiaram novamente os
invasores e os que viviam na baía da Guanabara foram
exterminados.
Já os de Ubatuba, que não se envolveram na questão, foram
assimilados pelos colonos do litoral, dando início à
população caiçara ou se internaram na mata, gerando a
população cabocla do vale do Paraíba paulista e fluminense.
(4)De 1572 a 1577 e de 1608 a 1612, houve duas tentativas de
dividir o território brasileiro em duas regiões; a região
norte, com sede em Salvador e a região sul, com sede no Rio
de Janeiro.
A primeira dessas tentativas se deu depois dos três
primeiros governos gerais, os de Tomé de Sousa (1549-1553).
de Duarte da Costa (1553-1557) e de Mem de Sá (1558-1572),
entre outras razões porque a invasão francesa, entre 1555 e
1567, mostrou que o território era grande demais para apenas
um núcleo administrativo.
(5)Muito provavelmente, o Caminho Marítimo-Terrestre foi aberto
por volta de 1572, com a instalação do Governo do Leste e do
Sul. Antes disso, o Rio de Janeiro estava tomado pelos
franceses e, antes dos franceses, era um território
abandonado da Capitania de São Vicente.
Portanto, logo ao retomar esse território, seria do
interesse da Coroa tirá-lo do isolamento e desenvolvê-lo,
dentro do lema povoar para defender, da colonização
portuguesa. E o melhor caminho para isso seria ligá-lo, pelo
comércio, às vilas paulistas do planalto e do litoral.
(6)Os guaianás, também conhecidos por cainguás, eram índios de
diversas filiações linguísticas que viviam no Paraná e em
São Paulo. Por esse nome foram chamados os guaranis do
Paraná e os caingangues de São Paulo.
Entre os grandes caciques guaianás da época da colonização,
estavam Piquerobi e Tibiriçá, cuja filha era casada com João
Ramalho. O interior era dominado por Jagoanharo, filho de
Piquerobi.
(7)Diz o lendário de Paraty que, na Toca do Cassununga, vive
uma aparição chamada Corpo Seco. Trata-se se um homem que
seviciou a própria mãe e levou a vida praticando maldades.
Por isso, quando morreu, não foi acolhido nem por Deus nem
pelo Diabo. A própria terra expulsou seu corpo e até hoje
ele vaga por lá, na calada da noite, assombrando os
passantes com a pele sobre os ossos.
Também se diz que na Toca se reunia o Clube dos Luvas
Negras, grupo ligado à Maçonaria, que tinha a missão de
punir membros faltosos e executar inimigos da seita.
(8)Chamavam-se sesmeiros os beneficiários das sesmarias,
porções de terra doadas a colonos pelos donatários das
Capitanias Hereditárias, para cultivo e colonização.
Não se conhecem as circunstâncias em que D.Maria Jácome de
Melo doou essas terras ao povoado de São Roque, nem a Lei de
Sesmarias se pronunciava sobre doações de sesmeiros a outros
colonos.
Mas D.Maria pode ter feito isso como forma de aproveitar
essas terras, já que teria que devolvê-las à Coroa em cinco
anos, caso isso não acontecesse. E nem sempre os sesmeiros
tinham condições de explorar toda a terra que recebiam, que
ia de 10 a 60 quilômetros quadrados.
(9)
Dificilmente as melhorias na trilha do Facão e a
auto-nomeação do povoado como vila foram fatos isolados. A
futura Paraty já era de fundamental importância para a
colonização, como elo integrador do sudeste do território,
através da rota comercial que passava pela trilha do Facão.
As melhorias nessa trilha, ordenadas pela Capitania do Rio
de Janeiro, podem ter funcionado como respaldo para a
declaração de autonomia do povoado, que já se havia separado
de Angra dos Reis, erigindo uma Matriz própria.
(10)
Outras expedições foram atrás de Sabarabuçu e a mais famosa
delas foi a de Fernão Dias Pais, em 1674, que passou à
História como o Caçador de Esmeraldas.
(11)
Os piratas eram bandidos do mar, que agiam por contar
própria. Os corsários eram piratas oficiais, a serviço das
Coroas que disputavam o Novo Mundo, notadamente a inglesa, a
francesa e a holandesa.
Em 1708, o pirata inglês Woodes Rogers, abordou um navio
português carregado de escravos para as minas e ouviu de um
dos tripulantes que os lotes de ouro eram frequentemente
pilhados por corsários franceses que, certa vez, levaram
mais de meia tonelada em lingotes.
Os franceses, que já haviam invadido a baía da Guanabara em
1555, em função do pau-brasil, voltaram a assaltar a Colônia
mais três vezes. Em 1614, foram rechaçados no Maranhão. Em
1704, o ministro da Marinha de Luís 14 enviou ao soberano
francês notícias sobre o Rio de Janeiro e as minas.
Em 1710, o almirante Jean-François Duclerc atacou o Rio de
Janeiro com cinco navios e mil homens, mas foi aprisionado e
morto. Em 1711, 18 navios entraram na baía da Guanabara sob
o comando de René Duguay-Trouin, que tomou o Rio de Janeiro
e só o devolveu sob um vultoso resgate, do qual participou
Paraty, com todo o açúcar de que dispunha, mercadoria
valiosa, na época.
Em 1714, a referência é ao comerciante francês La Barbinais
Le Gentil, que esteve em Paraty fazendo negócios com um
contrabandista local e deixou um relato sobre a vila e seus
habitantes, mostrando que sabia muito bem das riquezas que
passavam por ali.
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Fontes:
Gold Route in Paraty and its landscape, Pro-Paraty WHeritage
Permanent Comission, 2003
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