Na linha do tempo

Caminho de riquezas

 


Os índios sempre se utilizaram de trilhas, em seus deslocamentos. Trilhas pedestres, que atravessavam montanhas e levavam a praias do litoral e trilhas que avançavam mata adentro, levando a rios, vales, aldeias e pontos de caça e coleta de alimentos. .

 

Uma dessas trilhas subia a serra da Bocaina e era usada pelos índios guaianás, antigos habitantes de Paraty. Ficou conhecida como trilha do Facão, nome do arraial onde desembocava, hoje a cidade de Cunha, do qual se chegava ao vale do Paraíba. Hoje, a trilha do Facão é conhecida, em Paraty, como Caminho do Ouro.

 

Em 1567, foi fundada a Capitania do Rio de Janeiro. Em 1572, a cidade do Rio de Janeiro se tornou sede do Governo Geral do Leste e do Sul. E uma das iniciativas desse governo foi abrir, por essa trilha, uma ligação com a recém-fundada São Paulo, no planalto paulista e as vilas litorâneas do sul da Capitania de São Vicente.

 

Rapidamente, essa ligação se transformou numa próspera rota comercial, chamada de Caminho Marítimo-Terrestre. Por ela as mercadorias iam por mar do Rio de Janeiro a Paraty, subiam a trilha do Facão até Cunha; passavam por Guaratinguetá, no vale do Paraíba e tomavam duas direções. Uma era São Paulo e as vilas do planalto paulista. Outra eram as vilas do litoral paulista, descendo a serra de Cubatão.

Ao mesmo tempo, ao ligar a Capitania do Rio de Janeiro à de São Vicente, pelo planalto paulista, esse caminho pode ter incentivado o estabelecimento de colonos vicentinos na baía de Paraty, primeiro no atual morro do Forte e, mais tarde, na várzea entre os rios Perequê-Açu e Patitiba, hoje Mateus Nunes.

Em 1660, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, ordenou melhorias na trilha do Facão, que até então era uma picada na mata. E, nesse mesmo ano, já em boa situação graças a essa via comercial, o povoado fundado pelos vicentinos se auto-elevou a vila, com o nome de N.S.dos Remédios de Paraty.

Até o final do século 17, várias expedições em busca de riquezas passaram por esse caminho em direção ao planalto. Uma delas foi a de Martim Correia de Sá, que partiu do Rio de Janeiro, em 1596 e desembarcou com 2.700 homens na baía de Paraty.  

De Paraty, essa expedição subiu a trilha do Facão rumo a Guaratinguetá, São Paulo e o nordeste da Capitania, em busca de Sabarabuçu; fabulosa serra escondida pela Mata Atlântica, com uma lagoa de ouro no sopé e um clarão de esmeraldas no topo.

Várias outras expedições seguiram esse sonho - a mais famosa foi a do bandeirante Fernão Dias Paes, que passou para a História como o Caçador de Esmeraldas. A partir dessas incursões, surgiu o Caminho do Sertão, rumo a Minas Gerais e, seguindo por ele, Antonio Dias encontrou ouro no sertão de Cataguases, em 1698.

Ponto estratégico entre o litoral e os caminhos do sertão, Paraty se tornou passagem obrigatória dessa riqueza, que vinha de Minas, descia a trilha do Facão, embarcava em seu porto para o Rio de Janeiro e dali seguia, rumo a Lisboa.  

Com isso, Paraty foi nomeada, oficialmente, Porto do Ouro e ganhou uma Casa de Registro, para cobrar o imposto sobre o metal transportado. Tornou-se, também, um movimentado porto comercial para o abastecimento das minas e uma concorrida escala de milhares de viajantes rumo a essa região.

Mas, logo em seguida à descoberta do ouro, a Coroa portuguesa passou a pensar numa mudança de rota para essa riqueza, que permitisse um controle maior sobre seu fluxo e um transporte para o Rio de Janeiro a salvo de
piratas e corsários.

 

Por isso, já em 1698, os portugueses abriram uma ligação por terra entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, que ficaria conhecida como Caminho Novo, em contraposição ao Caminho Velho, como passou a ser chamado o Caminho Marítimo-Terrestre.  E, após idas e vindas, o Caminho Velho foi definitivamente fechado para o ouro em 1733.  

 

Mesmo assim, o Caminho Velho continuou desempenhando um papel essencial para a vila de Paraty, levando mercadorias, escravos e viajantes para as minas e itens como sal, azeite e vinho para as povoações mais próximas do vale do Paraíba.

 

Em 1763, mais um fato concorreria para a prosperidade de Paraty: a Coroa transferiu a capital da Colônia para o Rio de Janeiro, deslocando as principais rotas de comércio e a cultura da cana para o sudeste do Brasil.  

 

Paraty se tornou rapidamente grande produtora de cana e o maior fabricante de cachaça da Capitania do Rio de Janeiro, produto que seria ativamente exportado para as minas e para a África, onde era trocado por escravos.

 

No final do século 18, a produção de aguardente de Paraty se somou a um intenso tráfego comercial pela trilha do Facão, como conta o cronista Pizarro e Araújo, que esteve na vila em 1794 e 1799.

 

Segundo ele, os negociantes de São Paulo desciam o caminho da serra com produtos da lavoura e gêneros como fumo, carne de porco e toucinho, que se somavam ao arroz, feijão, milho e aguardente, entre outros itens e enchiam mais de doze embarcações rumo ao Rio de Janeiro e portos mais distantes da Colônia. 

 

Por volta de 1830, outra riqueza chegaria á vila: o café do vale do Paraíba, que, para chegar ao Rio de Janeiro, era transportado por mulas até os portos mais próximos, entre eles o de Paraty. Para isso, em 1838, a Regência Trina mandou fazer um calçamento contínuo e padronizado na trilha do Facão.
 

Logo, porém, essa situação de prosperidade daria lugar à decadência. A repressão ao tráfico de escravos, proibido desde 1831, foi abalando o ativo contrabando de negros para as fazendas de café e a produção de aguardente, que dependia exclusivamente da mão-de-obra cativa.
 

Em 1864, a ferrovia chegou a Barra do Piraí, no vale do Paraíba e passou a transportar o café para o Rio de Janeiro. Em 1877, o trem chegou a Guaratinguetá, dando o golpe final na trilha do Facão como via de escoamento desse produto. 

 

As pessoas passaram a abandonar Paraty, em busca de futuro, inclusive à beira da ferrovia. A população, que era de 10 mil habitantes por volta de 1830, baixou a cerca de 4 mil, no final do século 19.  

 

Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão e a economia de Paraty entrou em colapso, por absoluta ausência de mão-de-obra. A trilha do Facão foi definitivamente abandonada e o calçamento sucumbiu à voragem da mata.

 

Praticamente isolada, a não ser por uma precária ligação marítima com o Rio de Janeiro, Paraty viveu quase 50 anos de isolamento até 1925, quando a estrada Paraty-Cunha a ligou novamente ao vale do Paraíba.

 

Destruída por veículos militares na Revolução de 30, essa via foi reaberta em 1954, por paulistas interessados na cidade como destino turístico.

 

Mas a Paraty-Cunha continuou uma estrada precária, de rodagem difícil e Paraty continuou praticamente inacessível até 1976, quando a inauguração da rodovia Rio-Santos a despertou para sua nova vocação, que é o turismo cultural.

 

Em 2002, um estudo arqueológico da trilha do Facão revelou histórias escondidas debaixo de suas pedras. 

 

 

Fontes:

Ribas, Marcos Caetano, A História do Caminho do Ouro em Paraty, Contest, Paraty, RJ, 2003

Pizarro e Araújo, J.S.A, Memórias Históricas do Rio de Janeiro, Publicações IPHAN #22. RJ, 1960

Souza, Marina de Mello e, Parati, A Cidade e as Festas, UFRJ, RJ, 1994

Golden Route in Paraty and its landscape, Pro-Paraty World Heritage Permanent Commission, 2003

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