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Eliane Calaza, Estante de cachaça, Paraty
Viagem pela História
Na rota da
cachaça
História de tradição
A cachaça chegou a Paraty no
final do século 18. Em 1763, com a transferência da
capital da Colônia
para o Rio de Janeiro, a cultura da cana se expandiu pelo
sudeste e Paraty se tornou a maior fabricante dessa bebida
na
Capitania do Rio de Janeiro
Os primeiros alambiques vieram
dos Açores, onde eram empregados na fabricação da bagaceira.
Engenhos grandes e pequenos foram instalados em Paraty às
dezenas e uma complexa rede de canais foi aberta entre os
rios para levar a produção ao porto.
Em 1799, Paraty concentrava
155 dos 253 alambiques da Capitania do Rio de Janeiro, mais
de 61%, produzindo uma cachaça que, no poema de
Oswald de Andrade,
foi exaltada pelo conde D’Eu e que, no samba
Camisa Listrada,
era sinônimo da cidade.
A cachaça de Paraty era uma
das principais moedas de troca por escravos na região
africana da Costa da Mina. A bebida era usada nas minas de
ouro, como estimulante para os escravos e também exportada
para a Europa.
Em 1808, a vinda da família
real para o Brasil impulsionou o comércio entre Paraty e o
Rio de Janeiro, com um lugar de destaque para esse produto.
Mas, no final do século 19, a
economia de Paraty entrou em colapso, com a
chegada
do trem
e a
abolição da escravatura
e a cidade parou no tempo,
junto com a cachaça.
No século 20, os engenhos
ainda voltaram a funcionar e a aguardente Azuladinha, de
Paraty, ganhou a Medalha de Ouro na Exposição Comercial e
Industrial de 1908, no Rio de Janeiro. Mas enfrentaram a
obsolescência dos recursos, reduziram-se a apenas três, nos
anos 1990 e só recentemente voltaram a se desenvolver.
Zezito Freire, Repórter da Memória de
pARATIANDo
conta sobre a antiga cidade em suas Crônicas de
Paraty. E de suas lembranças fazem parte três
fascinantes relatos sobre os engenhos de aguardente que
conheceu em sua juventude.
Esses relatos são
Os engenhos de Paraty,
sobre a decadência desse setor, nos anos 1930-1940;
Entressafra, sobre a manutenção técnica desses
engenhos e
Antigos tanoeiros sobre os
profissionais que reparavam os tonéis de cachaça.
Certidão de qualidade
Em 1997, celebrou-se um convênio entre o Sebrae e a
Fundação Bio-Rio sobre essa atividade, visando à
reestruturação dos engenhos, ao aumento da produção e à
melhora dos processos produtivos da cachaça de Paraty.Em
2004, para alavancar o setor, surgiu a Apacap, Associação
dos Produtores e Amigos da Cachaça Artesanal de Paraty.
Hoje, o produto cachaça tem o nome registrado no INPI,
Instituto Nacional de Patentes Industriais e patente
internacional como patrimônio do Brasil. E, em 2007, a
cachaça de Paraty recebeu do INPI o selo de Indicação
Geográfica de Procedência.
Esse selo resultou de um longo trabalho envolvendo a Apacap,
o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o
Sebrae/RJ, o Balcão Sebrae de Paraty, a Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro, a Emater, a Embrapa, o Instituto
Nacional de Tecnologia e a Fundação Bio-Rio.
O selo de Indicação Geográfica de Procedência identifica
regiões produtoras de determinados produtos. Com esse
selo, Paraty fica registrada como região produtora de
cachaça e só as cachaças identificadas por ele podem dizer
que são de Paraty.
Outro selo do INPI, o de Denominação de Origem,
identifica produtos que só podem ser processados
em determinadas regiões, pelas características do solo,
processo de produção ou mão de obra específica. Essa
denominação corresponde aos selos internacionais de Origem
Controlada, como os do conhaque e do champanha.
Bebidas desse tipo só podem levar esses nomes se forem
produzidas nas regiões francesas de Cognac e Champagne. Se
não forem, têm que levar o nome de brandy e espumante, entre
outros. Segundo Paulo
Eduardo Gama Miranda, produtor de cachaça e membro da Apacp,
a cachaça de Paraty é diferente de todas as outras e
mereceria a Denominação de Origem, mas ainda não conta com
uma base oficial de degustadores que ateste suas qualidades
específicas.
Feita a mão
Como ensina Miranda, a cachaça é uma bebida feita de
caldo de cana fermentado, destilado de 38 a 48 graus GL. Se
a destilação dessa bebida for menor que 38 graus ou maior
que 48 graus, ela deixa de ser cachaça, para se tornar
aguardente.
A Azuladinha, por exemplo, é uma aguardente composta, com
folha de tangerina. A Caramelada e a Gabriela, também
produzidas em Paraty, também são aguardentes compostas, uma
com melado e outra com cravo e canela. Para fazer a cachaça,
mói-se a cana, coloca-se fermento no caldo e, de 24 a 48
horas, o açúcar se transforma em álcool.
Ou, na linguagem técnica, zera a sacarose. Esse caldo
fermentado, agora chamado de mosto, vai para o alambique,
que destila a cachaça a vapor. ”Não há, ao certo, a
cana melhor para se fazer cachaça”, diz Miranda. “A melhor
cana é a de maior sacarose. Quando você fermenta e destila,
a cana é indiferente. O importante é que seja fresca.
Ela tem que ter, no máximo, 48 horas de corte, porque isso
influi muito na acidez”.Segundo ele, a diferença entre a
cachaça industrial e a artesanal é o acompanhamento de cada
etapa do processo. Quando a cachaça é industrial, o caminhão
despeja a cana para moer com todas as impurezas que ela
trouxer, inclusive a terra de onde foi tirada.
A destilação é automática, feita em colunas e o produto é
processado de forma homogênea.“Na destilação artesanal, você
escolhe a cana para moer, destila em alambiques e separa a
cabeça, o corpo e a cauda do produto”.
Segundo Miranda, a cabeça é a parte inicial do líquido
destilado, cheia de resíduos indesejáveis, como o cobre e
outros subprodutos. Por isso, a boa cachaça depende do corte
preciso da cabeça, que tem um cheiro forte de acetona.
Depois, vem o corpo do líquido, que é a parte que interessa.
A cauda é a parte final, quando o líquido começa a ficar
turvo e também tem que ser cortada.
Na destilação artesanal, quem faz isso é
um mestre-alambiqueiro, profissional que
chega a ter décadas de experiência nesse
trato, aprendido de pai para filho ou
por longa convivência com o trabalho dos
alambiques.
A todo vapor
Paraty tem hoje 12 alambiques e capacidade para produzir 600
mil litros anuais de cachaça, mas em 2008 produziu apenas
390 mil litros, porque o produto só é vendido, praticamente,
no mercado local.
Segundo Miranda, há necessidade de vôos novos, de parceria
com outros distribuidores, para explorar grandes mercados
próximos e ainda não atacados, como o Rio de Janeiro e São
Paulo. E esse trabalho está sendo desenvolvido pela Apacap,
em parceria com o Sebrae e o Ministério da Agricultura.
“De quinze a vinte anos para cá, a cachaça vem se
profissionalizando”, diz ele. “Apesar da história e do
reconhecimento que ela tem, falta marketing e presença em
feiras e cartas de restaurantes”.
Fontes:
Apacap, Associação dos
Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty
Freire,
Zezito, Crônicas de
Paraty, Velha Lapa, RJ, 1998
Freire, Zezito, Crônicas de
Paraty, Editora Multifoco, RJ, 2009
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