|

O Rosário e o santo negro
A Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito é uma das mais
tradicionais de Paraty, pelo número de devotos, pela
solenidade das celebrações, pela beleza das procissões de
estandartes pardos, bandeiras brancas e flores amarelas.
Dessa festa faz parte a coroação do rei Congo, que desfila
com sua rainha e um séquito de mucamas pelo Centro Histórico
da cidade, costume que remonta aos tempos da escravatura,
quando os negros celebravam esses santos, que eram os de sua
devoção.
Nesse desfile, rei e rainha Congo levam coroa, cetro e
salva, jóias de prata do século 19, que ficam guardadas no
Museu de Arte Sacra, sob custódia do Iphan.
Ao reunir a comunidade negra em torno desses santos e desse
rei, a Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito se relaciona
fortemente à história de Paraty, cidade erguida e calçada
por escravos e movida por eles em todos os ciclos de sua
economia, do ouro à cana e ao café.
A devoção a N.S. do Rosário vem de 1208, quando Santa Maria
apareceu para S.Domingos de Gusmão e lhe entregou um rosário
como ferramenta para a evangelização e para combater os
hereges e infiéis.
Na época, a Igreja católica estava em luta contra seitas
cristãs dissidentes, enviando as Cruzadas à Terra Santa
contra os muçulmanos e, mais tarde, enfrentaria a grande
cisão no cristianismo, que seria a Reforma protestante de
Lutero.
Também mais tarde, o rosário e seu conjunto de orações
também seria largamente difundido no processo de
cristianização dos povos africanos. E, trazidos ao Brasil
como escravos, dezenas de milhares de negros se agrupariam
nas Irmandades de N.S.do Rosário dos Pretos e de S.Benetido,
que ser tornariam seus santos de devoção.
O frade franciscano Benedito, nascido na Itália do século
16, filho de escravos etíopes cristianizados, foi
cozinheiro, guardião e mestre dos noviços do Convento de
Santa Maria, em Palermo. Passou a vida praticando a
caridade, amparando os doentes e, por sua humildade e por
ser negro, também ganhou a devoção dos escravos.
A igreja de N.S. do Rosário e S.Benedito, em Paraty,
levantada por uma irmandade de negros em 1725, é uma das
mais belas da cidade, por sua arquitetura simples, pela
delicadeza de sua talha e pelos detalhes singelos que
guardou do tempo em que era freqüentada pelos escravos da
cidade e, hoje, não só pelos fiéis da Igreja, mas pelos que
admiram a arte religiosa.
Os escravos do sudeste do Brasil, incluindo Paraty, vieram
principalmente de Angola e do antigo Reino do Congo, regiões
descobertas no final do século 15 pelos navegadores
portugueses, que cristianizaram suas populações e com elas
iniciaram o tráfico de negros para o Brasil e as colônias
européias do Novo Mundo.
Mesmo cristianizados, os escravos que vieram para o Brasil
não deixaram suas tradições e, frequentemente, mesclaram
essas tradições com a doutrina cristã, no que os estudiosos
chamam de africanização do catolicismo. Fazem parte dessa
mescla tradições negras como a coroação do Rei Congo,
durante as Festa de N.S. do Rosário e S.Benedito em Paraty.
Juntas, as tradições africanas, a devoção católica e a
organização em irmandades religiosas trouxeram a inclusão
social, a identidade, o conforto espiritual, a solidariedade
e a assistência diante da vida e da morte de que os negros
precisaram, no Brasil, para sobreviver à sua condição iníqua
de escravos.
.........................................................................................................................................................
Saiba mais
sobre a produção da festa de N.S.do Rosário e S.Benedito em
Bandeiras
Brancas
sobre N.S.do Rosário em
O Rosário
sobre S.Benedito em
O santo negro
histórias de S.Benedito em
Histórias do santo negro
sobre a Igreja de N.S. Rosário em
Feita
por negros
sobre a origem do rei Congo em
Negro reino
sobre a tradição do rei Congo em
Negro rei
sobre os escravos no Brasil em
A grande água, entrevista com Marina de Mello
e Souza
Pesquise sobre a escravidão, os escravos e suas devoções
Volte a
pARATIANDo
|