O Rosário e o santo negro

O Rosário
 


Nossa Senhora do Rosário foi o título recebido por Santa Maria, quando apareceu para São Domingos de Gusmão, em 1208 e lhe entregou um rosário (1), segundo a tradição católica.

Seja como colar de orações ou como um conjunto de orações em tributo a Nossa Senhora, rosário significa coroa de rosas. Isso porque, na devoção católica, cada ave-maria rezada a Nossa Senhora representa uma rosa, que é a rainha das flores, oferecida a ela, que é a rainha do Céu, da Terra e dos homens (2).

Colares de flores ou enfiadas de pedras, contas ou caroços são oferecidos, no Extremo Oriente, a pessoas que se quer homenagear. O uso de um colar para marcar orações é corrente no hinduísmo, budismo e islamismo.

Já no catolicismo, o rosário surgiu por volta do ano 800, quando os monges rezavam 150 salmos, em diferentes horas do dia, marcados pelos nós de um cordão. Leigos que não sabiam ler substituíram os salmos por padre-nossos, no chamado saltério.

Em sua aparição a São Domingos de Gusmão, Nossa Senhora lhe entregou o rosário como instrumento para a conversão dos hereges. Nessa época, a Igreja católica lutava contra a heresia dos cátaros (3).

O rosário, como instrumento do poder de Nossa Senhora, foi relacionado à vitória final dessa luta, na batalha de Muret, em 1213 (4). Mais tarde, foi ligado à vitória de forças européias contra o islamismo, na batalha de Lepanto, em 1571 (5).

Em 1572, para comemorar essa batalha, foi criada a Festa de N.S.da Vitória, denominação inicial de N.S.do Rosário, que só nos anos 60 deu seu nome à celebração (6). Nessa época, os dominicanos passaram a divulgar intensamente o culto a N.S.do Rosário na Europa, levando à multiplicação de igrejas, conventos e irmandades (7).

Ao mesmo tempo, os portugueses adotaram N.S.do Rosário como padroeira das navegações e, a partir da expedição a Ceuta, em 1415, levaram ao resto do mundo a devoção a ela. Inclusive à África, onde passaram a converter os povos ao cristianismo, para garantir as posições conquistadas e o comércio de escravos.

O rosário teve especial importância, na conversão desses povos, como uma ferramenta extremamente prática de evangelização, que levava os fiéis a uma intensa meditação sobre a cristandade e os mistérios de Salvação, através de suas orações, jaculatórias, ladainhas e leituras da Bíblia (1).

Essa conversão foi apoiada por bulas papais estimulando a expansão do Evangelho e a Igreja tomou a si a tarefa de integrar os convertidos a uma sociedade branca e católica, a partir do início do tráfico de escravos, em 1441 (8). .

Nessa integração, por sua vez, dois fatores tiveram grande importância. Um deles foi a leitura que os negros convertidos fizeram da doutrina católica, traduzindo-a para seu código, absorvendo-a sob um ponto de vista próprio, combinando os elementos com os de sua cosmologia e criando o que se poderia chamar de um catolicismo africano (9).

Outro foram as irmandades, associações religiosas leigas que já vinham do século 13 como grupos de propagação da doutrina, devoção, solidariedade, assistência espiritual frente à doença e à morte, identidade e integração, que congregavam fiés em torno de um santo.

Nisso, teve realce o caráter prático da religiosidade em formação no Brasil, que se apoiava em santos e promessas para resolver as questões do cotidiano. Ao mesmo tempo, o caráter laico e social, porque as associações mais importantes, como as irmandades, eram leigas e porque a relação com o sagrado era mais coletiva do que individual.

Este último aspecto se observava nas festas religiosas, que funcionavam como grandes eventos, promovendo folguedos, jogos, quermesses e atividades de lazer, ao lado de missas e procissões que se caracterizavam, sobretudo, pela roupagem de espetáculo da época barroca.

Essa conjunção de fatores abriu espaço para um culto mesclado a práticas pagãs, como simpatias e mezinhas envolvendo santos; a uma relação informal com eles, inclusive punindo-os quando não atendiam a pedidos e atitudes profanas, como mulheres estéreis que se esfregavam em imagens de santos padroeiros da fertilidade.

Foi nesse ambiente que N.S.do Rosário chegou ao Brasil, onde havia irmandades em torno dela desde o século 16 (10).


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Notas:

(1) O rosário é um colar de contas usado para marcar as orações do Rosário. O Rosário é um conjunto de orações católico, em tributo a Nossa Senhora, que compreendia três terços e, recentemente, foi acrescido de mais um pelo papa João Paulo II. Antes do terço, o fiel faz a Invocação do Espírito Santo e o Oferecimento do Terço ou Rosário. Em seguida, reza o Credo, um Pai-Nosso, três Ave-Marias e o Glória, que pode ser acrescido de algumas jaculatórias ou invocações a Deus. O terço evoca cinco passagens importantes das vidas de Jesus Cristo e Nossa Senhora, chamadas de mistérios, que contam a história da Salvação. No terço, o fiel medita sobre cada mistério rezando um padre-nosso, dez ave-marias e, eventualmente, lendo o trecho a que eles se referem, nas escrituras sagradas. Os mistérios do terço são gozozos, luminosos, dolorosos e gloriosos. Os mistérios gozozos são a anunciação a Maria do nascimento de Cristo, a visitação a Maria da prima Isabel, o nascimento de Jesus, a apresentação do Menino Jesus ao Templo e seu desaparecimento e reencontro por Maria no Templo. Os mistérios luminosos, acrescentados recentemente por João Paulo II através do quarto terço, são o batismo de Jesus, sua auto-revelação nas Bodas de Canaã, o anúncio do reino de Deus e o convite à conversão, a Transfiguração e a instituição da eucaristia. Os mistérios dolorosos são a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, sua flagelação, sua coroação com espinhos, a via-sacra e sua crucificação e morte. Os mistérios gloriosos são a ressurreição de Cristo, sua ascensão aos céus, a vinda do Espírito Santo, a ascenção da Virgem Maria e a coroação de Nossa Senhora como rainha do mundo. Ao final de cada dezena de contas, reza-se novamente o Glória. Podem-se, também, acrescentar jaculatórias entre o Glória e o Pai-Nosso. Nos terços pelas almas do Purgatório, reza-se ainda o Requiem. Ao final do terço, reza-se o Salve-Rainha, que pode ser precedido do Infinitas Graças vos Damos e pode-se ainda rezar a Ladainha de Nossa Senhora.

(2) A rosa é a flor simbólica mais usada no Ocidente, correspondente ao lótus oriental. Por seu formato, evoca a perfeição e o movimento do círculo, o deslocamento, a libertação, o eterno devir. Por isso, a Rosa de Ouro, que o Papa abençoava na Quaresma, era um símbolo de ressurreição e de imortalidade. E também porque a rosa funciona como um símbolo de regeneração, de renascimento; pela cor rosa, que lembra os recém-nascidos e pelo orvalho, evocando a manhã, que traz em suas representações.

(3) Os cátaros ou albigenses surgiram no século 11, em Albi, no sul da França. Acreditavam em dois deuses, um do Bem e outro do Mal. O mundo não era uma criação do Bem, mas do Mal e os homens tinham que passar por sucessivas reencarnações, dedicando-se ao bem e expiando seus pecados, até voltarem a um Paraíso perdido. Os cátaros se relacionavam com Deus de forma direta, por isso não aceitavam a intermediação e nem a autoridade de padres, bispos ou do Papa. Para eles, o livro sagrado era a Bíblia, principalmente o Novo Testamento. Jesus, porém, não era filho de Deus, mas apenas um profeta importante. Em suas cerimônias, que podiam ser oficiadas por mulhres, repartiam o pão, ao invés de celebrar a hóstia. Os fiéis se dividiam em três categorias: os Ouvintes ou simpatizantes; os Crentes, que praticavam a virtude e a humildade e os Perfeitos, que praticavam o celibato, passavam o dia em contrição e pregavam. Algumas das idéias do catarismo ressurgiriam mais tarde, no protestantismo e na doutrina espírita. Mas, na época, os cátaros foram massacrados pela chamada Cruzada Albigense (1208-1243), ordenada pelo papa Inocêncio III, cujos participantes, entre eles o rei francês Luís VIII, receberam a absolvição dos pecados, garantia de um lugar no Céu e o direito ao produto de saques. As Cruzadas (1096-1272) foram grandes expedições militares mobilizadas pela Igreja católica, na Idade Média, contra suas dissidências e contra os muçulmanos. Dessa mobilização também fez parte a Inquisição, inaugurada em 1183 contra os cátaros; terrivelmente endurecida na Espanha (1478-1834), notadamente sob a direção do monge dominicano Torquemada (1482-1498) e também importante em Portugal (1536-1821), com reflexos no Brasil.

(4) Muret foi a batalha final da cruzada albigense, com a vitória da França sobre os cátaros e também sobre as forças de Aragão, uma das várias coroas que disputavam essa região da Europa. Na qual os cátaros conseguiram se fixar graças à incapacidade do clero para superá-los doutrinariamente e a seu comportamento exemplar, que conquistou a tolertância de alguns nobres e de grande parte da população. Embora, para justificar sua extinção, tenha sido espalhado, entre outras histórias assustadoras, que eles se dedicavam a orgias e matavam crianças em adoração a Satã.

(5) Na batalha de Lepanto, em 1571, uma esquadra da chamada Liga Santa, formada por Veneza, Espanha, Estados Pontifícios e os Cavaleiros de Malta, derrotou o império otomano e pôs fim à expansão do Islã na região do Mediterrâneo, que Espanha, França e Itália dividem com países do norte da África.

(6) Em 1673, o papa Gregório XIII mudou o nome da comemoração para Festa do Santo Rosário, que foi estendida à Igreja Universal durante o papado de Clemente XII (1730-1740). Com as reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965), a celebração foi mais uma vez renomeada, para Festa de N.S.do Rosário e fixada em 7 de outubro, dia da batalha de Lepanto.

(7) Em agradecimento pela vitória na batalha de Muret, foi erguido na França o primeiro santuário à então, N.S.da Vitória. Em 1409, foi fundada em Dusseldorf, na Alemanha a primeira irmandade de N.S.do Rosário, sob o nome de Irmandade das Alegrias de Nossa Senhora para Irmãos e Irmãs do Rosário. Em 1474, foi fundada mais uma em Colônia, que serviu de modelo para várias outras e, em 1481, já contava com 100 mil membros. Em 1478 surgiu, em Lisboa, a primeira Irmandade do Rosário dos Brancos de Portugal. Em 1496, na mesma Lisboa e quatro anos antes da Descoberta do Brasil, a menção a uma Confraria de N.S.do Rosário dos Homens Pretos consta de um alvará para distribuir cirios e recolher esmolas nas caravelas que vão à Costa da Mina e aos rios da Guiné, na África. No Porto, em Portugal, existiram, entre 1650 e 1749, irmandades do Rosário dos Homens Pretos com reis Congos e danças, E, cerca de 1698, havia no Convento de S.Francisco uma Irmandade de N.S.do Rosário e S.Benedito.

(8) Em 1526, foi fundada a primeira irmandade de N.S.do Rosário, na África, na ilha de São Tomé, sob autorização do rei de Portugal e a pedido de dois homens pretos livres. Em 1606, foi erguida a primeira Igreja de N.S.do Rosário em Angola, na localidade de Cambande. Ainda na Angola do século 17 foram fundadas a Igreja de N.S.do Rosário das Pedras Negras e a Igreja de S.Benedito, em Massanango, reservada aos locais.

(9) V. Negro reino, nesta edição.

(10) Em 1586, os jesuítas fundaram várias irmandades do Rosário para congregar os escravos dos engenhos. Em 1639, uma Irmandade de N.S.do Rosário dos Homens Pretos foi fundada na Igreja de S.Sebastião do Rio de Janeiro. No século 17, várias outras semelhantes surgiram nas igrejas do norte e nordeste brasileiro, como em Recife, em 1674 e em Belém do Pará, em 1682 e, em 1686, na Igreja de N.S.da Conceição da Praia, em Salvador. No século 18, as irmandades se tornaram a base da Igreja, assumindo o culto e a administração dos templos dedicados a seus santos. Irmandades de N.S.do Rosário dos Pretos, sob esse formato, surgiram em 1708, em S.João Del Rei; em 1715, em Ouro Preto

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Bibliografia essencial:
www.wikipedia.org
http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/datas.htm
P.H.da Silva Pacheco, A origem branca da devoção negra do Rosário, monografia, v. Pesquise
J.R.Pinto de Góes, Reis negros coroados, v.Pesquise
Marina de Mello e Souza, Reis negros no Brasil escravista, UFMG, 2002, BH
J.Chevalier e A.Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, José Olympio, 1990, RJ
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Leia também
sobre a produção da Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito, em Bandeiras brancas
.
sobre S.Benedito em O santo negro
histórias de S.Benedito em Histórias do santo negro
sobre a Igreja de N.S,.Rosário em Feita por negros
sobre a origem do rei Congo em Negro reino
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