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O
Rosário e o santo negro
Negro Rei
Na
Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito, em Paraty, reis Congo
(1) são coroados em missa solene e desfilam pelas ruas em
trajes da realeza portuguesa, acompanhados de um séquito de
mucamas. Uma delas cobre a rainha com um guarda-sol, que
coloca sua figura em relevo e simboliza o céu que a protege
(2).
Em
Portugal, desde o século 15 os negros elegiam reis para
celebrar N.S.do Rosário e S.Benedito (3), reunidos em
irmandades religiosas. A tradição de eleger reis vinha do
antigo Reino do Congo (4), onde eles não herdavam o trono,
mas eram escolhidos pelos nobres.
A
eleição de reis e outros dignitários pelos negros se
disseminou amplamente pela América portuguesa e existiu
tanto nas organizações de trabalho como nos levantes de
escravos, onde esses títulos eram dados aos cabeças.
No
Brasil, essa manifestação remonta ao século 18, quando o
cronista Antonil (5) escreve que essa festa é o único alívio
do cativeiro dos negros e pede aos senhores que deixem seus
escravos participar dela.
Hoje,
essa coroação acontece, com semelhanças e diferenças, no Rio
Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Espírito Santo, Bahia
e Belém do Pará. Mas é mais presente no sudeste brasileiro,
principalmente no noroeste de São Paulo e no sul de Minas
Gerais.
Em
Minas Gerais, essa manifestação toma sua forma mais
complexa, que é a congada, dança relacionada a
antigos rituais africanos, que acompanha os reis Congo ao
som de um batuque e cujos participantes se dividem em grupos
chamados de ternos, caracterizados de diferentes
formas conforme sua representação.
Em
cidades mineiras como Uberlândia, a congada se mantém
através da família e da tradição oral, sem suportes escritos
ou iconográficos e reserva um importante papel às mulheres.
Uma
mulher é a madrinha do terno, representando a Grande Mãe.
São elas que cuidam das roupas, da comida, dos estandartes e
da bandeira do grupo. E fazem a ligação da congada com os
rituais de umbanda e candomblé, que guardam os fundamentos e
são os centros formadores dessa manifestação.
Em
Minas Gerais, essa festa alimenta mitos como o de Chico Rei,
chefe de uma tribo no antigo Reino do Congo, que
foi trazido ao Brasil como escravo, comprou sua alforria,
adquiriu uma mina de ouro e, com o que ganhou nela,
alforriou compatriotas que o elegeram como soberano e o
celebravam com sua corte no chamado Reinado de N.S.do
Rosário, na Ouro Preto do século 18 (6).
Segundo a tradição, a mina que pertenceu a Chico-Rei é a de
Encardideira, nessa cidade (6). Mas não há qualquer
comprovação histórica da existência dessa personagem, nem
registro dela na tradição oral anterior ao século 20 (7).
As
festas de coroação de reis Congo foram introduzidos na
Colônia pelos próprios escravos. Mais especificamente, pelos
escravos agrupados na etnia banto, que foram distribuídos
pelo sudeste brasileiro.
Esses
negros vieram de vários reinos da África centro-ocidental,
como o Congo, Loango, Cabinda, Ndongo, Matamba, Caçanje e
Benguela, que faziam parte do reino geral do Congo e do
reino adjunto de Angola.
Por
outro lado, esses povos não conheceram o catolicismo na
Colônia, mas vinham sendo cristianizados desde o final do
século 15, quando a África centro-ocidental foi contatada
pelos portugueses, em sua busca pelo caminho das Índias.
Ao
incorporarem o cristianismo como novo elemento de sua
identidade, no processo de integração à sociedade
escravista, os bantos foram pouco a pouco minimizando as
diferenças étnicas e destacando o que tinham em comum.
Assim,
no Rio de Janeiro do século 18, as irmandades negras falavam
de reis de diversas nações, mas, em Minas Gerais, eram
sempre reis Congo. A denominação de congada, para o cortejo
que acompanhava esses reis, na Festa do Rosário, surgiu no
século 19. E, pouco a pouco, todos os reis foram sendo
chamados de Congo, sem menção a outras nações.
Isso
porque, mesmo sem a unidade política de antes, frente à
autonomia das diferentes províncias e sem a projeção
regional do final do século 15, quando chegaram os
portugueses, o antigo Reino do Congo continuava sendo, para
os bantos, uma entidade una.
E essa
unidade repousava sobre o papel simbólico do rei, que, mesmo
com poderes limitados, continuava preservando o local
sagrado onde estava enterrado o introdutor do catolicismo no
Congo, no qual se cultuavam os ancestrais e os primórdios
dessa religião no reino.
O
catolicismo foi implantado no Congo por Afonso I, que
governou de 1507 a 1542 como dedicado aprendiz dos
ensinamentos da Igreja e grande divulgador da fé cristã,
que, muitas vezes, defendeu pelas armas.
Dessa
forma, o rei Congo encarnava a origem do catolicismo
africano, construído por Afonso I. e tinha um papel
aglutinador, nas comunidades negras, remetendo as diferentes
etnias ao Congo, como terra mítica de todos os
africanos cativos.
Mas,
embora os reis Congo continuassem coroados pela Igreja, no
século 19, os traços religiosos do Congo, que havia sido
considerado um reino cristão pelos portugueses e por Roma,
do século 16 ao 18, estavam cada vez mais diluídos nos
credos tradicionais da região.
Isso
porque, paralelamente à considerável penetração do
cristianismo no antigo Reino do Congo, os ensinamentos da
Igreja foram integrados à religião local, através de uma
releitura de ritos, símbolos e arrazoados católicos. .
Era
parte das religiões da África centro-ocidental a
incorporação de elementos de outros credos e a ocorrência de
movimentos religiosos que alteravam as tradições existentes,
embora sem afetá-las em sua estrutura.
Principalmente se prometessem vencer os obstáculos sempre
correntes a um estado mítico de ventura, buscado pelos povos
dessa região, onde a natureza seria farta, as mulheres
férteis e as comunidades harmônicas na convivência.
Assim,
ao se converterem ao catolicismo e celebrarem seus santos em
irmandades religiosas, os africanos buscavam laços de
solidariedade, assistência social, conforto espiritual
diante da morte, enterro em local sagrado e paz além da
vida. Mas, ao mesmo tempo, continuavam elaborando o
sincretismo entre o catolicismo e sua religião tradicional.
E
faziam isso nas congadas, entre outras formas de expressão,
onde reviviam sua origem através de danças e sua história
mítica cantando versos e encenando batalhas sempre vencidas
pelos Congoleses, onde o inimigo derrotado era obrigado a
adotar o catolicismo.
Além
disso, mesmo expressando valores africanos através de formas
portuguesas, ao elegerem seus reis e rainhas, os negros
desenhavam sua especificidade na sociedade colonial e
definiam um espaço simbólico no qual eram agentes da própria
história.
Ao
mesmo tempo, esses reis e rainhas reafirmavam hierarquias
internas dos negros, mantinham sua coesão como grupo e
funcionavam como canas de comunicação entre eles e a
sociedade senhorial.
De sua
parte, a sociedade branca considerava que, mesmo com danças
africanas, os negros estavam praticando o cristianismo, o
que sinalizava sua integração à sociedade colonial. E
esperava que esses reis e rainhas mantivessem a ordem entre
os escravos, apaziguando seus conflitos com os senhores
Mas
se, até o século 18, a Igreja aceitou danças africanas para
celebrar santos católicos e padres coroando reis Congos, no
século 19 passou a controlar a religiosidade popular, em
consonância com o Império, que tentava negar seu passado
colonial e com a polícia, que cerceava comemorações de
negros.
No
final do século 19 e começo do 20, as congadas deixaram de
ser integradas exclusivamente por africanos, para acolher os
mais pobres, de uma forma geral; mantendo negros como reis e
rainhas, mas se abrindo à participação de mestiços e
brancos.
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Notas
(1)
Nas expressões rei(s) e rainha(s) Congo, Congo não se refere
ao país africano, hoje República do Congo, mas ao antigo
Reino do Congo, como pátria mítica de todos os negros;
critério adotado por Marina de Mello e Sousa na fonte-base
deste texto.
(2) Cobrir a cabeça de autoridades com um guarda-sol fazia
parte do cerimonial real e religioso no Oriente Médio, Egito
e Grécia da Antiguidade e de países que tiveram contato com
as navegações portuguesas, como a Índia, China e Sião, hoje
Tailândia. De lá, esse ritual foi para as cortes imperiais
do sul e do leste da Europa, de onde passou para a liturgia
da Igreja. Simbolizando o céu, o guarda-sol dava a reis,
nobres, deuses e sacerdotes a proteção que eles davam a seus
súditos e fiéis. Como diz o nome, o guarda-sol guardava, ou
seja, protegia o sol representado por essas autoridades, em
torno do qual giravam seus dependentes. Ao mesmo tempo, em
sua função cerimonial, desviava a atenção do sol acima delas
para o sol que elas encarnavam. Na Igreja católica, os papas
usavam o umbraculum, sombrinha semi-fechada, como símbolo de
autoridade. O dossel que hoje protege os sacrário nas
procissões e, eventualmente, os santos no retábulo, tem o
mesmo significado de céu e de proteção.
(3) Outra santa de devoção dos escravos era Sta.Ifigênia,
também negra e uma das responsáveis pela disseminação do
cristianismo na Etiópia, onde nasceram os pais de
S.Benedito. Segundo a tradição, Ifigênia era filha do rei
etíope Eggipus e foi dedicada a Deus por Mateus, o
Evangelista. Quando Hirtacus, sucessor de seu pai, assumiu o
trono, quis se casar com Ifigênia e prometeu metade do reino
a Mateus, se ele a convencesse a isso. Mateus respondeu que
ela estava consagrada ao Senhor e foi morto aos pés do altar
de sua igreja. Não contente com isso, Hirtacus tentou
incendiar a casa de Ifigênia, mas Mateus apareceu e desviou
as chamas para o palácio real. Depois disso, o rei teve o
filho possuído pelo Demônio e, acometido pela lepra, acabou
dando cabo à própria vida.
(4) V.Negro reino, nesta edição
(5) André Antonil, nascido Giovanni Antonio ou João Antônio
Andreoni (Lucca,1649 - Salvador,1716), jesuíta italiano, foi
reitor do colégio da Companhia em Salvador e fez breves
visitas às capitanias de Pernambuco e Rio de Janeiro.
Observador atento, escreveu com profundidade e erudição
sobre a realidade econômica da Colônia, com foco no açúcar,
no tabaco, no gado e na mineração. Em 1711, . Publicou em
Lisboa o livro Cultura e opulência do Brasil, suas drogas e
minas, considerada a mais importante descrição das condições
sócio-econômicas do País no início do século 18.
(6) Segundo a tradição, o nome original de Chico-Rei era
Galanga, monarca guerreiro e sumo sacerdote do deus
Zambi-Apungo, que foi aprisionado com toda a sua corte por
traficantes de escravos. Embarcado para o Brasil com a
família, no navio negreiro Madalena, somente ele e o filho
sobreviveram, porque sua esposa, a rainha Djalô e a filha, a
princesa Itulo, foram jogadas ao mar pelos marujos, junto
com outros escravos, para aliviar o peso da embarcação, numa
tempestade que quase a afundou. Chico-Rei foi eleito
soberano dos escravos com a anuência de Gomes Freire de
Andrada, importante governador das Minas. Esses escravos se
associaram à Irmandade de Santa Ifigênia dos Pretos e seu
cortejo, na Festa de N.S.do Rosário, teria dado origem à
congada que conhecemos hoje.
(7) A Mina da Encardideira foi descoberta em 1950, em Ouro
Preto e renomeada como Mina de Chico-Rei. É escavada
artesanalmente em cinco níveis e tem 11,5 quilîometros de
galerias, que se estendem até a Casa dos Contos e a Escola
de Minas, antigo Palácio dos Governadores. Segundo a
tradição, Chico-Rei escondia ouro em pó nos cabelos e os
lavava na pia batismal da Igreja de Sta. Ifigênia dos
Pretos, acobertado pelos relgiosos. E foi com esse ouro que
comprou sua alforria e a mina.
(8) A história de Chico-Rei tem, como fonte mais antiga, uma
nota de rodapé de Diogo de Vasconcelos, em seu livro
História Antiga de Minas, publicado em 1904. E não pode
sequer ser chamada de lenda, porque não tem nenhum registro
oral anterior a essa data. Transcrevemos, a seguir, a nota
de rodapé de Diogo de Vasconcelos: “Francisco foi
aprisionado com toda sua tribo, e vendido com ela, incluindo
sua mulher, filhos e súditos. A mulher e todos os filhos
morreram no mar, menos um. Vieram os restantes para as minas
de Ouro Preto. Resignado à sorte, tida por costume na
África, homem inteligente, trabalhou e forrou o filho; ambos
trabalharam e forraram um compatrício; os três, um quarto, e
assim por diante até que, liberta a tribo, passaram a forrar
outros vizinhos da mesma nação. Formaram assim em Vila Rica
um Estado no Estado; Francisco era Rei, seu filho o
Príncipe, a nora a Princesa. Possuía o Rei para a sua
coletividade a mina riquíssima da Encardideira ou Palácio
Velho. Antecipou-se este negro a era das cooperativas, e
precursou o socialismo cristão. Como naquele tempo toda
irmandade estava unida à idéia religiosa de um santo
patrono, tomou esta o patronato de Santa Efigênia, cuja
intercessão foi-lhes tão útil; e desse exemplo nasceu o
culto ardente, que se volta ainda à milagrosa imagem do Alto
da Cruz. Os irmãos erigiram um belo templo que existe sob a
invocação do Rosário. No dia 6 de janeiro o Rei, a Rainha e
os Príncipes vestidos como tais eram conduzidos em ruidosas
festas africanas à igreja para assistirem à missa cantada e
depois percorriam em danças características, tocando
instrumentos músicos indígenas da África, pelas ruas. Era o
Reinado do Rosário, festas que se imitaram em todos os
povoados das Minas. Vem também daí a nomenclatura dos
mesários do Rosário em todas as irmandades de pretos entre
nós. No Alto da Cruz ainda se vê a pia de pedra na qual as
negras empoadas de ouro lavavam a cabeça para deixá-lo
naquele dia por esmola ou donativo”.
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Fontes:
www.wikipédia.org
Marina de Mello e Souza, História, mito e identidade nas
festas de reis negros no Brasil, séculos 18 e 19, in Festa,
Cultura e sociabilidade na América portuguesa, István Jancsó
e Iris Kantor, orgs., vol. 1, pp.249-262, Hucitec, Edusp et
al, 2001, SP
Larissa Gabarra, Congado, festa do batuque, v. Pesquise
Larissa Gabarra, Congado em Uberlância, relíquias e memória,
v. Pesquise
J.Chevalier e A.Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, José
Olympio, 1990, RJ
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sobre a escravidão, os escravos e suas devoções
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