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Salve os Santos Reis
Cada pedra no caminho aumentava a devoção
Por Gilberto Galvão (1)



“Aí, os Três Reis partiram do Oriente, com uma caixa e uma viola e foram seguindo uma estrada, a do Menino Jesus, que vinha para salvar todos nós. Mas tinha o rei Herodes. Ele ouvia o povo falar que esse menino é que ia ser o verdadeiro rei que todos iam adorar”.

José Rodrigues, 32 anos, levanta a máscara de papel machê com um grande sorriso mal pintado. Ele é o palhaço Zé Peroba, da Folia de Reis da pequena São Sebastião do Paraíso, no interior de Minas Gerais.


Ele também é operário da Siemens do Brasil, em São Paulo e, todo fim de ano, volta a esse lugar, sua terra natal, para seguir a Folia. Eles estão percorrendo quatro bairros rurais da cidade, para anunciar de casa em casa, como os Reis Magos, que Jesus nasceu:


“O Herodes não admitia isso, porque queria ser ele o Rei do Mundo. Por isso, ele mandou perseguir o Menino Jesus, mandou degolar todas as crianças novas que encontrassem. Mas tinha dois guardas do Herodes que não quiseram fazer isso.


Então, eles inventaram que tinham dó de matar o Menino; que iram usar uma máscara, para ele não ver o rosto deles. Foi assim que os dois guardas enganaram o Herodes, se juntaram com os Três Reis Santos e com eles adoraram o presépio.


Na Adoração, Nossa Senhora deu um pedaço do manto dela para os Reis, embrulhado. Quando os Reis abriram o embrulho, longe de Belém, viram que era uma bandeira; Nossa Senhora, São José e eles pintados.


Daí, os Reis correram de casa em casa, com a bandeira, cantando o nascimento de Jesus. As casas recebiam eles com flores e um coração no chão, feito de pétalas, que era o coração dos donos, felizes de receber essa notícia.


Mas o Herodes soube de tudo. Ele não tinha desistido de matar o Menino e foi esperar os Reis, para obrigar eles a dizer o caminho do presépio. Então, os Reis mandaram aqueles dois guardas à frente, com aquelas máscaras, dizendo graças, fazendo muita palhaçada.


Fazendo isso, os guardas foram juntando um mundão de gente à volta deles. Aí, o Herodes se distraiu com a confusão e os Reis escapuliram, misturados na multidão. Na Bíblia, não está escrito isso, mas foi assim que aconteceu a história dos Santos Reis”


A Folia passa e se mistura com o vale verde, levando a bandeira com o pano cheio de fotos votivas e o mastro enfeitado de fitas coloridas e flores de plástico. Ainda longe de alguma casa, os violeiros vão cantando distraidamente um sucesso sertanejo qualquer.


Nelson Alves da Silva, 31 anos, um dos violeiros, é operário numa fábrica de colchões da cidade. Ele pára e enxuga o rosto, com o sol na cabeça:


“É do primeiro ao seis de janeiro, seis dias, correndo esse mundo todo”, conta ele. “Andando o dia todo na roça; enfrentando o sol, a chuva, a lama e a poeira. Seis dias sem trocar de roupa, sem como tomar banho e dormindo onde dá: às vezes nesses paióis cheios de ratos.


E nós fazemos como os Reis, nós vamos pedindo uma esmola para a bandeira e convidamos todo mundo para a festa do último dia; uma festa só de doces, de todas as qualidades, raiz de mamão, cidra, figo, leite”.


A Folia chega na estrada e cruza com um caminhão cheio de bóias-frias. Os lavradores se apóiam nas enxadas e seguem com o olhar a bandeira de flores. Alguns se benzem, outros tiram o chapéu.


O sitiante João Alves, 42, acompanha a Folia na rabeira, sem a energia dos mais jovens para o sobe-e-desce das colinas. Olha para o céu preto, que anuncia chuva grossa.


“Antes, aqui, tinha gado e os colonos tinham muita roça, muito pomar. Hoje não têm mais, é só terra grande, com pouca gente trabalhando. Quem toca a lavoura, agora, são esses paus-de-arara, que se mudaram para a cidade e vêm aqui ganhar por dia:


Aqui tinha muito leite, muitas qualidades de fruta. Mas hoje tem quase só café, dominando tudo, avançando nas roças, no pasto. Por isso, a festa de Reis está mudando. Está deixando de ser uma festa de doces, como antes.


E tem a dificuldade do dinheiro, mesmo. É muito caro fazer uma festa para tanta gente, para todos que querem comer. O dinheiro anda fugido, é a crise. E os fazendeirões são os que mais reclamam: esses não dão nada, mesmo.


Hoje, quem faz essa festa são os mais pobres, que sempre dão uma esmolinha para a bandeira, um franguinho, uma prenda para vender e ajudar na despesa. E os proprietários pequenos, como eu, que formam uma comissão no bairro, sorteiam o festeiro, que este ano sou eu e soltam a Folia”.


Agora, tem uma família esperando a Folia no alpendre da casa, lá na curva do caminho. Os músicos preparam os instrumentos, o bandeireiro arruma o pano no mastro. Os palhaços vão colocando a máscara e já começam a fazer estripulias para as crianças que vêm até eles.


O dono da casa e os vizinhos acham muita graça, os palhaços atrás das galinhas, cutucando as pessoas com uma vareta, pedindo dinheiro preá a cachaça. O dono da casa corre com um guarda-chuva para proteger a bandeira da pancada forte que, rapidamente, enlameia tudo.


A bandeira chega à porta, o palhaço pede licença e a folia entra cantando, com violas, rabeca, cavaquinho, sanfona, pandeiro e caixa:

Os três reis tá de viagem,
Cansado de tanto andar
e vêm, com a sua bandeira,
vossa casa visitar

Doze foliões e uma bandeira cheia de cores, junto com os donos da casa. Os meninos se escondem atrás do pano, com medo dos palhaços. No final, todos dão vivas aos Reis, ao nascimento de Jesus, àquela família e a dona da casa passa uma bandeja de café, na sala simples e apertada. O marido prega na bandeira uma nota de um cruzeiro. A Folia vai se despedir:

Deus lhe pague a bela oferta
E também o seu café
E quem vai lhe dar o troco
É a Senhora e São José

A Folia segue seu caminho, entrando em outras casas, com quadros de santos nas paredes de taipa, o rádio de pilha, a lembrança de uma romaria a Aparecida do Norte e fotos de artistas de novela coladas no armário.

Na última casa, bem separada das outras, não há quadros nem rádio. O colono não pode oferecer nada, nem café: “Nós não tem o que possa dar, mas queria que a bandeira fosse lá”, vem avisar o menino. E leva a Folia para uma casa escura, com muitas crianças chorando. A Folia canta muito e ainda deixa algum dinheiro.

Um dos violeiros sai comovido. É José Santana da Silva, 38 anos, o Pateta, que trabalha numa fábrica de espelhos em São Paulo. Até já cantou no rádio, na dupla sertaneja Pé de Ipê e Paraíso. Há quinze anos, volta para cantar nessa Folia. É o violeiro-embaixador, que puxa todos os versos para os outros entrarem com o refrão.

“É por gente assim que os Três Reis valem primeiro. É uma devoção muito grande e os versos que a gente canta têm toda a verdade: são os pobres que estão junto dessa bandeira”.

Mais algumas casas depois, a Folia encontra Vando Marcolino, dono da rede de lojas Marcovan e irmão do futuro prefeito de São Sebastião do Paraíso. Os foliões ficam deslumbrados, quando ele vem encontrá-los.

Gordo e bonachão, com um sorrisinho nos lábios, Vando exibe uma câmara fabulosa que cospe na hora a foto colorida. Os foliões não acreditam no que vêem e entram em alvoroço. Por um longo intervalo, os instrumentos são encostados, o canto silencia e todos posam para a posteridade, ao lado do anfitrião.

“Vamos lá, minha gente, é pra guardar de lembrança”, diz ele, enquanto os grupos se fazem e desfazem. “E olha lá, minha gente, não vão acabar com a Folia. Não deixem morrer essa tradição, que é muito linda, hein?”.

Agora, todos já mostram sinais de cansaço das caminhadas e das noites curtas. Mas a Folia segue em frente, mergulhando nos cafezais, pisando o estrume dos bois. A cachaça rola mais, o estômago bate mais cedo: “Não dá pra pular essas duas casas ali? Vamos tocar logo o pau, que eu estou com fome. É hora do almoço...”

Mas quem manda é o rabequista Antonio Carvalho, 54 anos e ele se recusa: “Os Três Reis cantaram em todas as casas e o nosso sacrifício tem que ser igual ao deles”. Metalúrgico aposentado, mora em São Paulo. E não esconde sua reprovação aos foliões esfomeados:

“No meu tempo, Folia não bebia, nem pedia comida. Comia o que aparecesse, dormia onde desse, tudo junto, guardando a bandeira. Hoje, está tudo mudado. Tem Folia que anda de carro, os foliões dormem em casa e voltam no dia seguinte para pegar a bandeira.

Hoje, a devoção está acabando. Os foliões ficam com sono na reza do terço, reclamam quando o embaixador canta demais e fazem tudo apressado, porque só querem comer e beber. Não é dizer que a Folia está acabando. Hoje, tem até mais Folias do que antes, porque apareceu muito bairro novo e muitos preferem soltar a Folia deles, sem esperar a dos outros.

Mas a Folia, hoje, é mais uma diversão, um encontro. Tem Folia que não bebe, que é mais organizada, mas a maioria é assim, mesmo, é tudo estripulia. É a evolução, o que se pode fazer? Tudo tem seu começo e tem seu fim”.

Muita gente veio das redondezas, a cavalo, de trator, de carro À frente da casa, arcos de bambu enfeitados de flores. No chão, um coração de pétalas coloridas e uma tabuleta com o abecedário. Os palhaços entram um em cima do outro, dão cambalhotas, rolam no chão.

Quando a porteira se abre, Tião Gatinho vai receber a bandeira, que agita as cores no vento. A Folia começa a cantar:

Os Três Reis saiu pro mundo,
c’uma caixa e uma viola,
andando de casa em casa,
pedindo uma esmola

A Folia vai cantando até o arco e os palhaços pedem pra entrar. “Mas eu só deixo se vocês descobrirem o que tem nesse coração”, responde Tião Gatinho. Os palhaços começam a cavar a terra, sob as pétalas. Descobrem ovos, alho, moedas enterradas e dizem um versinho improvisado para cada coisa que acham.

“Ô palhaço, o que quer dizer isto aqui?”, vai perguntando Tião Gatinho. Os palhaços decifram anagramas no chão, feitos com grãos de milho e vão dizendo versinhos para as letras do alfabeto, contando histórias da Anunciação e da Natividade.

Agora, a Folia pode entrar, com muitos cantos à Estrela de Belém, aos Reis, à sua jornada, à Visitação. Muitos vivas a eles, à bandeira e os rojões estouram. Em seguida, os palhaços tiram as máscaras, ajoelham-se e cantam a Adoração diante do presépio armado na sala. Vem um almoço farto, com tudo que Deus deu àquela terra e àquela casa. E o agradecimento:

Deus lhe pague o belo pão
que matou a nossa fome.
Quando vós chegar no céu,
vai comer o que os anjo come.

Tião Gatinho, 44 anos, dono de três mil pés de café, está muito emocionado:

“Pois eu digo ao senhor, tem coisa que a gente nunca sabe se é ou não é. Os Três Reis, a gente nunca viu, de carne e osso, só pintado na bandeira. Mas tem que ter fé. E, quando não tem, eles avisam.

Aqui perto, um fazendeiro prometeu fazer a festa para eles. Depois desanimou, achou que não tinha que fazer festa para os outros comerem. Pois choveu pedra dois anos, nas terras dele. E só parou quando ele cumpriu a promessa que fez”.

A noite cobre a mata, ora aberta, ora escura e misteriosa. As corredeiras da chuva encharcam os sapatos e a subida do morro vira um sabão. O grupo continua em frente, um ajudando o outro, protegendo os instrumentos. A bandeira sumiu à frente e a casa do jantar ainda está longe. A umidade começa a entrar pela pele.

“Vamos lá, minha gente”, anima João Alves. E lembra os versos da música:

Os Três Reis fez dura viagem
pra fazer a Adoração.
Cada pedra no caminho
aumentava a devoção.


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Notas:

 

(1) Esta matéria, acompanhando a jornada da Folia de Reis de São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, foi publicada em 1975, na seção Gente Brasileira do tablóide Movimento e no livro Artistas e festas populares, Editora Brasiliens4e, 1977, São Paulo.

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