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Identidade cultural
Nós somos nós
AParaty é uma cidade única, não só pelo patrimônio histórico
do Centro antigo, mas pelo patrimônio cultural de suas
festas e tradições. Só que o turismo de massa pasteuriza as
referências, em função de um mercado onde o que vale é a
embalagem.
Assim, é comum os turistas chamarem o Centro antigo de
shopping histórico. Hotéis vendem a Festa do Divino como um
grande show e incluem no pacote o almoço da comunidade. E o
peixe com banana fica sem ibope, porque não agrada ao
paladar médio dos visitantes.
Os índios, negros e caiçaras que ainda vivem em Paraty
também correm o risco de serem oferecidos ao turismo em
caixinhas de isopor. Já se falou, por aqui, num parque
temático de índios, com butique de artesanato e lanchonete
de comidas típicas. Em festas locais, casinhas de
pau-a-pique celebram um caiçara que hoje mora na periferia.
E muitos adoram o jongo do Campinho, mas não sabem que é um
sério trabalho de identidade cultural. .
Na verdade, enquanto essas manifestações reunirem a
comunidade, explicarem o mundo e traçarem caminhos para ela,
continuarão vivas. Quando não fizerem mais isso, poderão
virar uma macumba muito bem feita, pra turista, mas terão
deixado o cotidiano dessa comunidade para reinar apenas em
sua memória.
Então, não se trata de conservar tradições em formol, mas de
observar atentamente o que elas (ainda) têm a ver com esses
grupos. Porque, enquanto tiverem, eles terão o que dizer
sobre si mesmos. Do contrário, alguém dirá por eles. E
escreverá sua história.
Diante disso, Paratiando foi perguntar aos estudiosos e
militantes da área como ficam as comunidades tradicionais de
Paraty, diante do turismo crescente, da especulação
imobiliária, dos costumes estranhos e das seitas religiosas.
As respostas levam a pensar.
Patrícia Solari, da Associação Nhandeva, há mais de uma
década se dedica aos índios guaranis. Eles já foram 10
milhões, à época do Descobrimento, espalhados pela
Argentina, Paraguai, Brasil, Uruguai e Bolívia. Hoje, são 41
mil, no Brasil e apenas seiscentos, no Rio de Janeiro. Mas
continuam preservando o essencial de seu modo de ser.
“A globalização é uma ameaça, porque eles não estão
preparados para enfrentar os alimentos contaminados e a
falta de espaço físico”, diz ela. “Muitas aldeias são
pequenas ou seu território foi invadido e não dá para
plantar. Os rios, poluídos, são impróprios para pescar”.
Patricia conta que Paraty tem duas aldeias guaranis bastante
preservadas. Araponga, a oito quilômetros de Patrimônio,
fica no meio da mata Atlântica, com uma cachoeira de água
pura. Já Paraty Mirim, na zona urbana de Paraty, é rodeada
de morros, foi atravessada por uma estrada e, com o rio
Carapitanga poluído, ficou sem água potável, em 2007.
Mesmo assim, continua ela, nos últimos dez anos eles
voltaram a seus rituais e passaram a se juntar com outras
aldeias para resolver problemas comuns. E contam com uma
liderança jovem para plantar seu próprio alimento e
continuar com seu modo de vida.
Segundo Patrícia, os guaranis continuam rezando e cantando
para curar o espírito, na casa cerimonial Opy e a seu deus
Nhanderu, para quem compõem músicas. Preservam os rituais de
bênção das sementes e das crianças e seus ritos e mitos
ainda são passados de pais para filhos. Ela explica que a
preservação desse patrimônio, entre os guaranis, se dá muito
através da língua, que eles continuam falando entre si,
mesmo depois de aprenderem a do branco.
Para ela, os órgãos oficiais vêm contribuindo com ações em
favor dos índios, como a escola bilingue, o serviço médico
nas aldeias e, no caso de Paraty, a preservação da cultura
no evento Ymaguarê. Coisa que, antigamente, era utopia:
“Há 13 anos atrás, os índios eram uma coisa exótica,
cantando e falando para o público da classe média “olha, nós
somos assim”. Não havia Secretaria de assuntos raciais, nem
políticas públicas para eles”.
Ela conta que, depois de vivenciarem vários problemas do
mundo branco, como o dinheiro que acaba logo, o alcoolismo e
as drogas, os jovens já não acreditam muito no que ele
oferece e estão se refugiando nos modos de vida mais
antigos.
Segundo ela, o acesso aos meios de comunicação permite a
eles uma outra visão do mundo, diferente de seus avós, que
eram analfabetos, perseguidos e não tinham os meios de
subsistência de hoje.
Ser diferente, hoje, é mais respeitado e os jovens guaranis
estão orgulhosos de sua diferença, diz Patrícia. Com isso,
os adolescentes passaram a usar o tembetá, que é um enfeite
antigo, tipo piercing, no lábio inferior. Além de colares,
cabelos compridos e trancinhas, como os avós.
“Os guaranis são otimistas, em sua resistência. Sua
sabedoria ancestral diz para não ficarem desesperados com os
problemas que enfrentam para sobreviver, porque Nhanderu
está vendo tudo e cada criança que nasce traz dentro de si
uma resposta para seus problemas”.
Vagner do Nascimento, presidente da Amoqc, Associação dos
Moradores do Quilombo do Campinho, também diz que ainda
existe uma cultura tradicional nessa comunidade, apesar da
chegada de outros costumes, da Rio-Santos, da luz elétrica e
de outras religiões:
“Isso porque a cultura é uma coisa muito dinâmica; ela vai
mudando, mas também se mantendo. Porque uma roda de farinha
é cultura, o mutirão na roça é cultura, fazer um chazinho é
cultura e, da mesma forma, muitas coisas do dia-a-dia de uma
comunidade, como pedir bênção aos mais velhos ou caiar uma
casa de estuque”.
Vagner explica que, no Campinho, a terra é coletiva e isso é
cultural, de quem lutou coletivamente por sua titulação. O
plantio sempre foi em mutirão. Não há cercas e cada um sabe
de seu espaço. Há uma troca de produtos dessa terra e
pode-se até cultivar um pedaço do outro, para depois
devolver.
No Campinho, continua ele, a terra é chamada de território,
lugar de plantar para a subsistência, de tirar madeira para
o artesanato, de pegar madeira para uma casa e até local
sagrado para as manifestações religiosas de alguns membros
da comunidade.
Embora já não haja, no Campinho, religiões de matriz
africana, por causa do preconceito e até da perseguição de
outras religiões, Vagner diz que esse tipo de manifestação
sobrevive, não através de grupos, mas de pessoas. E, sempre
que pode, a comunidade as coloca em discussão, para que os
moradores as conheçam e saibam de sua importância:
“É difícil proteger as manifestações tradicionais de uma
comunidade, diante da globalização, do acesso a outras
culturas. É uma missão impossível. O que nós fazemos é
trabalhar essas manifestações e ensinar às pessoas que nós
somos isso. O Encontro da Cultura Negra, que realizamos todo
ano, trabalha por essa auto-estima”.
Para Vagner, as outras culturas podem vir, mas a cultura
negra vai estar enraizada nas crianças e jovens do Campinho.
Por isso, para eles, é importante uma escola diferenciada,
que fale da cultura desse grupo e fortaleça sua identidade.
Hoje, ele conta, a Amocq é referência em comunidade
organizada, com programas ambientais, sociais e culturais.
Há, nesse trabalho, uma preocupação com a formação dos
jovens e de uma base comunitária, inclusive através da
organização em movimentos. A entidade tem se manifestado e
participado de mobilizações pelos direitos das comunidades
tradicionais, como a titulação de terras.
“Não é fácil, mas estamos obtendo alguns resultados com esse
trabalho, depois de dez anos. É um trabalho de formação
política, ligado principalmente aos valores de nossa
comunidade. É, também, um trabalho que depende de políticas
públicas que abram canais de expressão para as comunidades
tradicionais”.
Já Luís Perequê, músico, poeta, fundador do Silo Cultural
José Kleber, pensador e agitador da cultura em Paraty,
começa dizendo que resgate pode ser uma coisa importante,
para os estudiosos, mas a cultura vive uma transformação
permanente e o que fica para trás não se renova:
simplesmente morre.
Segundo ele, é como comemorar o Dia da Cultura Caiçara no
mês de agosto, o Mês do Folclore. Porque a luta tem que ser,
justamente, a de tirar o caiçara do folclore: o dia em que
ele entrar ali, é porque já morreu. Mas Perequê não tem
ilusões sobre essa questão: para ele, ainda resta um pouco
da cultura tradicional, em Paraty, mas haverá uma
transformação e isso irá para o mundo da memória:
“É como ensinar ciranda nas escolas. Seu Ditinho, por
exemplo, é do tempo em que a ciranda era parte dos costumes,
um encontro das pessoas. Naquele tempo, a ciranda era
necessária, para essas pessoas, porque a cultura tem uma
coisa de funcional. Então, você pode ensinar ciranda, nas
escolas, como uma matéria do currículo, mas não vai ensinar
o sentimento dessa tradição para um garoto que nunca a
viveu”.
Além disso, diz Perequê, se educamos um jovem sobre cultura
e ele fica com vontade de trabalhar com isso, quem vai dar
emprego a ele é um empresário, para quem cultura é outra
coisa, é entretenimento. Ou seja, esse jovem que educamos
culturalmente vai trabalhar para um empresário sem cultura
nenhuma, que não vai gostar do que ele faz. .
“Então, você preserva uma mata, um prédio público, mas
cultura você não preserva, você mantém. Porque ela muda
sempre, vive em plena transformação. E você mantém essa
cultura para que esse processo de transformação também seja
também um processo de crescimento. Mas manter essa cultura
depende de políticas públicas que abram espaço para isso”.
Por isso, Perequê acha que Paraty errou, quando se tornou
referência em turismo cultural, porque encheu a cidade de
eventos e não deixou espaço para a baixa temporada, onde a
comunidade respira, troca idéias e, inclusive, cria novos
produtos culturais para os turistas.
Para ele, a baixa temporada funcionaria como um defeso, para
quem trabalha em cultura. Mas a comunidade não tem tempo
para isso, está o tempo todo tocando, dançando, cozinhando,
varrendo e servindo no balcão. Ela não tem tempo para
pensar.
“Esse foi nosso tiro no pé”, diz ele. “E ninguém está
falando contra o turismo ou o turista. Está falando daquele
cara que veio a Paraty para montar seu negócio; não para
discutir esse tipo de questão. Porque, se ele tiver que
matar a cultura, para continuar faturando dois ou três
milhões por ano, ele mata, mesmo. É com esse tipo de gente
que nós estamos lidando”.
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