|

O Rosário e o
santo negro
Negro Reino
A tradição dos
reis negros, que desfilam pelas ruas de Paraty, na Festa de
N.S.do Rosário e S.Benedito, remete ao lendário Reino do
Congo, que existiu na África, desde c.1390 até 1914.
A cristianização desse reino, sua transformação em
fornecedor de escravos para o Brasil e sua lenta
desintegração pelo esfacelamento cultural, por lutas de
poder, pelas guerras internas promovidas por traficantes de
negros e pela progressiva ocupação portuguesa pintam um
quadro expressivo do que o colonialismo e a escravidão
significaram para esse continente.
O explorador Diogo Cão foi o primeiro europeu a entrar em
contato com o Reino do Congo, em 1483, quando os portugueses
empreendiam as chamadas Grandes Navegações, em busca de uma
rota para as Índias.
O Reino do Congo gozava de grande influência na África
centro-ocidental, formado por seis províncias e quatro
reinos tributários, que se espalhavam, em sentido horário,
pelos territórios atuais do noroeste de Angola, oeste da
República Democrática do Congo, Cabinda, República do Congo
e centro-sul do Gabão.
As províncias eram Mbamba, Mpemba, Mbata, Mpangu, Soyo e
Nsundi. Os reinos tributários eram Loango, Kakongo, Ngoyo e
Ndongo, como no mapa abaixo.

Desde o século 6, o Reino do Congo era habitado pela
desenvolvida etnia banto, que havia trazido conhecimentos em
agricultura, cerâmica e artefatos de metal. Ao final do
século 15, explorava recursos naturais e marfim e comerciava
cerâmica, tecidos, ráfia e manufaturados de cobre e metais
ferrosos.
A unidade desse reino vinha das relações comerciais e
políticas entre os territórios que o compunham. E o centro
de poder ficava na capital, conhecida como Mbanza Congo,
onde o rei não era sucessor direto do trono, mas eleito por
um conselho de nobres.
Primeiros contatos
Em seu primeiro contato com o Congo, Diogo Cão deixou homens
em terra como garantia e levou com ele a Lisboa um grupo da
elite nativa, para aprender a língua, conhecer os costumes e
entrar em contato com o cristianismo. Dois anos depois, em
1485, retornou ao Congo com esses nativos e muitos presentes
para o rei local.
Em resposta, o Congo enviou uma embaixada a Portugal, em
1489, formalizando o desejo de se converter ao cristianismo
e europeizar seus costumes. Essa embaixada passou um ano em
Lisboa, aprendendo a língua, o modo de vida português e os
preceitos do catolicismo.
Aprofundando esse contato, um grupo de jovens se dedicou à
língua e à literatura latinas. E foi pedido o envio, para o
Congo, de clérigos, artesãos, mestres de pedraria e
carpintaria, trabalhadores da terra, burros e pastores.
Em 1491, uma nova expedição portuguesa aportou no Congo com
clérigos e soldados. Desta vez, levou mais de vinte dias
para chegar à capital, tamanhas foram as homenagens que
recebeu dos chefes locais e da população, que, segundo o
relato do evento, feito pelo cronista português Rui de Pina,
chamava o rei de Portugal de Zampem-Apongo ou Senhor do
Mundo.
Nessa euforia, o rei e a nobreza pediram para serem
batizados imediatamente. O rei passou a se chamar João I, o
mesmo nome do soberano português. Houve procissões, missas,
pregações contra a superstição e a idolatria e foram
destruídos vários templos de cultos locais.
A expedição portuguesa zarpou do Congo fartamente
presenteada e deixou em terra quatro clérigos, objetos
litúrgicos e um negro conhecedor das duas línguas, para
montar uma escola. João I ainda pediu mais clérigos para a
conversão do reino ao catolicismo.
Catolicismo africano
A cristianização do Congo surpreende não só pela rapidez,
mas porque partiu de iniciativa própria e não de uma
imposição, como se poderia esperar de um projeto de expansão
colonial como as navegações portuguesas.
Mas a adesão dos congoleses ao catolicismo também pode ser
entendida a partir de suas próprias crenças, como levanta o
texto Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do
Congo, da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos
15 a 18, de Marina de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas.
Para os congoleses, havia dois mundos: o dos vivos e o dos
mortos, separados por uma grande porção de água. Os mortos
eram criaturas brancas que obedeciam a Zampen-Apongo, o
Senhor do Mundo, suprema divindade banto. E os vivos os
reverenciavam com homenagens, presentes e obediência, porque
deles podiam receber poder, riqueza e sabedoria.
Em 1485, quando os nativos levados pela expedição portuguesa
retornaram ao Congo, foram recebidos como mortos
ressuscitados, segundo o cronista Rui de Pina. Em outras
palavras, como se tivessem viajado para o Além, recebido
iniciação em seus segredos e retornado pela grande água do
Atlântico, acompanhados dos portugueses, que eram criaturas
brancas.
E tudo que essas criaturas trouxeram do outro lado do oceano
pode ter despertado enorme interesse no reino,
principalmente a religião, de eficácia jamais vista no
contato com o outro mundo e cujos rituais elas insistiam em
passar para os congoleses.
No Congo, a comunicação com o Além exigia um enclausuramento
ritual e um cerimonial com objetos mágicos chamados de nkisi.
Os congoleses podem ter identificado o batismo com esse
cerimonial e os objetos litúrgicos católicos com seus
objetos mágicos.
Além disso, o rei e os chefes locais proibiram que outras
pessoas assistissem a seu batismo, exceto as diretamente
envolvidas nele, o que pode ter funcionado, para eles, como
uma representação desse enclausuramento.
A destruição de templos tradicionais, quando eles se
converteram ao cristianismo, pode ter sinalizado a perda de
crédito da religião nativa, diante desse novo e
extraordinário poder de conjuração dos espíritos.
Afinal, os sacerdotes tradicionais também intermediavam a
comunicação entre os vivos e os mortos, mas não formavam um
corpo organizado nem seguiam uma doutrina universal, o que
levava a diferentes interpretações e mesmo à contestação do
que diziam.
Enquanto isso, o catolicismo tinha um clero de rígida
hierarquia, formado em preceitos canônicos, que controlava
verticalmente o processo da cristianização, punindo com
rigor tudo que se desviava deles.
No processo de catolização do Congo, foram fartamente
cultivadas analogias entre os cultos locais e o
cristianismo. Os próprios missionários chamavam os objetos
litúrgicos de nkisi e os nativos davam aos missionários o
mesmo peso dos sacerdotes locais, já que ambos atuavam em
ritos ligados ao casamento, à colheita e a momentos-chaves
da vida comunitária.
Dessa forma, os congoleses teriam preservado grande parte de
suas crenças tradicionais sob o discurso da nova religião,
numa africanização do catolicismo que, no início do século
18, se refletiria no movimento messiânico conhecido como
antonianismo que fez toda uma releitura do cristianismo sob
a liderança da jovem Kimpa Vita.
Cristianização e poder
A adesão do Congo ao cristianismo se deu junto com a
europeização de seus costumes e instituições. Afonso I
(1509-1542), sucessor de João I, promoveu a educação formal,
com base na língua portuguesa, a Justiça passou a se
inspirar na de Portugal e o Estado deixou de ser uma
confederação de províncias e reinados tributários para se
centralizar na figura do rei.
O reinado de Álvaro I (1568-1587) retomaria esse processo,
nomeando os nobres do Congo à européia, como condes,
marqueses e duques; distribuindo comendas de uma Ordem de
Cristo local, decalcada na original portuguesa e rebatizando
a capital do reino como São Salvador.
O Congo se cristianizou e se europeizou para poder falar de
igual para igual com as potências européias, firmar acordos
com elas para se movimentar na região e, principalmente,
participar de uma política internacional que, naquele
momento, passava pela África. Mas logo perceberia que era um
parceiro menor, nesse jogo.
Ao se despedir dos portugueses, em 1491, o rei congolês
expressou a intenção de enviar um embaixador a Roma, para
prestar obediência ao Papa, provavelmente com o projeto de
obter o poder espiritual sobre seus territórios, da mesma
forma que Portugal.
Através de bulas papais de 1455 e 1456, a Santa Sé havia
concedido aos portugueses o direito do padroado, segundo o
qual poderiam organizar e administrar a igreja católica em
seus domínios, inclusive os descobertos e a descobrir,
fundando igrejas e mosteiros, enviando missionários e
nomeando padres e bispos sob a supervisão do Vaticano.
Com o padroado, Portugal cristianizou grandes territórios
ultramarinos, nos séculos 15 e 16 e criou neles numerosas
dioceses, onde exerceu a autoridade através de bispos de sua
escolha, que lhe garantiram o poder espiritual e, a partir
dele, o poder político.
Mas, embora a cristianização inserisse o Congo na comunidade
católica, os portugueses quase não enviavam religiosos para
o reino. Que, sem um clero ordenado, apoiava sua igreja num
laicato sem poder, recrutando mestres na nobreza para levar
serviços religiosos à população.
Diante disso, foi crescendo, no Congo, a idéia de um clero
autóctone, mais próximo da população e da autoridade do rei,
que trabalhasse para a igreja local e não para a portuguesa,
cuja dominação foi crescendo, a partir da segunda metade do
século 16.
Para os reis congoleses, convertidos ao cristianismo, o
poder espiritual concedido pelo Papa traria um respaldo
muito maior, não só perante seus súditos e adversários, mas
diante dos portugueses, pela soberania na operação da igreja
local e, principalmente, na cena internacional, frente às
nações européias com quem queriam se relacionar.
Afonso I, o grande responsável pela introdução do
cristianismo no Congo, tentou dar início à formação desse
clero enviando à Europa seu filho Henrique, que se ordenou
como padre e, em 1518, foi nomeado bispo de Utica, no norte
da África. Henrique voltou ao Congo em 1520, mas morreu em
1531, quando se preparava para participar do Concílio de
Trento.
Mas a nomeação de Henrique como bispo não agradou aos
portugueses, que não queriam abrir mão do monopólio
espiritual sobre esse reino. O que levou os congoleses a
insistirem em sua autonomia religiosa, até persuadirem o
Papa a instituir em São Salvador o Bispado do Congo e de
Angola, em 1596, durante o reinado de Álvaro II
(1587-1614)..
Essa autonomia não veio, entretanto, porque o padroado
continuou favorecendo a Portugal, na nomeação de padres e do
bispo. E de nada adiantou ao rei Álvaro II enviar um
embaixador a Roma, pedindo a nomeação, para seu reino, de um
bispo que não fosse português.
Ao contrário, o que aconteceu com mais essa tentativa de
independência religiosa, por parte dos congoleses, foi o
endurecimento do bispado contra o rei. Até que, em 1624, o
bispo se transferiu para Luanda, em Angola, dando início a
uma crise política, entre Portugal e o Congo, que se
arrastaria até a desintegração do reino, na segunda metade
do século 17.
O grande negócio
Na verdade, no bojo da questão religiosa estava um dos
negócios mais vultosos da época e a atividade mais
importante das potências européias na África, que era o
tráfico de escravos.
A cristianização dos reinos africanos atendia a objetivos
muito práticos dos portugueses: eles precisavam de parceiros
confiáveis, no sentido de garantir uma rota segura para as
Índias, a exploração de recursos naturais e o
estabelecimento de entrepostos de comércio.
Afonso I incrementou o comércio do cobre com os portugueses,
aumentou a riqueza do reino, garantiu o apoio de nobres
importantes à sua coroa e permitiu a aquisição de
mercadorias européias, aprofundando a desejada aculturação
da elite local.
Mas o principal item desse intercâmbio logo passou a ser o
comércio de escravos, diante dos descobrimentos do Novo
Mundo e da necessidade cada vez maior de mão-de-obra
extensiva e barata para colonizar imensos territórios.
E os portugueses encontraram o mercado de escravos em pleno
crescimento, ao chegarem ao Congo, em função de
intermináveis conflitos regionais. A submissão de populações
em guerras de expansão era uma praxe que permitia aos reis
africanos fortalecer seus exércitos, multiplicar os
servidores do Estado e ampliar a riqueza pessoal com a venda
de cativos.
Em seu governo, Afonso I avançou as fronteiras do Congo para
o norte e para o leste; transformou a venda de prisioneiros
em monopólio real, cobrando taxas através de chefes locais
de confiança e foi o principal fornecedor de escravos para
os traficantes portugueses.
Mas logo esses traficantes passaram a ignorar as rotas
controladas pelo rei congolês. O reino tributário de Ndongo,
na futura Angola, passou a atrair os que queriam fugir a
esse monopólio, desviando impostos do rei e enriquecendo
outros chefes locais.
Foi quando Afonso I escreveu ao rei português D.João III, em
1526, denunciando que o tráfico ilegal estava despovoando
grandes áreas de seu reino, fomentando guerras entre
vizinhos e aprisionando até nobres congoleses, em disputas
internas, para vender como escravos.
A conquista do território
Mas os reis congoleses nada podiam fazer, além de protestar,
porque dependiam politicamente de Portugal. E, na raiz dessa
dependência, estava a complicada sucessão congolesa, que
mergulhava os candidatos na luta pela coroa, enfraquecia o
reino e abria caminho para a expansão portuguesa sobre seu
território.
Em 1491, o Congo tinha três chefes locais disputando o trono
e, para se manter nele, o recém-batizado João I pediu ajuda
aos portugueses. Que, prontamente, se aliaram ao exército
real como mercenários, combatendo arcos e flechas com armas
de fogo.
Quando se despediu da expedição portuguesa, nesse ano, o rei
congolês se ofereceu como súdito de Portugal, pelo
fulminante apoio que recebeu. E, doravante, concessões como
essa, mais a adesão ao cristianismo, garantiriam a coroa do
Congo contra os adversários.
Mas não a garantiriam contra esses aliados. Os eleitores do
rei do Congo passaram a ser não apenas seus nobres, mas
também os portugueses, apoiando candidatos que colocassem o
trono a serviço de seus interesses.
Quando Álvaro I iniciou seu reinado, também pediu ajuda
militar aos portugueses, para expulsar invasores do reino.
Em troca, permitiu que eles estabelecessem uma colônia na
província congolesa de Luanda, em 1575. E, quatro anos
depois, ajudou-os numa fracassada invasão a Ndongo, onde
buscavam o controle das rotas alternativas de escravos.
Mas, a partir daí, os congoleses passaram a assistir a uma
agressiva expansão territorial dos portugueses, que
devastaram o Ndongo em 1617 e invadiram o sul do Congo, em
1622, tomando as províncias de Mbamba e Mpemba, durante o
reinado de Álvaro III (1615-1622). .
Com a morte desse rei, os portugueses ampliaram em larga
escala a invasão a essa região do reino, sob o comando do
novo governador de Angola, João Correia de Sousa. E, sem
mais peias, proclamaram o direito de escolher o sucessor do
trono.
Derrotados na pretensão, voltaram-se contra Pedro II
(1622-1624), o sucessor eleito pelos congoleses e, sob o
mesmo comando, entraram em nova guerra de expansão, tomando
várias outras províncias do reino. Mas foram derrotados em
batalha e Correia de Sousa ganhou a oposição de comerciantes
portugueses preocupados com os negócios.
Pedro II aproveitou a vitória para declarar Angola como
inimiga e denunciou Correia de Sousa ao Papa e ao rei da
Espanha, que, na época, tinha Portugal sob domínio.
Manifestações anti-lusitanas se espalharam pelo Congo e a
comunidade de negócios se colocou ao lado do rei, obrigandio
Correia de Sousa a fugir.
Mesmo assim, Pedro II continuou no objetivo de expulsar os
portugueses de Angola e propôs aos holandeses uma força
conjunta para isso, em troca de ouro, prata e marfim. Uma
esquadra holandesa chegou a Angola em 1624, mas, morto Pedro
II, o sucessor Garcia I (1624-1626) desistiu da invasão,
alegando que não podia atacar católicos aliado a
protestantes.
A tensão continuou, em meio a tentativas, por parte dos
portugueses, de colocar sob sua autoridade chefes locais que
respondiam ao rei do Congo, cuja aliança com os holandeses
se efetivou em 1641, no governo de Garcia II (1641-1660),
com a tomada de Angola.
Sob a conquista holandesa, Lisboa interrompeu o envio de
missionários ao Congo e o espaço ficou aberto para os
capuchinhos italianos, que percorreram o interior do reino e
estimularam o surgimento de um clero autóctone.
Mas, em 1648, os portugueses expulsaram os holandeses de
Angola e os governadores do território passaram a retaliar
contra os congoleses.
Como parte dessa política, os portugueses atacaram e
reclamaram como seus vários pequenos estados
semi-independentes que separavam Angola do Congo e que os
congoleses consideravam sob sua autoridade.
O novo rei congolês, Antonio I (1661-1665), passou a
negociar com a Espanha uma aliança anti-portuguesa e
procurou a adesão desses estados. Mas, em 1665, um deles,
Ambuíla, entrou em luta sucessória e as facções envolvidas
pediram ajuda ao Congo e a Angola.
Os dois exércitos se enfrentaram em campo de batalha. Os
portugueses entraram com duas peças de artilharia leve e 15
mil homens, entre eles 450 mosqueteiros. Os congoleses
compareceram com cerca de 15 mil arqueiros; uma infantaria
pesada de 5 mil homens com espadas e escudos e um regimento
de 380 mosqueteiros.
Mesmo com um fogo pesado, os congoleses não conseguiram
quebrar a formação portuguesa. O rei Antônio I morreu em
combate, junto com boa parte de sua nobreza. Teve a cabeça
cortada e enterrada em Luanda, para onde foi levado seu
herdeiro de sete anos de idade. Sua coroa e seu cetro foram
enviados a Lisboa como troféus.
Kimpa Vita
Sem sucessor à vista, o trono congolês se dividiu entre duas
casas da nobreza, cuja rivalidade levou o Congo ao caos
institucional, com reis coroados e derrubados
sucessivamente. E, a partir deste ponto, embora continuasse
existindo institucionalmente, o reino deixou de funcionar,
na pratica, como um estado unificado.
Facções da nobreza se transferiram para as províncias,
formando bases de atuação e dividindo o território entre si.
Cada chefe local se cercou de seus auxiliares, reproduzindo
a estrutura real e escolhendo o sucessor do trono. E essa
fragmentação, mais quarenta anos de guerra civil por um
poder central que não conseguia se consolidar, deram o golpe
final no reino.
Com a fragilização do estado, fortaleceram-se províncias
como Soyo, que os portugueses tentaram invadir sem sucesso
em 1670, encerrando suas ambições territoriais na região até
o final do século 19. A capital São Salvador foi saqueada e
incendiada em 1678 pelas facções em luta e a população se
dispersou pelas montanhas.
Sem solução, a guerra civil devorou o reino pelo que restou
do século 17, destruindo o território e aumentando
pesadamente a quantidade de congoleses vendidos como
escravos. Dezenas de milhares, fugindo dos conflitos ou
aprisionados neles, formaram uma corrente humana em direção
a Loango, onde estavam traficantes ingleses e holandeses e
na direção de Luanda, onde eram entregues a traficantes
portugueses.
E, nesse cenário conturbado e decadente, surgiram Kimpa Vita
e seu culto messiânico, carregando multidões em busca de uma
perspectiva.
Kimpa Vita ou D.Beatriz era uma jovem congolesa de família
nobre, educada no catolicismo e sacerdotisa de cultos
tradicionais Em 1702-1703, aos 18-20 anos de idade,
recobrou-se de forte doença, dizendo que havia morrido e
ressuscitado como Santo Antônio. E, junto com um São João
que a acompanhava, criou o movimento religioso conhecido
como antonianismo.
Vita dizia que jantava toda sexta-feira com Deus, morria e
ressuscitava no sábado. Segundo ela, Cristo havia nascido em
São Salvador, capital do Congo, que era a verdadeira Belém e
tinha sido batizado na província de Nsundi, segundo ela, a
verdadeira Nazaré.
Dizia, também, que Nossa Senhora era negra, filha de uma
escrava e criada de um nobre congolês. E que São Francisco
pertencia a um dos clãs do reino. Condenava o clero oficial,
por monopolizar a revelação de Deus e o segredo das riquezas
para o homens brancos, em prejuízo dos santos negros.
Da mesma forma, rejeitou sacramentos como o batismo, a
confissão e o matrimônio católico. Legitimou a poligamia,
antiga instituição local derrubada pelo cristianismo. E
proibiu a veneração da cruz, porque Cristo havia morrido
nela.
Para seus seguidores, prometia uma Idade de Ouro próxima,
onde as mulheres seriam férteis, as raízes das árvores
derrubadas se converteriam em ouro e prata e, as ruínas das
cidades, em minas de pedras preciosas. E chegou a organizar
uma igreja antoniana, com sacerdotes chamados de antoninhos,
que espalhavam essas idéias.
Ao mesmo tempo, articulou alianças políticas pela
reunificação do Congo, mas tomou partido contra Pedro Água
Rosada, que acabou se tornando o líder desse processo,
costurando um acordo para a ocupação rotativa do trono pelas
casas em luta.
Pressionado por missionários capuchinhos, Pedro mandou deter
Kimpa Vita, sob a acusação de que tinha um filho
recém-nascido do pretenso São João, que seria seu amante. E
de que o choro desse filho tinha sido ouvido, enquanto ela o
amamentava, desmascarando-a como falso Santo Antonio. Kimpa
Vita e seu São João foram queimados vivos como hereges, em
1708.
O fim de um reino
No ano seguinte à execução de Kimpa Vita, Pedro Água Rosada
assumiu a coroa como Pedro IV (1709-1718), reocupando São
Salvador e reunificando o reino.
Mas, no primeiro quartel do século 18, fragmentado pela
guerra, pela ocupação portuguesa e pela independência de
províncias e reinos tributários, o outrora poderoso Reino do
Congo, embora ainda autônomo, estava reduzido a pequeno um
enclave ao norte de Angola.
Das seis províncias antigas, restavam apenas duas: Mbata e
Mpangu. Das outras quatro, duas tinham sido tomadas pelos
portugueses (Mpemba e Mbamba, em 1622) e duas haviam se
tornado independentes (Soyo, em 1700 e Nsundi, e m 1718).
Dos quatro reinos tributários, restavam apenas dois: Cacongo
e Ngoyo. Dos outros dois, um tinha sido tomado pelos
portugueses (Ndongo, em 1670) e o outro havia se tornado
independente (Loango, em 1700).
O poder rotativo funcionou relativamente bem, ao longo do
século 18, mas a luta de facções continuou, embora em escala
menor e, em 1842, Portugal interveio na sucessão para
colocar no trono Pedro V (1842-1857).
Em troca desse apoio e de poderes ampliados sobre áreas
vizinhas, Pedro V manteve a independência do Congo, mas
cedeu seu território como parte de Angola, em regime de
protetorado. E, em 1888, seu sucessor Pedro VI (1859-1891)
assinou, diante dos portugueses, a vassalagem de um reino
que não podia mais viver sem eles.
O tráfico de escravos tinha sido extinto pelos portugueses
em 1839, sob pressão da Inglaterra, mas a atividade
continuaria até c.1850. Maior parte dos estudiosos
contemporâneos estima que entre 9,4 e 12 milhões de negros
chegaram ao Novo Mundo, entre os séculos 16 e 19, embora a
quantidade arrancada do lugar de origem seja
consideravelmente maior.
Entre 1650 e 1900, de 10.24 milhões de africanos que
chegaram às Américas como escravos, 39,4% vieram da África
centro-ocidental, incluindo as atuais República do Congo,
República Democrática do Congo e Angola. Entre 1519 e 1867,
de um número base de 10 milhões de escravos, 38,5% vieram
para o Brasil (v.
http://en.wikipedia.org/wiki/Atlantic_slave_trade
Na verdade, era toda uma África exaurida, sem uma economia que a
sustentasse e sem política própria para se relacionar com o
mundo, que entregava seu destino à Europa, cujas potências
se reuniram na Conferência de Berlim (1884-1885), para fazer
a partilha de seu território
A região centro-ocidental da África foi dividida entre
França, Bélgica e Portugal. França e Bélgica ficaram com os
atuais territórios da República do Congo ou
Congo-Brazzaville e República Democrática do Congo ou
Congo-Kinshasa. Portugal ficou com o exclave de Cabinda,
entre esses dois territórios, reunindo os antigos reinos de
Loango, Cacongo e Ngoyo.
Em 1914, o Congo assistiu a uma revolta contra Portugal e
contra a cumplicidade dos reis com os interesses
portugueses. Lisboa sufocou a revolta, destituiu do poder o
último rei congolês, Manuel III (1911-1914), extinguiu o
reino e incorporou, definitivamente, seu território a
Angola.
Com isso, o Reino do Congo desapareceu dos mapas para se
transformar, miticamente, na terra-mãe de todos os
africanos. Inclusive dos descendentes de escravos que, até
hoje, desfilam vestidos de reis do Congo na Festa de N.S.do
Rosário e S.Benedito de Paraty.
...............................................................................................................................................................
Fontes:
www.wikipedia.org
http://www.britannica.com
Marina de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas, Catolização e
poder no tempo do tráfico, o reino do Congo, da conversão
coroada ao movimento antoniano, séculos 15 a 18, v. Pesquise
Chantal Luís da Silva, Jogos e interesses de poder nos
reinos do Congo e de Angola nos séculos 16 a 18, v. Pesquise
Consulte nossa
bibliografia
geral
Pesquise
sobre a escravidão, os escravos e suas devoções
Leia também
sobre a produção da Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito, em
Bandeiras brancas.
sobre N.S.do Rosário em
O
Rosário
histórias de S.Benedito em Histórias do
O
santo negro
sobre a Igreja de N.S,.Rosário em
Feita por negros
sobre a tradição do rei Congo em
Negro rei
sobre os escravos no Brasil em
A grande água, entrevista com
Marina de Mello e Souza
Volte a
O Rosário e o santo negro
Volte a
pARATIANDo |