Salve os Santos Reis

Os Reis que eram magos


Na tradição recente, os três Magos têm sido retratados como originários de diferentes regiões do mundo. Um deles da Europa ocidental, geralmente celta, das ilhas inglesas ou da França; outro da África, normalmente abissínio ou etíope e o último da Ásia, originário de Oman ou do Iemen, na Península Arábica ou do Extremo Oriente, usualmente China. O europeu é dado como o que oferta o ouro, enquanto os outros se revezam com o incenso e a mirra.   

A isso se costuma acrescentar que o europeu era o idoso Melchior, representando o Ocidente e a Caridade; o africano era o maduro Baltazar, representando o Sul e a Esperança e o asiático era o jovem Gaspar, representando o Oriente e a Fé. Mas Mateus, fonte primária desse relato, diz apenas que os Magos vieram do Oriente.

Os dois lados do mundo

À época do nascimento de Jesus, o mundo conhecido se dividia em dois grandes impérios. O Ocidente era dominado pelo poderoso Império Romano, que se concentrava na Europa; chegava á África, com o Egito e tocava o Oriente Médio, com a Síria, o Líbano e a antiga Judá, na região da Palestina, onde se havia formado o povo judeu (1).

O Oriente era dominado pelo vasto Império Parta, que se concentrava no Oriente Médio, englobando a antiga Pérsia, atual Irã; a Assíria e a Babilônia, hoje territórios do Iraque; o Golfo Pérsico, o Líbano e a Turquia. O Império Parta avançava, ainda, para a Ásia, envolvendo o Paquistão, o Afeganistão, o Turcomenistão e o Tadjiquistão e ia até a Armênia e a Geórgia, na Europa, impondo uma fronteira oriental ao Império Romano (2). 

Sábios de Zoroastro

O termo mago se refere à casta sacerdotal do zoroastrismo, a religião do Império Parta. A leste da Palestina, apenas as antigas Media, Persia, Assíria e Babilônia tinham um clero, à época do nascimento de Jesus. Por isso, os indícios mais fortes são de que os Magos vieram da Babilônia, antigo centro dessa religião e meca da astrologia, a ciência que ela cultivava.   

O zoroastrismo, fundado por volta do século 10AC pelo profeta persa Zoroastro ou Zaratustra, foi a primeira religião monoteísta da História a reunir seus preceitos num livro sagrado, a se estruturar em torno de um clero e a erguer templos para celebrar cultos.

Do zoroastrismo vieram concepções religiosas centrais para judeus, cristãos e muçulmanos, como a imortalidade da alma, o Paraíso e a vinda de um Messias. O zoroastrismo durou cerca de 1.700 anos, até o século 7AD, quando foi suplantado pelo islamismo. Mas até hoje seus ritos sobrevivem em pequenas comunidades do Irã, Paquistão e Índia.

Segundo Heródoto (3), os magos formavam a casta sagrada dos medas, habitantes da antiga Média, que, junto com os territórios de  Pérsis e Elam, formava a Pérsia, hoje Irã. Os magos forneciam sacerdotes para o zoroastrismo e sua influência religiosa sobreviveu a várias dinastias imperiais.

Mas, com a queda do poder assírio e babilônio, esse poder oscilou. Ciro conquistou  a casta e seu filho Cambyses a reprimiu severamente. Revoltados, os magos colocaram seu chefe Gaumata como rei da Pérsia, sob o nome de Smerdis, mas ele foi assassinado em 521AC e Dario tomou o trono.

Heródoto conta que a Pérsia celebrou essa queda dos magos com um feriado nacional chamado magophonia, mas a casta dos magos recobrou a influência política e religiosa e, à época do nascimento de Jesus, ainda florescia no Império Parta, do qual formava um dos conselhos, segundo o historiador Strabo (4). 

Berço da civilização

O Oriente era uma região altamente desenvolvida. A região da Mesopotâmia, que se estende pelo Irã, Iraque, Síria e Turquia, é considerada pelos historiadores o berço da civilização. E da antiga Pérsia vieram grandes contribuições à ciência, à civilização e ao homem.

Foi na Mesopotâmia que se iniciou a agricultura regular, permitindo que os povos deixassem a coleta nômade de alimentos para se fixarem na terra, desenvolvendo conhecimento e tecnologia para atender a suas necessidades e reunindo-se em torno de instituições coletivas.  

 

Nessa região surgiram a roda, a escrita e as principais religiões monoteístas, que substituiram os cultos pagãos. Ali se lançaram as bases de ciências como a astronomia e a matemática . Lá surgiram o conceito de nação, a divisão de classes e a escravidão. Surgiram, também, os primeiros códigos de leis, governos centralizados e impérios políticos, econômicos e militares. 

 

Os persas estabeleceram a trigonometria e a álgebra, alavancaram a medicina e a química e desenvolveram a astrologia, ciência-mãe da moderna astronomia. Os persas também Introduziram a fabricação do tijolo e do vinho, o sistema de correios, a coleta de impostos e criaram em 6AC, sob Ciro II, aquele que é considerado o primeiro código de direitos humanos da História, gravado para a posteridade no Cilindro de Ciro..

Intercâmbio cultural

O Oriente era uma região envolta em mistério e desconhecimento, pelo acesso difícil. Mas, através das rotas comerciais e das disputas territoriais, mantinha um forte intercâmbio cultural com o Ocidente.

Na época do nascimento de Jesus, o Oriente chegava às portas de Roma com a Rota da Seda e da Rota do Incenso, reunindo negociantes, peregrinos, missionários, emigrados e nômades de ambos os lados  numa riquíssima troca de mercadorias, tecnologias e idéias.

A Rota da Seda foi uma extensa  rede terrestre de tráfego comercial que ligou  China, Índia, Pérsia, Península Arábica, Egito e Roma, do século 3AC até o final da Idade Média, transportando especialmente sedas, cetins, perfumes, pedras preciosas e artigos de luxo.

A Rota do Incenso eram antigos caminhos de comércio entre o Egito e a Índia, através da Península Arábica, de onde se estenderam para o Mediterrâneo entre os séculos 3AC e 2AD, transportando especiarias, tecidos finos e ébano da Índia, incenso e mirra da Península Arábica e peles de animais,  penas de aves raras, madeiras nobres e ouro da África.

Ao mesmo tempo, as intermináveis guerras de dominação da época acabavam aproximando Oriente e Ocidente, através da imposição e da assimilação cultural, o que se deu de forma particular entre persas e judeus.  

Conexão judaica

Em 586AC, o Império Babilônico conquistou Judá; escravizando os judeus por quase 50 anos, no chamado Cativeiro da Babilônia (5).

 

Entre os cativos estavam egressos da nobreza judaica, como o futuro profeta bíblico Daniel, que se manteve fiel ao judaísmo, mas se educou na corte babilônia, aprofundou-se na interpretação dos sonhos, destacou-se como um dos maiores conhecedores do zoroastrismo, em sua época e se tornou o chefe dos sábios de Nabucodonozor II.     

 

Em 539AC, o imperador persa Ciro II, o Grande, conquistou a Babilônia, libertou os judeus do Cativeiro e instaurou um reinado de tolerância cultural e religiosa. Com isso, muitos judeus permaneceram na Babilônia e na Pérsia, mantendo a identidade cultural através das crenças religiosas e os zoroastristas adquiriram largo conhecimento das profecias judaicas.

O poder dos astros

Os magos desfrutavam de grande prestígio pelo conhecimento dos astros e, em Mateus, Herodes reconhece esse saber.ao chamar os magos secretamente, para lhes perguntar a data exata em que a Estrela de Belém surgiu para guiá-los a Jesus (6).

Os antigos achavam que os acontecimentos importantes da Terra eram anunciados por fenômenos do Céu. E viam nesses fenômenos a manifestação de uma vontade superior, que os levava ao medo e à submissão, num mundo pagão, onde os deuses tinham cabeças de animais e tudo se explicava pelas forças da Natureza.   

Nesse contexto, o conhecimento dos astros conferia grande poder aos sacerdotes zoroastristas, que, a partir deles, marcavam a época do plantio e da colheita e previam eclipses e outros eventos celestes, que normalmente eram interpretados como sinais de mudanças, entre elas a vinda de um Messias. 

Anúncios de mudança

Estudiosos do Novo Testamento acham que, com o conhecimento que adquiriram do judaísmo, os Magos viram na Estrela de Belém o cumprimento da profecia de Balaão, largamente difundida na época (7).

Além disso, Virgílio, Horácio, Tácito e Suetônio (8) escreveram que, nesse tempo, o Império Romano vivia uma inquietação geral e a expectativa de um Salvador, que interviria no mundo para reorganizá-lo sob outras bases.   

O Oriente era aqui

Os zoroastristas também esperavam esse Salvador. Que, como o dos judeus, também era nascido de uma virgem e orientaria os homens para a salvação no Juízo Final.

Assim, na época do nascimento de Jesus, o Oriente era lá, mas também era aqui. E, ao registrar a adoração dos Magos a Jesus, num mundo ainda pagão e politeísta, Mateus criou uma das metáforas mais poderosas do cristianismo: a união dos dois lados do mundo - e de todos os homens - em torno de um único Deus.


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Notas:

 

(1) Roma foi fundada em 753AC. Depois de um período monárquico, tornou-se República em 509AC e passou a Império a partir de 44AC. Em 285, o Império Romano se dividiu em dois: o do Ocidente, com sede em Roma e o do Oriente, com sede em Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia. O Império Romano do Ocidente durou até 476. O do Oriente sobreviveu até 1453.  São dados aproximados, levando em conta as idas e vindas na disputa por territórios, as diferentes versões de historiadores e, em função disso, a imprecisão e a contradição dos mapas da época. V.Mapas.

(2) O Império Parta durou quase 500 anos, de 247AC a 224AD. Mais precisamente, era formado por pelas antigas Pérsis, Elam e Média, no Irã; pelo Paquistão, Afeganistão, Turcomenistão e Tadjiquistão, a leste do Irã; pelo Golfo Pérsico e a costa da Arábia Saudita, incluindo os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrein e o Kwait; pela antiga Mesopotâmia, onde ficavam as antigas Assíria e Babilônia; extensa e fértil região entre os rios Tigre e Eufrates, que vai do sudeste do Irã ao centro do Iraque, nordeste da Síria e sudeste da Turquia, pelo Líbano e pela Anatólia, hoje Turquia e pela Armênia e Geórgia. São, igualmente, dados aproximados, como na nota acima. V.Mapas

(3) Heródoto de Halicarnassus (c.484-425AC) é considerado o pai da História. Foi o primeiro a coletar material histórico de forma sistemática, testando sua validade e organizando-o numa narrativa vívida e bem construída. É conhecido principalmente por sua história das guerras entre a Grécia e a Pérsia (490-479AC), quando viajou longamente pelos mares Negro e Mediterrâneo e deixou um precioso depoimento sobre os povos e os lugares que conheceu. Essa obra inclui uma descrição da Grande Pérsia, a região de influência cultural desse povo, com detalhes de sua vida social e dos cultos zoroastristas.

(4) Strabo (63/64AC-c.24AD) foi um historiador, geógrafo e pensador grego. Sua primeira grande obra, Esboços Históricos, escrita em c.20AC, quando ele estava em Roma, ficou quase toda perdida. Strabo também é importante por sua Geografica, de 17 volumes, descrevendo a história de diferentes povos e regiões de sua época.

(5) Antes do Cativeiro da Babilônia, a população de Israel, da qual Judá se separou mais tarde, já havia sido deportada duas vezes para esse território, em 740AC e 722AC e anexada ao Império Assírio.

(6) V.Mateus, 2, 7 em Textos Bíblicos

(7) “Vê-lo ei, mas não agora, contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel, que ferirá os termos dos moabitas e destruirá todos os filhos de Sete” (Números, 24, 17).

(8) Virgílio (70-19AC), autor de Eneida e personagem da Divina Comédia, de Dante, é considerado o maior poeta de Roma. Horácio (65-8AC), foi um filósofo e outro grande poeta da Roma Antiga. Tácitto (56-117AD) foi senador e historiador do Império Romano. Suetônio (c.75-c130AD) foi um historiador romano que escreveu sobre a vida cotidiana no Império.

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Fontes:

www.google.com

www.wikipedia.org

http://www.newadvent.org/cathen/

http://www.bibliacatolica.com.br/

http://www.studylight.org/desk/?l=en&query=Genesis+1&section=0&translation=kjv&oq=ge%201&new=1&nb=ge&ng=1&ncc=1

 

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