A construção da cidade

Jogo de montar

 

Ao longo de quase 400 anos, a arquitetura brasileira praticamente reproduziu os padrões da Metrópole, sem grandes alterações, porque, através de leis específicas, eram obrigadas a manter uma aparência portuguesa. 

Assim, as modificações nessa arquitetura praticamente se limitaram à substituição de materiais e ao aplique de elementos num desenho básico, como um jogo de montar. 

Nas casas de Paraty, a técnica de construção mais usada foi a taipa-de-pilão, socando barro, areia, cal e pedras pequenas numa forma de tábuas. Já paredes internas que não sustentassem a estrutura eram feitas em pau-a-pique, preenchendo com barro uma grade de bambu ou gravetos amarrada com cipó. 

Em construções importantes, como as igrejas, usava-se a alvenaria de pedra, juntando-se pedaços de rocha com uma argamassa à base de barro, areia e cal. A alvenaria de pedra também foi usada na divisão de propriedades e como alicerce, para evitar que a umidade subisse pelas paredes de taipa ou de pau-a-pique. 

O telhado formava beirais para o escoamento da água, apoiado em suportes de madeira chamados cachorros, em telhas sobrepostas chamadas de beira-seveira ou num caixote de madeira ou estuque chamado cimalha. A faixa de pedras no chão, em frente às fachadas, impedia que a água dos beirais formasse poças e levasse a umidade para as paredes. 

Até meados do século 18, as construções brasileiras tinham janelas retangulares, com batentes de madeira e folhas cegas. Por volta dessa época, adotaram a treliça, a folha de guilhotina e a graciosa curva superior que marca o estilo colonial. As portas ganharam batentes de pedra e folhas almofadadas. 

Com a opulência do café, no século 19, as residências deram um enorme salto na sofisticação das fachadas. 

As janelas, que já tinham vidraças desde o século 17, ganharam caixilhos elaborados. Multiplicaram-se os vidros bisotados e desenhados a fogo; as vidraças fixas na parte superior, chamadas de bandeiras, as venezianas e as sobrancelhas de estuque sobre a curva superior de portas e janelas. 

Nas casas de Paraty ainda existem portas com treliças, para manter o interior ventilado; janelas  com meias-cortinas rendadas, para proteger a intimidade e portas de folha cortada que se abrem na parte superior, para uma e outra coisa. 

Os balcões dos sobrados, antes em madeira; com almofadas, treliças ou grades recortadas, adotaram o ferro batido, com refinados desenhos no estilo Império, entrelaçando palmas, estrelas e rosetas ou no estilo Romântico, com anagramas, liras, vasos e ornatos em forma de abacaxi ou pinha, incorporando elementos tropicais. 

Mas, nas casas de Paraty, nem sempre os detalhes da fachada revelam a época em que foram construídas. Em muitos casos, fachadas de determinado período abrigam elementos anteriores, por uma questão de gosto, de uso ou de recursos, numa cidade que sempre viveu uma economia flutuante. 

A fachada sempre dava na rua principal, para ostentar as posses da família. Já nas casas de esquina, mesmo ricas, a parede lateral era despojada de ornamentos e as travessas funcionavam como ruas de servidão. 

Nos sobrados, o andar de baixo geralmente abrigava armazém ou serviços e, o andar de cima, a vida social e familiar. Havia uma sala de visitas na frente e outra familiar nos fundos, ligadas por um corredor de onde saíam quartos sem janelas. 

No fundo das casas ficava o quintal, que era o único verde das cidades coloniais, onde não havia árvores nas ruas nem nas praças. O quintal abrigava a cozinha, por causa de tarefas sujas como o abate de animais. Mais tarde, a cozinha foi para o fundo da casa, embora ainda sem tanta higiene, mesmo nas residências ricas. 

O Centro Histórico de Paraty foi todo erguido ou adaptado no século 19. A cidade era um entreposto comercial e muitas casas são antigos armazéns de mercadorias, com meias-paredes no vão das portas para transformá-las em janelas, como mostram os batentes. Também nessa época, muitos sobrados foram construídos sobre casas e armazéns. 

Das construções anteriores, só restaram as mais sólidas, como as igrejas. O resto simplesmente ruiu, pela precariedade das construções, numa cidade por onde a riqueza sempre passou, mas pouco se fixou. . 

Na Paraty de 1717, em pleno ciclo do ouro, a maior parte das casas era de taipa, coberta de palha. Em 1799, surgiram as primeiras posturas municipais, organizando a ocupação do espaço e unificando a aparência das construções


Nessa época, a crônica já registrava mais de 400 casas na cidade, construídas em pau-a-pique, estuque ou cal e pedra, entre elas sobrados erguidos com apuro. E os inventários de bens mostram que a elite do comércio e da aguardente desfrutava de certa riqueza.


Mas, em 1831, o Registro de Posturas da Câmara voltou a exigir uniformidade nas construções e, desta vez, proibiu casas de madeira e com cobertura de palha, para evitar incêndios. Em 1870, a Assembléia Provincial do Rio de Janeiro repisou essas exigências, mostrando que a cidade e suas construções ainda careciam de ordenamento.


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Fonte principal:
Rodrigues, José Wasth, Documentário Arquitetônico, Itatiaia/Edusp, SP, 1979
Rodrigues, José Wasth, A Casa de Moradia no Brasil Antigo, Revista IPHAN 9, RJ
Reis, Nestor Goulart, Quadro da Arquitetura no Brasil, Perspectiva, SP, 1978
Avila, Affonso et al, Barroco Mineiro, Glossário de Arquitetura e Ornamentação, Melhoramentos et al, SP, 1980
Souza, Marina de Mello e, Parati, A Cidade e as Festas, UFRJ, RJ, 1994
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