|

O Rosário e o
santo negro
Histórias do santo negro
A
multiplicação dos pães
Parece que o caso mais extraordinário acontecido durante o
tempo em que Frei Benedito governou o convento foi uma
multiplicação de pães. É outro faro onde se vê claramente a
presença de Cristo na pessoa de Benedito, acudindo os pobres
e famintos.
Apesar do convento também viver de esmolas, como sempre
temos frisado, a ordem do Guardião ao irmão porteiro era
clara: nenhum pobre sem atendimento. Nenhum mendigo
despachado sem uma ajuda. Assim queria Benedito que se
vivesse o preceito de Jesus:
“Dêem de graça o que de graça receberam” (Mt 10,8)
Certa vez, ao distribuir pão aos pobres, o porteiro, Irmão
Vito da Girgenti, percebeu que a fila ainda era grande, e
que na cesta restavam apenas poucos pães, que davam
exatamente para os membros do convento. Encerrou, então, a
distribuição e despachou o resto dos pobres. O fato chegou
ao conhecimento do Guardião, que intimou o bom porteiro a
correr e chamar de vota os pobres que ficaram sem pão.
-
“Dê aos pobres tudo o que estiver na cesta, disse Benedito,
que a Providência divina achará um meio de socorrer-nos.”
Os
pães, naquele tempo, geralmente eram feitos em casa. Não
havia essa facilidade que temos hoje de correr a uma padaria
na esquina. Aqueles pães dados aos pobres eram, então, os
últimos, até o cozinheiro ou padeiro do convento fazer mais.
Por isso o irmão porteiro ficou meio espantado com a ordem
recebida, mas obedeceu. Chamou os pobres e pôs-se a
distribuir-lhes os pães restantes. Foi aí que percebeu que
alguma coisa de extraordinário estava acontecendo ali. O pão
da cesta não se acabava; quanto mais ele tirava, mais
aparecia.
Foi uma nova multiplicação de pães, como aquela de Jesus no
deserto. Espanto e alegria encheram o coração do porteiro.
Terminada a distribuição, outra maravilha: na cesta ficaram
exatamente aqueles pães que ele havia reservado para a
comunidade. Nenhum a mais nem a menos.
Não temos outros São Benedito, mas o exemplo dele, bem como
de Santo Antônio, fazem que, anualmente, apareçam muitas
almas caridosas que distribuem milhares de sacos de pães aos
pobres, em memória do gesto desses santos.
Árvore do fruto abençoado
A
árvore de que falamos são os pais de São Benedito.
Garantiu Jesus que árvore boa dá frutos bons. Ao deparar-nos
com um fruto tão extraordinário como São Benedito, temos,
forçosamente, de concluir pela perfeição das árvores que
foram seus pais. Árvores abençoadas!
Mas essas conclusões, embora corretas, não nascem de
documentos, porque não os temos, ou melhor, são muito
escassos. Sabemos que se chamavam Cristóvão e Diana Lercam.
Eram escravos de um tal Monassero.
Notemos o nome bem cristão do pai de Benedito: Cristóvão ou
“aquele que leva Cristo”, o que indica que ele também já
vinha de um berço cristão. Não só ele, mas também a esposa
levaram Cristo ao endereço certo, ao coração do filho
Benedito, bem como de seu irmão Marcos e de suas irmãs
Baldassara e Fradella.
Dizem que o irmão cometeu um homicídio, mas não conhecemos
as circunstâncias. Quem sabe poderá ter sido em legítima
defesa, o que não constitui crime perante Deus. A irmã
Fradella morreu com fama de santidade.
Sendo Cristóvão muito bom cristão, correto e trabalhador,
conquistou a confiança do patrão, que o fez capataz da
fazenda e feitor dos escravos. Quando Cristóvão se casou, o
patrão prometeu-lhe que seu primeiro filho nasceria livre.
Assim aconteceu que Benedito, filho de escravos, nasceu
livre. Mas, à semelhança de Cristo, que por nós se fez
servo, também Benedito passaria sua vida como servo de
todos.
Aqueles que se fazem verdadeiramente servos de Deus, por
amor, também se fazem servos dos irmãos, a quem servem,
vendo neles o próprio Cristo. “Tudo o que fizerem ao menos
dos meus irmãos é a mim que o fazem”. Nessas palavras de
Jesus está, inclusive, uma grande promessa de recompensa
para nós.
Criança abençoada
São Benedito nasceu em 1526, segundo a maioria dos
biógrafos.
Sua infância não foi diferente daquela dos meninos de sua
idade e condição: uma vida pobre, humilde e simples, que
passou despercebida dos outros. Mas o Espírito Santo o
guiava pelos seus caminhos, para fazer dele uma pedra
escolhida, preciosíssima. A semelhança do Menino Deus, o
menino Benedito crescia em sabedoria, idade e graça.
Os
pais também não se descuidavam dos seus deveres de
educadores. Olhar vigilante, bons conselhos e, sobretudo,
excelentes exemplos. Podemos dizer que Cristóvão e Diana
eram espelhos de virtude, onde o Ditinho podia ver o que era
uma fé viva, uma caridade ardente, oração confiante e uma
verdadeira devoção a Nossa Senhora.
Não teve escola, o que não deve espantar-nos porque bem
poucos eram os que estudavam naquela época. Mesmo gente rica
e de classe bem mais alta que a de Benedito também não sabia
ler e escrever.
Apesar disso, Benedito não cresceu nenhum ignorante, porque
teve duas coisas mais indispensáveis que a escola: um lar
cristão e a igreja de sua pequena São Filadelfo.
A
condição de pobreza da família fazia que ali todos
confiassem em Deus e se abandonassem à sua Providência. Mas,
ao mesmo tempo em que ali se vivia numa “Igreja Doméstica”,
não se descuidavam dos deveres paroquiais. Era ali, na sua
igreja-matriz, que brilhavam os exemplos da família de
Benedito.
Um
lar cristão e uma vida comunitária bem estruturada são o
ambiente natural onde surgem as vocações religiosas e
sacerdotais. Ali começou também a vocação do religioso
franciscano. Benedito não foi para o convento para aprender
as virtudes, mas para levá-los à perfeição.
Os
pais, responsáveis pela educação dos filhos, devem aprender
com os pais dos santos como conduzir seu trabalho. Por trás
dos santos, sempre estiveram os bons exemplos dos pais, ou
ao menos a presença de uma santa mãe.
São Filadelfo
O
nome de São Benedito, nos livros litúrgicos é Benedito de
São Filadelfo. Era velha tradição dos frades, agora
abandonada, usar como sobrenome o nome do lugar onde
nasceram. São Benedito nasceu em São Filadelfo, daí:
Benedito de São Filadelfo.
O
lugar mais tarde passou a chamar-se São Fratello. Querem
alguns que essa mudança se tenha dado em honra do “Irmão”
Benedito, que em italiano se diz Fratello Benedetto.
Os
religiosos leigos ainda hoje são chamados de “Irmãos” nas
suas Ordens ou Congregações.
Mas não me parece que tenha sido esta a razão da mudança do
nome de São Filadelfo para Fratello.
Qual foi então? As informações nos é dada pela Enciclopédia
Espanhola (Espasa-Calpe). São Filadelfo é um mártir cristão
morto no dia 10 de maio do ano 251, a nordeste de Siracusa,
na Sicília. Morreu juntamente com seus irmãos Álfio e
Cirino. Mais tarde suas relíquias foram levadas para
Aluntium, ao norte da ilha.
É
possível que somente as relíquias de São Filadelfo tenham
sido tranladadas, como parece indicar o nome atual, São
Fratello, que recebe a antiga Aluntium. San Fratello
significaria, então, o santo irmão de Álfio e de Cirino.
Aluntium, San Filadelfo e San Fratello.
Desses
três nomes, oficializou-se o último, San Fratello, como é
chamada até hoje a terra de São Benedito.
Um nome bendito
Os
pais escolhem o nome dos filhos, mas nem sempre são felizes
nessa escolha. Ou o nome nada significa ou, quando tem
significado, este não combina com o dono do nome.
Sirva de exemplo a velha história do tempo de Alexandre
Magno, o grande conquistador. Ele encontrou, certa vez,
entre seus soldados, um que era feito de pura covardia.
Aproximando-se dele, perguntou-lhe aquele rei: - “Como te
chamas?”
-
“Alexandre”, respondeu tremendo o infeliz.
-
“Pois então, tornou-lhe o rei, muda de nome ou de
comportamento.”
Verdadeiramente inspirados foram os pais de Benedito, quando
lhe deram este nome, que significa bendito, abençoado.
Quando a água batismal correu na fronte da criança e o
sacerdote impôs-lhe o nome: “ó Ben(e)dito, eu te batizo...”
a Santíssima Trindade ratificava, para o tempo e para a
eternidade, aquilo que estava ali acontecendo.
Hoje entendemos aquela profecia. O menino era mesmo um
“bendito”.
Bendito porque estava predestinado a bendizer o nome de Deus
por uma vida santa, e assim, ele mesmo se tornar um bendito.
Bendito por seus pais escravos, porque se viram libertos e
remidos naquele filho que nasceu livre pela vontade do seu
dono.
Bendito através dos tempos por todos os seus devotos, entre
os quais estamos nós brasileiros, que tanto o amamos e
veneramos.
Continuemos, pois, a bendizer a Deus, que deu ao nosso povo
este nome abençoados, para ser uma fonte inesgotável de
proteção para nossa vida e perseverança para nossa fé.
Embora tivéssemos uma centena de santos nascidos no Brasil,
certamente São Benedito seria o mais “brasileiro” de todos
os santos.
O pastorzinho
Simpática profissão a de pastor de ovelhas. São homens que
inspiram bondade, delicadeza, segurança e outras coisas
boas. Gostaria que algum evangelista nos tivesse contado que
Jesus foi pastor. E exatamente naquelas campinas de Belém,
onde os anjos anunciaram aos pastores o seu nascimento.
No
entanto, Jesus encarnou de um modo perfeito todas as
virtudes dos pastores. Só ele pôde dizer: “Eu sou o bom
pastor” (Jo 10,11).
Os
reis também foram chamados de pastores do seu povo, e os
papas, de pastores da Igreja. O grande rei Davi foi pastor.
E estava cuidando das ovelhas quando o profeta Samuel chegou
a Belém para sagrá-lo rei. Libertou toda a Palestina, uniu
as doze tribos de Israel e deu a paz ao seu povo.
O
menino Benedito foi também pastor, ajudando o pai no cuidado
dos rebanhos do patrão. Conduzir o rebanho para as
pastagens, tirar leite das ovelhas, fazer queijo e requeijão
são trabalhos de um pastor. também procurar alguma ovelha
extraviada e estar sempre vigilante contra cães, lobos e
outros animais selvagens que atacam o rebanho.
O
oficio em si é simples e humilde, mas traz consigo algo de
poético, de místico e alegórico. O pastorzinho Benedito
aprendeu com as ovelhas sua proverbial mansidão e utilidade,
já que elas nos alimentam com sua carne e leite, e nos
vestem e agasalham com sua lã. Aquele que teria, no futuro,
um cargo de condutor na sua Ordem religiosa, como Superior
da Comunidade, preparou-se para isso como pastor.
Quando vemos a Irmandade de São Benedito, todos os irmãos
vestidos de branco, marchando na procissão ou desfilando
garbosamente na cavalaria, vem-nos à fantasia o pastorzinho
Benedito guiando suas ovelhas. Aquele menino seria o pastor
de seus irmãos, servindo-os com simplicidade, alimentando-os
com seu trabalho de cozinheiro, agasalhando as crianças e os
pobres, que não saiam da porta do convento.
Mais. Na paz dos campos Benedito pôde dedicar-se às coisas
de Deus, pela contemplação das suas maravilhas. Ali sua alma
voava para Deus naquela oração que só os santos sabem fazer.
A resposta de Deus era imediata, razão por que Benedito
voltava para casa cheio das consolações de Deus e
robustecido na paciência, para suportar tudo, até os
maus-tratos dos companheiros que, volta e meia, se
implicavam com sua cor.
“Deus prepara no silêncio os seu santos”, escreveu Dom
Francisco de Paula e Silva. Nesse silêncio o Espírito Santo
trabalha as almas dos seus escolhidos para a missão de
profetas, reis e sacerdotes. Benedito seria um pouco de tudo
isso através da sua atuação cristã e religiosa no mundo.
Lavrar e pastorear
Lavrar e pastorear são os dois primeiros trabalhos de que
fala a Bíblia, quando nos apresenta os dois irmãos Caim e
Abel. Caim era lavrador e Abel pastor. Pastorear é, sem
dúvida, mais agradável. Lavrar, plantar, regar é trabalho
pesado e desgastante. Parece até um castigo, pois disse Deus
a Adão depois do pecado: “Comerás o pão com o suor do teu
rosto. Com trabalho penoso tirarás da terra o alimento de
cada dia” (Gn 3,18-19)
Hoje os tratores lavram os campos e as irrigações
artificiais fazem as plantas crescerem. Assim mesmo, não são
todos os lavradores que podem utilizar-se desses recursos.
Os pobres ainda estão na rabiça dos seus arados, cortando o
chão e curtindo o sol. O salmo 125 lembra os semeadores que
vão, entre lágrimas, espalhando as sementes.
Foi assim com São Benedito. O amor ao trabalho e a pobreza
da família fizeram com que, logo que conseguiu suas
primeiras economias, tratasse de comprar uma junta de bois e
se pudesse a lavrar a terra para o plantio. Então, Benedito
foi um dos muitos santos e santas que regaram a terra com o
suor do rosto, para extraírem dela o pão de cada dia.
Com isso ele provou ao mundo que se pode ser santo em
qualquer trabalho e ocupação, contanto que se trabalhe com
paciência, por amor de Deus. Benedito soube viver no seu
dia-a-dia o conselho do apóstolo São Paulo: “Quer comam,
quer bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a
glória de Deus”.
Até os 21 anos Benedito viveu nessa labuta, com as tristezas
e alegrias que se revezam na vida dos agricultores. Estes,
em geral, costumam ser muito religiosos, já que os
resultados dos seus trabalhos dependem muito do tempo. Eles
vivem com os olhos no céu, observando o sol e a chuva. Mas
os olhos da fé vão além das nuvens: vão até Deus que fez o
sol e prepara as chuvas. O salmo 64 agradece a Deus “que
visita a nossa terra com as chuvas, e ela transborda de
fartura”.
Será que os agricultores brasileiros sabem que São Benedito
é também seu protetor? Eis aqui uma pequena oração do
agricultor a São Benedito:
Ó
Deus, Senhor da vinha e da messe, que nos dais o justo
salário, abençoai, pela intercessão de São Benedito, os
nossos trabalhos e esforços. Que nossas atividades, que
alimentam a fome do mundo, contribuam para a vossa glória e
para a fraternidade dos vossos filhos. Por Cristo, nosso
Senhor. Amém.
Bendito quem ouve o chamado do Senhor
Estamos em 1547. Entre o cansaço de quem tem de pegar no
duro eito e as alegrias de quem colhe o que plantou,
Benedito alcança seus 21 anos. Foi nessa idade que ouviu de
Deus um convite para viver uma vida perfeita. Aquele “vem e
segue-me” que Jesus dirigiu a tantos discípulos chegou aos
ouvidos de Benedito pela voz de um santo monge eremita.
Chamado Jerônimo Lanza. Moço rico e de família importante,
tinha tentado ser franciscano da Ordem Primeira, mas chegou
à conclusão que esta não era a sua vocação. Queria uma vida
de muita penitência mesmo. Retirou-se, então, com alguns
companheiros, para um sítio bem sossegado, chamado Santa
Domênica (1),a poucos quilômetros de San Fratello.
Pois bem. Esse Frei Jerônimo passou, certa vez, pelo campo
onde Benedito trabalhava. Um bando de desocupados estava lá,
caçoando dele por ser negro. Jerônimo aproximou-se com toda
a dignidade de um cristão, e sua presença já bastou para que
os agressores se calassem. Observou bem Benedito e logo
sentiu nele aquela marcante presença de Deus. Voltando-se
depois para os caçoadores, agora modificados, disse-lhes:
“Dentro em breve vocês ouvirão maravilhas a respeito deste
negro que agora vocês tratam com tanto desprezo!”.
Mais tarde voltou Lanza à procura de Benedito na palhoça
onde morava e lhe disse:
-
“O que você está esperando, Benedito? Venda seus bois e
venha para a minha comunidade”. Esse convite foi uma ordem
de Deus para Benedito, que despediu-se de seus pais e,
abençoado por eles, ajuntou sua mala e seguiu a voz que o
chamava, a voz de Deus.
Como a despedida de São Francisco do lar paterno, este foi
um dia de alegria e de vitória para Benedito. Achou o que
tanto procurava: a liberdade para servir unicamente a Deus,
por entre trabalhos, jejuns, orações e penitências.
O
ramo franciscano ao qual pertencia a comunidade de Frei
Lanza chamava-se Irmãos Eremitas Franciscanos. Penitência
ali não faltava, tantas e tão severas que nada ficavam a
dever à vida penitente dos eremitas do deserto da Tebaida.
Basta dizer que ali, em Santa Domênica, se jejuava três
vezes por semana! São Francisco, lá do céu, comprazia-se
vendo a Pobreza na cela, no hábito que vestiam e na comida
que comiam: alguma verdura que plantavam e alguma outra
coisa que ganhavam de esmola.
São Francisco fundara uma Ordem mendicante, isto é, que
vivia essencialmente das esmolas que ganhava. Monges pobres
entre os mais pobres.
Nas longas vigílias de oração Benedito podia contemplar o
céu estrelado, como outrora o rei Davi na sua juventude, e
rezar com ele: “Os céus proclamam a glória do Senhor, e o
firmamento, a obra de suas mãos” (Sl 18A).
A
contemplação da grandeza do universo coloca o homem
humildemente ajoelhado perante o Deus infinito que tudo
criou sem ajuda de ninguém.
Uma boa descrição da vida eremítica encontramos nos
celebérrimo livro de espiritualidade, chamado Imitação de
Cristo:
“Oh, quão rigorosa e retirada vida viveram os santos padres
do deserto! Quão rigorosas penitências praticaram! De dia
trabalhavam e passavam as noites em continua oração. Mesmo
trabalhando não interrompiam sua oração mental. Nada queriam
do mundo. Apenas tomavam o necessário para a vida, e lhes
era pesado servir ao copo ainda nas coisas necessárias”. (IC.LI.
Cap. 18)
Até parece que o autor da Imitação de Cristo estivera em
Santa Domênica, observando a vida de São Benedito, para
depois escrever isto...
(1) Santa Domênica é comemorada no Martirológio Romano a 6
de julho. Mártir sacrificada em Nicomédia, na perseguição de
Diocleciano.
Vida religiosa e contemplativa
O
decreto do Concilio Vaticano II, Perfectae Caritatis, lembra
que “desde os tempos primitivos da Igreja, existiram homens
e mulheres que se puseram a seguir a Cristo com maior
liberdade, por meio da vida consagrada a Deus.
Esta vida consagrada consiste em seguir a Cristo que, sendo
virgem e pobre, pela obediência até a morte na cruz, redimiu
e santificou os homens. Assim os religiosos, por inspiração
do Espírito Santo, ou passaram a vida na solidão ou formaram
grupos religiosos para servir à Igreja em muitas frentes de
trabalho” (PC 1).
São Benedito escolheu, a principio, a vida consagrada a Deus
numa família religiosa de vida contemplativa. A esses e
essas que vivem assim, disse o papa Paulo VI: “Uma atração
irresistível vos arrasta para o Senhor. Empolgados por Deus
entregai-vos à sua ação soberana, que vos eleva para Ele e
nele vos transforma, enquanto vos prepara para aquela
contemplação eterna, que constitui a nossa comum vocação”
(Evangélica Testificatio, 8).
Esse privilégio de se viver já aqui na terra, mergulhado na
contemplação de Deus, como fazem os bem-aventurados no céu,
leva esses religiosos a uma ascensão espiritual diária. Mas
isso não beneficia unicamente a eles, pois, como afirmou
Paulo VI, os contemplativos contribuem para a extensão do
Reino de Deus pelo testemunho de suas vidas e por uma
misteriosa fecundidade apostólica (ET 8).
Milhões de outras pessoas bem mais estudadas, mais ricas e
mais poderosas não contribuíram para a glória de Deus e o
crescimento do seu Reino sequer com uma parcela do que
realizou o pobre e humilde São Benedito. Essa é a
“misteriosa fecundidade” a que se refere o Papa, que está
repetindo o que disse o Concílio (PC 7).
Na
experiência dessa vida contemplativa, em Santa Domênica,
viveu Benedito cinco anos antes de ser admitido a professar
seus votos solenes, o que foi feito com licença do papa
Julio III. Agora sim, era um religioso no sentido pleno da
palavra.
Mas, por mais rigorosas que fossem as regras de vida dos
Eremitas de São Francisco, Benedito já dera mostras de viver
ainda mais rigorosamente do que estava prescrito. Uma única
refeição pobre por dia já lhe parecia muito, e o chão duto
para dormir não lhe parecia tanto sacrifício.
Religioso desinstalado
Nada o monge e o eremita apreciam tanto como ficarem
sossegados no seu cantinho. Por força de sua vocação, eles
não têm a mesma mobilidade dos missionários, que hoje estão
aqui, amanhã ali, conforme as urgências pastorais os
reclamam.
Mas os religiosos que vivem em grupo, inclusive os de vida
contemplativa, sabem que seus superiores podem transferi-los
quando julgarem necessário, e o religioso não irá opor
resistência, por isso ele tem voto de obediência.
É
então que o bom religioso medita aquela palavra da Carta aos
Hebreus: “Não temos aqui cidade permanente, mas aguardamos a
eterna” (Hb 13,14), mas por que estamos falando em
desinstalação? Alguém veio desalojar os eremitas de Santa
Domênica?
Sim, mas não vamos culpar ninguém. Ou então vamos culpar a
própria santidade de Benedito. A proximidade entre o
eremitério e o povoado levava muita gente a procurar os
frades, principalmente São Benedito. Iam lá pedir uma
bênção, um conselho, uma oração pelas suas necessidades e
doenças.
Muitos desses visitantes começaram depois a jurar que
alcançaram graças, que receberam milagres por intermédio de
Frei Benedito. Levas e mais levas de gente começaram a
baixar em Santa Domênica.
Pobres frades! Lá se foi o seu sossego. Não atender o povo
parecia-lhes desumano. Se atendiam, não lhes sobrava tempo
para seus deveres religiosos. É verdade que o problema
atingia mais os freis Lanza e Benedito, mas os outros também
se sentiam incomodados. Foi então que tomaram a difícil
resolução: ir embora dali.
Pobres como eram, não tinham muita coisa para levar. Cada um
arrumou sua trouxa e pé na estrada. Lá vão os novos Abraão
para a terra que Deus ainda ia destinar-lhes. No coração
esperanças, sobressaltos e saudades de Santa Domênica.
Continuaram com a devoção a ela. Suas relíquias estavam em
algum lugar da Sicília, mas essa ilustre Mártir não era
dali. Foi martirizada no tempo de Diocleciano e talvez fosse
grega, com o nome de Ciríaca.
Mas para onde caminhava a comunidade de Lanza? – Para o vale
de Nazana, onde Frei Benedito e seus companheiros passariam
oito anos. Para frente viriam Mancusa e San Pellegrino.
O
fato é que Deus permitiu essa desinstalação porque precisava
dos testemunhos de vida e dos bons exemplos daquelas santas
criaturas para converter e salvar outra gente.
A cancerosa de Mancusa
Nada temos da presença de Frei Benedito e seus companheiros
em Nazana – oito anos por lá – senão a certeza que ele
passou fazendo o bem, crescendo em santidade cada dia, dando
frutos pela perseverança. De lá, vieram os santos eremitas
para Mancusa, a noroeste da ilha, perto de Carini, a quinze
quilômetros de Palermo.
Escolheram, para assentar o eremitério, uma região inóspita,
rochosa e cheia de cavernas, que serviam de abrigo aos lobos
e outros animais selvagens que infestavam os arredores. Os
frades estavam avisados do perigam que corriam, mas
pensaram: “É assim que queremos, porque o medo das feras o
povo nos dará sossego”.
Com efeito, o local era evitado pelos habitantes de Mancusa
e outros caminhantes, que o contornavam temerosos. No
entanto, uma especial proteção de São Francisco desceu sobre
seus frades, de tal modo que os animais selvagens não os
molestaram.
Os
lobos de Mancusa conviveram pacificamente com os eremitas,
como outrora o lobo de Gubbio, que São Francisco amansou. Lá
podiam aqueles franciscanos rezar, com bastante realismo, o
versículo do Cântico dos Três Jovens, que diz: “
Feras e rebanhos, bendizei o Senhor!” Urros de feras e
louvores dos monges subiam diariamente ao céu, bem como
ressoavam nas grutas da região...
-
“São santos”, dizia o povo. “Sim, são santos”, acrescentavam
outros, “e por isso podem ajudar-nos”.
-
“Há por lá um tal Frei Benedito que faz milagres”, dizia um
terceiro.
Aos poucos, como aconteceu nos outros eremitérios, o povo
aprendeu o caminho para lá. Perderam o medo dos lobos, que,
aliás, são animais assustados e covardes. Só atacam quando
muito desesperados pela fome. Aproveitando um dia em que
Frei Benedito atravessava o lugarejo, numa casinha
chamaram-no para ver um doente.
-
“Não posso fazer muita coisa por ela, explicou o Santo,
porque não sou sacerdote. Mas posso fazer-lhe uma visita e
rezar por ela”.
-
“Pois venha, Frei, imploraram os parentes, está sofrendo
muito”.
Frei Benedito entrou. Bendita hora! Os anjos no céu
repetiram as palavras do Cristo na casa de Zaqueu: “Hoje
entrou a salvação nesta casa”.
-
“Me acode, Frei, gritava a pobre mulher, roída viva por um
câncer no seio, que se alastrava terrivelmente. Me dá uma
bênção, por amor de Deus!”
Condoído pelas dores daquela pobre enferma e pela aflição
dos seus familiares, Benedito aproximou-se do leito, rezou
com a enferma e demais presentes, animou-a a ter fé em Deus
e depois, a pedido dela, traçou o sinal da cruz sobre a
chaga do seio.
O
milagre aconteceu. Instantaneamente a mulher ficou curada.
Pode-se imaginar o susto e a alegria de todos. Benedito
incentivou-os a darem graças a Deus e a Jesus Cristo, seu
Filho, cujas mãos misericordiosas se fizeram presentes ali.
Logo em seguida o Santo virou nos pés, fugindo de qualquer
agradecimento ou louvor.
A
história desse milagre repercutiu muito. Verdadeiras
romarias começaram a dirigir-se para o eremitério,
exatamente atrás de São Benedito. Todos queriam conhecer
aquele homem extraordinário a quem Deus dera o dom de curas.
Começaram a trazer doentes em macas e carroças, e aqueles
ermos ficaram povoados. Centro de romaria. Exatamente o que
os frades temiam. Acabaram-se o sossego e o silencio de que
a comunidade necessitava para levar avante sua vida
contemplativa.
O
velho problema de Santa Domênica veio, mais uma vez, às mãos
de Frei Lanza. Depois de várias reuniões, resolveram
mudar-se. Para onde? Deus providenciará
.........................................................................................................................................................
Bibliografia essencial:
Pe. Aloísio Teixeira Souza, Vida de S.Benedito
Colaborou Profa. Edith Martinez Adolpho de Azevedo
Consulte nossa
bibliografia geral
Pesquise
sobre a escravidão, os escravos e suas devoções
Leia também
sobre a produção da festa em
Bandeiras brancas
sobre N.S.do Rosário em
O Rosário
sobre S.Benedito em O santo negro
sobre a Igreja de N.S.Rosário em
Feita
por negros
sobre a origem do rei Congo em
Negro reino
sobre a tradição do rei Congo em
Negro rei
sobre os escravos no Brasil em
A grande água,
entrevista com Marina de Mello e Souza
Volte a
O Rosário e o santo negro
Volte a
pARATIANDo
|