O Rosário e o santo negro
A grande água

Para os bantos, etnia de escravos que vieram para o sudeste do Brasil (1) o mundo dos vivos era separado do mundo dos mortos por uma grande água.
 

Quando os portugueses chegaram ao Congo, no século 15, atravessando o oceano Atlântico, a realeza local os recebeu festivamente, como emissários do outro mundo. E, como forma de conhecer esse mundo, adotou a religião dos estrangeiros, cujos elementos associou à sua.
 

Capturados em guerras internas e reduzidos já na origem à condição de escravos, os bantos que vieram para o Brasil viram a crua travessia do Atlântico como uma viagem ao mundo dos mortos.
 

Aqui, sociabilizaram-se a partir de traços culturais comuns, exerceram entre si a opressão e a solidariedade que fazem parte de toda sociedade humana, incorporaram a seus ritos religiosos os dos brancos e se organizaram em irmandades que os atendiam na vida e na morte.  


Em entrevista a pARATIANDo , a historiadora Marina de Mello e Souza(2) dá algumas pistas do que foi a dura passagem dos escravos por este outro mundo, onde enfrentaram sua condição iníqua com o que há de mais rico na condição humana, que é a cultura.
 

pARATIANDo - Os católicos respondiam à escravidão dos negros dentro de valores cristãos. De que forma os negros a viam, a partir de seus valores religiosos?
 

Marina de Mello e Souza  - Existem relatos que dizem que os africanos achavam que seriam devorados pelos homens brancos, que o seu sangue seria bebido na forma de vinho e que seus ossos seriam reduzidos a um pó identificado com a pólvora.
 

A travessia do oceano muitas vezes era entendida como uma viagem ao mundo dos mortos, pois para os povos que viviam na África central, onde hoje se localiza Angola, o mundo dos vivos e o mundo dos mortos e dos espíritos era separado pela água, veículo por meio do qual era possível a comunicação dessas duas dimensões da existência.
 

Dessa forma, a viagem no navio, pela grande água, era entendida como uma viagem ao mundo dos mortos, e seria para lá que os escravos eram levados.
 

pARATIANDo - Os escravos costumavam receber patentes militares e postos de controle social de outros negros. Os escravos reproduziam ante outros negros a opressão dos senhores?
 

Marina de Mello e Souza  - Toda sociedade tem formas de organizar o mando e hierarquias. A atribuição de poder a algumas pessoas, como muitas vezes diversos grupos de escravos faziam, ao escolher um líder ou um mestre religioso, não significa que estivessem reproduzindo formas de opressão do senhor.
 

Por outro lado, muitos libertos, assim que tiveram condições, compraram escravos para si, o que pode parecer uma forma de reproduzir a opressão da sociedade escravista. Mas pode também ser associada a formas de subordinação existentes em sociedades africanas, nas quais prisioneiros de guerra ou pessoas que cumpriam penas podiam ser privadas da sua liberdade, tendo que servir ao seu senhor.
 

Não necessariamente as formas de opressão existentes entre grupos de negros seriam reprodução de formas de domínio aprendidas com o senhor branco, pois a dominação de um grupo sobre outro, entendido como diferente, ou de uma pessoa sobre outra, está presente em todas as sociedades.
 

pARATIANDo - Entre os escravos havia várias etnias misturadas, inclusive inimigas. Essas diferenças continuavam aqui, inclusive com grupos dominantes ou a escravidão igualava a todos?
 

Marina de Mello e Souza  - Ao chegarem no Brasil os africanos, pertencentes a grupos culturais diversos, misturados pelos mecanismos da escravização e do tráfico, construíam novas identidades e solidariedades a partir das circunstâncias específicas nas quais se encontravam e dos pontos em comum que encontravam, a despeito das suas diferenças.
 

Mas não era a escravidão o principal fator de identificação, pois os novos grupos tendiam a se organizar em torno de identidades culturais, ou mesmo devido a similitudes nas atividades com as quais estavam envolvidos.
 

Dessa forma, aqueles que vinham da região de Angola tendiam a casar entre si e formar comunidades próprias, separados daqueles que vinham da região da chamada Costa da Mina, que buscavam se manter próximos daqueles que pertenciam a universos culturais semelhantes aos seus.
 

pARATIANDo - Além de socialização e identidade, as irmandades proviam solidariedade e assistência religiosa diante da morte. Também havia esse tipo de relação na cultura religiosa negra?
 

Marina de Mello e Souza  - Nas culturas africanas a morte deve ser tratada de forma muito cuidadosa e ritualizada, pois é essencial manter uma relação harmoniosa entre os vivos e os mortos.


Não só a passagem de uma esfera a outra deve ser tratada com atenção, como os mortos devem ser reverenciados e alimentados pelos ritos e oferendas dos vivos, garantindo assim a manutenção da tranqüilidade do mundo dos vivos.
 

De alguma forma, as irmandades católicas se tornaram espaços nos quais era possível lidar bem com as coisas relativas à morte, numa sociedade regida pelos padrões dos brancos.
 

pARATIANDo - No Reino do Congo a tradição cultural se manteve, absorvendo o catolicismo. Aqui, as religiões afros fizeram o mesmo. Hoje, isso continua ou a África virou apenas memória?
 

Marina de Mello e Souza  - Uma das características das culturas africanas diz respeito à capacidade que têm de incorporar as novidades introduzidas pelos estrangeiros, combinando-as com as tradições existentes antes do contato com povos diferentes.
 

A incorporação do catolicismo por sociedades africanas se dá dentro desse contexto e até hoje as misturas entre religiões diferentes está presente, havendo uma enorme variedade de igrejas, formadas a partir de contatos de diversas religiões africanas com diversas formas do cristianismo.
 

Mesmo as religiões afro-brasileiras são resultado de misturas entre diversas tradições religiosas africanas, além da incorporação de elementos do catolicismo.
 

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Notas

 

(1) Os escravos que vieram para o Brasil eram, basicamente, de três regiões da África e de várias etnias diferentes. Uma dessas regiões correspondia aos atuais Benin e oeste da Nigéria, terra de fons e iorubás, que vieram para Salvador e o Recôncavo Baiano, onde ficaram conhecidos, respectivamente, como jejês e nagôs. Outra correspondia à atual Angola, terra de congos e ambundos, que vieram para o Rio de Janeiro e o sudeste do País, onde ficaram conhecidos como angolas, entre outras designações. A terceira região, explorada já no século 19, correspondia à costa oriental da África. Os escravos, de várias etnias, eram embarcados em Moçambique e também vieram para o sudeste do País, onde ficaram conhecidos, geralmente, como moçambiques. De uma forma geral, na Bahia houve uma predominância jejê e nagô e, no sudeste do País, uma predominância banto, macrogrupo cultural ao qual pertenciam os povos da região de Angola.
 

(2) Ciências Políticas, PUC, 1981; mestrado em História da Cultura, PUC, 1993; doutorado em História, UFF, 1999; professora-doutora da USP, área de História, ênfase em História da África.  
Autora, entre outros, de Paraty, a cidade e as festas, UFRJ, RJ, 1994 e Reis negros na sociedade escravista, História da festa de coroação do Rei Congo, UFMG, BH, 2002.
 

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