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Salve os Santos Reis
A Folia e os foliões
No Portugal antigo, segundo o folclorista Câmara Cascudo,
folia era uma dança rápida, ao som do pandeiro ou do adufe,
acompanhada de cantos. Na religiosidade popular brasileira,
folia é um grupo de devotos que bate nas casas em busca de
esmolas para seu santo e de prendas ou doações para a festa
em homenagem a ele.
Nessa tarefa, a folia percorre o campo e a cidade entoando
cantorias ao santo, acompanhadas de instrumentos populares
como a viola, o pandeiro e a caixa. Nessa jornada, a folia
leva a bandeira do santo, enfeitada com fitas votivas
coloridas e ex-votos – geralmente fotos 3x4 – pedindo e
agradecendo por graças.
Nas casas, a folia canta no altar do santo, num ritual de
muitas variações e é recebida como sua emissária, com toda a
reverência e comida farta. A folia inicia a jornada bem
cedo, pela manhã e termina no meio da noite, deixando a
bandeira no pouso - lugar onde ela passa a noite,
para ser recolhida na manhã seguinte.
A missão da folia termina com uma grande comemoração, no dia
do santo. Essa comemoração é organizada por um festeiro,
eleito pela igreja ou pela comunidade e incorpora as prendas
entregues à folia; geralmente animais de abate e quitutes
para um leilão.
Folia de Reis
No Brasil, as duas principais festas religiosas anunciadas
por folias são a dos Santos Reis, dia 6 de janeiro e a do
Divino, entre maio e junho.
A Folia de Reis foi trazida ao Brasil pelos jesuítas
portugueses, logo no início da colonização e tem registro
entre nós desde 1534, na catequização de índios e negros e
no controle simbólico da ordem social.
A partir daí, foi se adaptando aos costumes de cada região e
se transformou na viagem ritual mais difundida e mais rica
em crenças próprias do folclore brasileiro.
A jornada da Folia de Reis evoca a peregrinação dos Magos
para saudar o Menino Jesus, seguindo a profecia de Mateus
2,1-2: “Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no
tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a
Jerusalém. Perguntaram eles:”Onde está o rei dos judeus, que
acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos
adorá-lo”.
No calendário católico, a viagem dos Reis é celebrada na
Epifania, período que marca a revelação de Jesus aos homens
e que vai desde 25 de dezembro, quando ele nasceu
oficialmente, até 6 de janeiro, quando os Reis dão ao mundo
o primeiro testemunho desse nascimento. .
Espalhada por todo o Brasil, a Folia de Reis é conhecida
principalmente nos estados do São Paulo, Rio de Janeiro,
Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Paraná.
Tradição e ruptura
Apesar
de terem um único eixo, que é a profecia de Mateus 2, 1-13,
as Folias de Reis se diferenciam no ritual, nos papeis
desempenhados por seus membros, na composição, nos
instrumentos e nas letras e músicas de seu canto.
Isso
porque os códigos de relações, as normas, a estrutura e o
imaginário de cada Folia vão se construindo de forma
autóctone, a partir da região onde ela atua, com sua
economia e seus costumes, da estratificação social que ela
comporta, de seu universo simbólico, de sua leitura da
tradição, do que vivencia na atuação e do cotidiano de seus
integrantes. E as mudanças nesses aspectos,
obrigam a flexibilizações no ritual, para que a tradição não
morra.
Assim, a jornada da Folia de Reis era tradicionalmente feita
a pé, mas distâncias maiores já são percorridas por meios de
transporte. O grupo ficava junto por toda a jornada, do
alvorecer ao meio da noite, mas hoje já há um revezamento
entre seus integrantes, para que eles não faltem ao trabalho
de subsistência. .
Dessa
forma, a Folia de Reis é uma testemunha da tradição, mas a
tradição não apenas se repete, como se altera e se
reconstrói o tempo todo, em consonância com fatores externos
e com os novos significados que adquire a partir deles.
Cristianismo e paganismo
Os grupos de
Folia têm uma unidade ritual autônoma. Não estão submetidos
à Igreja institucional, mesmo porque os Reis são santos
populares, mas não oficiais e o dia 6 de janeiro não é
dedicado a eles, mas ao encerramento das comemorações da
Epifania.
Ao
mesmo tempo, como em toda a tradição popular, o universo
cristão se mistura ao universo pagão e a devoção aos santo
se junta às superstições e às simpatias.
Entre
as superstições,
a bandeira não deve cruzar o próprio caminho, do contrário
morre alguém do grupo. A Folia também não pode voltar pelo
mesmo itinerário (1) e nenhum instrumento pode passar sob
cerca de arame, para não perder o som.
Entre as simpatias, no dia 6 de janeiro – popularmente
dedicado aos Reis - pode-se escrever o nome dos Magos num
papel branco e colocá-lo na porta de casa, para haver
fartura, saúde e felicidade o resto do ano (2).
Pode-se, também, rezar um Padre-Nosso e uma Ave-Maria,
chupar três caroços de romã, embulhá-los um a um e
guardá-los na carteira, para não faltar dinheiro. A cada
caroço embrulhado, deve-se repetir: “São Belchior, São
Gaspar e São Baltazar, não deixe o dinheiro faltar”. Passado
um ano, os caroços têm que ser jogados em água corrente (3).
No
catolicismo oficial, percebemos uma ênfase no Evangelho, nos
sacramentos e na hierarquia da Igreja. O fiel se orienta
pela Bíblia, é reconhecido como tal pelos sacramentos e se
subordina ao sacerdote, socialmente reconhecido como o
detentor do capital religioso e como mediador entre o
universo terreno e o universo sagrado. .
Já no
catolicismo popular, o detentor do capital religioso é o
próprio fiel e a ênfase é na relação direta com o santo do
qual busca a proteção, sem a hierarquia da Igreja, sem a
institucionalização do Evangelho e dos sacramentos e sem a
mediação do sacerdote.
Com
isso, a relação entre essas duas formas de catolicismo
sempre se alternou entre a fusão e a rivalidade Temas como
liturgia, milagres, bênçãos, promessas e santos nem sempre
encontraram a concórdia necessária ao longo de séculos de
cristianismo.. E muitos santos que existiam apenas nos
oratórios domésticos acabaram assumidos pela religião
oficial.
Personagens e elementos
Em Paraty, a Folia de Reis é um grupo de cantadores com
viola, cavaquinho, pandeiro e caixa, que visita as casas
entre 8 de dezembro a 20 de janeiro.
Segundo a tradição, a casa deve estar fechada e com as luzes
apagadas, mesmo que tenha acertado a visita com a Folia. E
os cantadores devem pedir ao dono que a abra, para dizerem
seus versos. Esses versos falam sobre a anunciação do
nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos.
Ao final da visita, a casa oferece doces, salgados e bebidas
aos presentes. Se for a única ou a última a ser visitada, é
costume se dançar a ciranda de Paraty. Ao contrário da
Folia do Divino, que se apresenta a qualquer hora, a Folia
de Reis só se apresenta à noite, até o raiar do dia.
É comum, porém, a Folia de Reis ter uma riqueza maior em
personagens e elementos, como no caso abaixo, da Companhia
dos Santos Reis, de Sorocaba, SP; recolhidos pelo
folclorista local Carlos Carvalho Cavalheiro. . .
Várias dessas características são encontradas em outras
folias de Reis, mas cada uma tem sua identidade própria, de
acordo com a composição e o lugar onde atua.
Personagens
Embaixador
Ou Mestre, Capitão, Gerente, Chefe, é quem lidera o grupo e
puxa as cantorias.
Contra-Mestre
É a segunda voz, acompanhando a do embaixador.
Bandeireira
É quem carrega a bandeira, a guia da Companhia.
Apontador de Prendas
É aquele que anota num caderno as ofertas recebidas
Palhaços
Ou
pastorinhos, alferes, mateus, marengos, morongos,, malungos,
bastiões, são mascarados, vestidos com roupas coloridas e
uma espada de madeira. É comum a Folia ter mais de um.
A tradição mais comum sobre os palhaços é a de que eram
espias de Herodes, que seguiram os Magos para encontrar e
matar o Menino Jesus (4).
Mas, quando o encontraram, acabaram se convertendo ao
cristianismo e, com receio de serem mortos por Herodes,
passaram a viajar à frente dos Reis, mascarados e fazendo
micagens para não serem descobertos.
Segundo outra tradição, por serem soldados de Herodes ou do
próprio Demônio, os palhaços representam o Mal e, por isso,
não podem tocar a bandeira da Folia nem ficar à sua frente,
no cortejo. Em outros casos, os palhaços não podem se
aproximar do presépio e só entram na casa sem máscara e após
os cantos finais.
Outras Folias admitem essa relação dos palhaços com o Mal,
mas, por seu papel fundamental no grupo, eles não sofrem
essas restrições. Pelo contrário, é a eles que cabe a
louvação do presépio, na forma de profecias decoradas
e recitadas (v.adiante).
Há ainda registros de que os palhaços defendem a bandeira
com suas espadas e as cruzam com as de outros palhaços,
quando uma Folia encontra outra.
De todo modo, é o palhaço que anuncia a chegada da bandeira
nas casas, pergunta se o dono da casa aceita a visita;
recebe as ofertas, muitas vezes escondidas e quebra os
atrapalhos.
Atrapalhos
são gestos ou cerimoniais feitos por quem conhece a
tradição, com o intuito de testar os conhecimentos da Folia
ou mesmo de segura-la por mais tempo.
Um exemplo de atrapalho é o Cruzeiro de Flores ou de
Rosas, na entrada da casa. A Folia não pode entrar sem que o
Bastião pronuncie alguns versos secretos para quebrar
o encanto; na verdade uma profecia, desfazendo
cada braço da cruz com a ponta de sua espada. Se o palhaço
não souber os versos, a tarefa cabe ao Embaixador.
Muitos
também pedem aos palhaços que façam o corta-jaca,
espécie de dança e luta com espadas, restrita a eles, que
serve como pagamento pela oferta recebida.
É comum, ainda, principalmente na zona rural, fazer o
palhaço sofrer, antes de obter a oferta. Pode-se
esconder a prenda, para que ele a procure.
Às vezes é o dono da casa quem se esconde e o surpreende,
simulando com ele uma luta corporal. Se o palhaço se sair
bem dessa luta, recebe a prenda. Em outros lugares, solta-se
um porco ensebado para o palhaço pegar.
É de
responsabilidade do palhaço não permitir que lhe roubem a
máscara ou a espada, afim de que a bandeira não fique
presa. Para desprender a bandeira, o palhaço deve dizer
umas palavras secretas.
Foliões
São
o restante da Folia, dividido por vozes e instrumentos
musicais
As Folias de Reis admitem a presença de mulheres. Em algumas
regiões, também trazem os Reis Magos como personagens. É
bastante comum a participação no grupo ser uma tradição
familiar.
Elementos
Bandeira
É
corrente a tradição de que os Santos Reis receberam da
Virgem Maria um manto dobrado, em agradecimento pela visita
ao Menino Jesus. No retorno ao Oriente, abriram esse manto e
nele estava bordada a cena da Visitação.
Então, fizeram desse manto uma bandeira e formaram a
primeira Folia de Reis, com a missão de anunciar ao mundo o
nascimento de Jesus. Diz a tradição que a Bandeira deve ser
guardada, depois da jornada, mas sempre enfeitada, para não
perder o encanto.
A bandeira da Folia é de pano, comumente verde, com as
imagens dos três Reis, de Nossa Senhora, de São José e
enfeitada com flores de papel crepom, fitas coloridas e
ex-votos.
É costume da população amarrar fitas na bandeira, como sinal
de devoção. As fitas coloridas que enfeitam a Bandeira devem
ser costuradas; nunca presas com alfinetes ou fixadas com nó
cego, para não amarrar a Folia, ou seja, não
atrapalhar a jornada. Isso é cuidadosamente vistoriado pela
bandeireira, a cada visitação.
Os
ex-votos, fotos e objetos anunciando graças recebidas,
acompanham a bandeira em toda a sua jornada e, ao final, são
jogados em água corrente ou levados a Aparecida do Norte.
Não se pode jogá-los em água parada, queimá-los nem
guardá-los na casa dos foliões.
Instrumentos
Os instrumentos utilizados pelos foliões são: 2 caixas, 1
viola, 3 violões e 1 pandeiro. Os instrumentos de corda são
afinados em sol maior.
A viola e violões são enfeitados com fitas coloridas. Cada
fita pode ter um simbolismo. Geralmente as cores que se
utilizam são: amarela, cor-de-rosa; azul, representando a
Virgem Maria; rosa, significando os doze Apóstolos ou
branca, simbolizando o Divino Espírito Santo.
Música
A música da Folia são as toadas, que podem ser
completas, com 25 versos, falando do nascimento, vida e
paixão de Cristo ou simples, de dez versos, com a
louvação e pedido de ofertas.
Os
versos das toadas são improvisados de acordo com o que o
embaixador percebe na casa, seja a imagem de um santo ou as
reações de emoção ou alegria das pessoas. Mas é sempre
enaltecido o lado religioso da jornada da Folia.
As
toadas têm sempre a mesma melodia, com pouco menos de uma
dezena de variações do repertório.
O
contra-mestre faz uma segunda voz, repetindo ou trauteando
os versos do embaixador. Depois, a Folia repete os mesmos
versos, geralmente dobrados.
Assim,
numa estrofe de quatro versos, o último repete o penúltimo e
ambos rimam com os dois últimos da estrofe seguinte. Mas,
sempre lembrando que cada Folia tem sua peculiaridade, isso
não é regra geral.
A
forma de cantar as toadas depende da procedência. A toada
paulista é mais simples, a quatro vozes, com o
embaixador,o contramestre e mais duas em coro.
As
toadas mineira e baiana já exigem pelo menos oito vozes e
têm como característica um grito prolongando o final do
verso cantado em resposta. Esse grito pode ser dado por um
contralto ou em falsete por um homem.
Letra
Por
outro lado, há um complexo conjunto de tradições, rituais e
místicas que se inserem no universo das Folias de Reis,
reminiscências de culturas cristãs primitivas, pagãs e até
mesmo de rituais ameríndios aculturados, mantidos consciente
ou inconscientemente pelos foliões.
Muitas
dessas tradições são reforçadas pelas histórias orais e
interpretações populares de textos bíblicos.
Os foliões chamam esse universo de profecias. Com
esse nome, designam passagens da Bíblia ou textos que se
referem a ela.
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Notas:
(1) A
tradição remonta a Mateus, 2, 12, quando os Magos, avisados
em sonhos que não deveriam reencontrar Herodes, voltaram à
sua terra por outro caminho. V.Mateus, 2 em
Textos Bíblicos.
(2) Em alguns países da Europa, também é costume colocar as
iniciais dos magos acima da porta, para trazer bênçãos
durante o ano. V.Feliz
Dia de Reis
(3) A água corrente, como veículo de purificação, faz parte
de tradições cristãs e pagãs. No Novo Testamento, Jesus foi
batizado no rio Jordão. No candomblé e na umbanda, materiais
de trabalho são dispensados em água corrente, depois do uso.
(4) Em
Mateus, Herodes pede que os Magos digam onde está Jesus,
para que ele também vá adorá-lo, quando, na verdade, quer
matá-lo. V.Mateus, 2 em
Textos Bíblicos.
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Fontes
Ivone
Aparecida Pereira, Em nome dos Santos Reis, uma história de
protagonismo e mediações em Santo Antonio de Goiás, v.
Pesquise
Carlos Carvalho Cavalheiro, Nos passos da Folia de Reis, v.
Pesquise
Gilberto Galvão,
Cada pedra
no caminho aumentava a devoção, nesta edição.
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sobre
a tradição de Reis em
Feliz
Dia de Reis
sobre quem eram os Reis em
Os Reis que eram magos
sobre
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sobre
a jornada da Folia de Reis em
Cada pedra no caminho aumentava a devoção
Veja
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Bíblicos
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de onde vieram os Reis em
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