O Rosário e o santo negro
Feita por negros

A Igreja de N.S.do Rosário e S.Benedito, foi erguida em 1725 pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Essa irmandade era de negros, na construção foi usada mão-de-obra escrava e freqüência dessa igreja era de negros.

A fachada é no chamado estilo chão, arquitetura que os jesuítas trouxeram de Portugal já no século 16 e que caracteriza a maioria das igrejas brasileiras até o surgimento do barroco, no século 18.     

A característica principal do estilo chão é o desenho básico, despojado, em torno de figuras elementares como o triângulo e o quadrado e, por isso, extremamente econômico, prático e maleável, que mais tarde foi capaz de receber adornos barrocos sem maiores conflitos.

Por causa disso, o estilo chão também foi adotado por igrejas não-jesuíticas; de outras ordens religiosas, como os beneditinos e de irmandades leigas como a de N.S.do Rosário de Paraty. E continuou em voga mesmo depois da expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759,  no auge do ciclo do ouro e do barroco no Brasil.

A austeridade da Igreja de N.S. do Rosário e S.Benedito, em Paraty, na porta, com o batente cru de arenito. O paravento evitava que se apagassem as velas da iluminação interna e sua cor original, o amarelo, aguarda a próxima restauração. Os vidros são originais, feitos a sopro no século 18. À direita da entrada, há uma pia de água benta cavada em pedra no século 18. 

A planta da igreja também expressa a visão prática dos jesuítas, que se dedicavam à pregação em massa para difundir o catolicismo; no movimento que ficou conhecido como Contra-Reforma, contra a expansão do protestantismo.  

Para isso, os jesuítas construíram igrejas de nave única, separada da capela-mór por um arco-cruzeiro e no chamado estilo salão, com todo o espaço aberto para os fiéis.  E não colocaram o púlpito à frente da nave, perto da capela-mor, mas no meio da parede lateral, para que todos ouvissem o sermão bem de perto. 

O púlpito da Igreja de N.S.do Rosário e S.Benedito, em Paraty, foi esculpido no próprio local, em pedra-sabão, no século 18. A balaustrada é em madeira pintada e folheada a ouro. A porta de acesso tem o  batente em arenito. .

O arco-cruzeiro é em pedra pintada de salmão, com uma faixa azul-hortênsia. O lampadário junto a ele foi lavrado em prata, no século 18.  O assoalho da igreja foi modificado há 40 anos e embaixo dele ainda estão de 400 a 600 ossadas de negros sepultados. O sepultamento à entrada da nave custava 800 réis e, perto do altar, 5 mil réis, por ficar mais próximo de Deus.

As irmandades religiosas não apenas congregavam os fiéis em torno do santo de devoção, mas davam a eles uma identidade social, criavam uma rede de solidariedade e os assistiam depois da morte, enterrando-os em solo sagrado.

Isso tudo foi muito importante para os escravos africanos, arrancados de suas regiões de origem, separados de suas famílias e  duramente submetidos ao branco, numa terra estranha e de costumes diferentes.   

A devoção a N.S.do Rosário e S.Benedito não apenas trouxe conforto espiritual para esses negros, que vieram para cá cristianizados, como foi uma forma de controle social de um grande contingente de escravos que, muitas vezes, rivalizava com o de brancos, nas vilas e cidades coloniais, cuja economia era largamente dependente da mão-de-obra cativa. 

Os bancos da igreja são recentes e há alguns laterais do final do século 19 para o início do 20.As arandelas das paredes são réplicas das originais. Do alto da nave pende um lustre de cristal do século 18, preso ao forro por um ornato em forma de abacaxi. 

Desconhecido tanto por africanos como por portugueses, quando chegaram ao Brasil, o abacaxi se tornou, para eles, símbolo de boas-vindas, de fartura e de riqueza, por ser uma fruta nova; capaz de alimentar várias pessoas e dotada de uma coroa.

A talha dos retábulos laterais é considerada, pelos especialistas, a mais elegante das igrejas de Paraty. O retábulo lateral esquerdo, dedicado a S. Benedito, tem imagens externas do Menino Jesus de Praga, à esquerda e de Sant’Ana, à direita. O retábulo lateral direito, dedicado a S. João Batista, tem imagens externas do Sagrado Coração, à esquerda e de N.S.da Conceição, à direita (1).

O retábulo-mór, dedicado a N.S.do Rosário, tem imagens externas de Santo Antônio, à esquerda e São Francisco, à direita.

Os retábulos laterais foram supostamente executados à época da construção da igreja, por volta de 1725, no auge do barroco. Mas suas características os levam mais para o rococó, que surgiu por volta de 1760, época aproximada da execução do retábulo-mór, que consta como feito em 1750 e refeito em 1757.(2).     

As imagens dos santos de dedicação são em madeira policromada do século 18. As imagens externas são em gesso.  Os castiçais dos altares, em madeira policromada, são do século 18, bem como o crucifixo e os castiçais de prata da capela-mór.

Todos os altares receberam douramento no século 19, com folhas de ouro 14 quilates. O de S.Benedito foi dourado por um líder político da época, Manuel Francisco de Souza, em pagamento de uma promessa. Os de S.João Batista e de N.S.do Rosário receberam douramento com recursos doados à irmandade de N.S.do Rosário.

Na sacristia, o lavatório de pedra, assim como baú, os gaveteiros e a pia batismal de madeira – que veio da capela de Paraty-Mirim – são do século 18.

........................................................................................................................................................

Notas

(1) Nas capelas da igreja, é comum se confundir retábulo com altar. Altar é a mesa onde se oficia a missa, evocando a da Santa Ceia. Retábulo é a peça trabalhada acima do altar, onde ficam os nichos do santo principal e dos santos secundários.
 

(2) Na maioria das igrejas brasileiras importantes, o que se tem é a data do início ou do término da construção, mas não o tempo de duração da obra, que costumava ser muito grande, pela falta de recursos e, muitas vezes, de mão-de-obra especializada. Por isso. é muito difícil catalogar com precisão os estilos de sua arquitetura e de seus retábulos, porque, ao longo desse tempo, esses estilos não só evoluíam, como se misturavam aos subseqüentes, seja por seguirem riscos mais recentes ou atenderem a modas da época. 

.........................................................................................................................................................

 

Fontes::
Pe. Aloísio Teixeira Souza, Vida de S.Benedito
Colaborou Profa. Edith Martinez Adolpho de Azevedo
Consulte nossa bibliografia geral

Pesquise sobre a escravidão, os escravos e suas devoções

Leia também

sobre a produção da festa de N.S.do Rosário e S.Benedito em Bandeiras brancas

sobre N.S.do Rosário em O Rosário

sobre S.Benedito em O santo negro

histórias de S.Benedito em Histórias do santo negro

sobre a origem do rei Congo em Negro reino

sobre a tradição do rei Congo em Negro rei

sobre os escravos no Brasil em A grande água, entrevista com Marina de Mello e Souza

Volte a O Rosário e o santo negro
Volte a pARATIANDo