Entressafra
Zezito Freire
 
 
Na década dos anos trinta, mesmo já tendo desaparecido a grande maioria dos engenhos da época colonial, ainda havia um número bem maior do que hoje, e a aguardente era o produto que mais concorria para sustentar a decadente economia paratiense.
 
A produção, que começava, geralmente, no mês de maio, ia até o mês de novembro, aproveitando o período em que a cana dava o melhor rendimento.
 
O período da entressafra, que ia de dezembro até abril, era aproveitado para os reparos dos equipamentos do engenho, de produção e de estocagem. Entravam em cena os serviços dos tanoeiros, dos frisadores das moendas, da limpeza da roda d’água, da recuperação dos alambiques, que se desgastavam durante a safra, este pela ação constante do fogo.
 
Meu pai, Carlos Freire, que entre outras habilidades, sabia trabalhar com o cobre, material do que eram feitos os alambiques, aproveitava os domingos para atender aqueles que usavam dos seus serviços, e ele fazia na necessidade de complementar o magro salário de funcionário público federal.
 
Acompanhei-o várias vezes nessas incursões dominicais, em especial ao Engenho da Serraria, do senhor João Olímpio. A viagem era feita em duas etapas: de canoa até o Jurumirim e daí em diante, por uns trinta minutos, não mais, a pé. Era a maneira de evitar-se o contorno pela Ponta Grossa para entrar na Baía do Paraty-Mirim, um trajeto mais longo, mais demorado.
 
Lá, enquanto meu pai entrava no bojudo alambique para os rebites ou os remendos necessários, eu me distraía no laranjal que havia em frente ao engenho, fartando-me das laranjas mexericas de casca solta, ou tentando acertar num pássaro com o estilingue que levava.
 
Se nunca acertei num pássaro, apesar da quantidade que havia, várias vezes acertei do dedão da mão esquerda, a que segurava o gancho. O regresso já era ao cair da noite e se o serviço não ficasse pronto, o resto ficaria para o domingo seguinte.
 
Também ao Engenho do Rio dos Meros, do Sr. Crispim, acompanhei meu pai uma vez. Era uma viagem difícil, em lombo de burro, animal mais afeito ao precário caminho.
 
Depois de subir o Morro da Boa Vista, na várzea do lado oposto fazia-se uma grande volta, passando pelo sítio do Barnabé Ramos, evitando-se a passagem pela Várzea da Maria Caetana, cuja travessia só era aconselhável na companhia de quem conhecesse bem as perigosas trilhas que havia no grande charco.
 
Outros engenhos meu pai visitava: da Fazenda N. S. da Conceição, arrendada ao Capitão Leite de Castro; do Saint-Clair Bustamante, na Pedra Branca; e outros, vários, que fugiram da memória.
Além de meu pai, outros habilidosos faziam o mesmo serviço, como o Juca do Ozéas, o Chichico de Baixo, o Godoy, pois existiam os engenhos da Graúna, do Corisco, do Engenho D’água, do Fundão, da Itatinga, do Carretão, que também necessitavam daqueles que sabiam trabalhar o cobre, para os reparos dos alambiques.
 
Havia engenhos em que os próprios tanoeiros, encarregados da manutenção dos tonéis, dornas e barris, também reparavam os alambiques, como fazia o Ormindo Brasil, que de engenho entendia de tudo.
 
A proporção que os engenhos foram sendo desativados, a profissão foi desaparecendo. Hoje, já com outros recursos, os proprietários cuidam do que há no engenho, mandando fazer fora os serviços mais difíceis.
 
Não foram apenas os habilidosos no trabalho com o cobre que perderam seus serviços. Também os tanoeiros, que em Paraty havia dos mais conceituados. A própria aguardente, afamada pela produção artesanal, já pouco representa na economia da terra


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