Os engenhos de Paraty
Zezito Freire
 
 
Quantos engenhos de aguardente existiram em Paraty? José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, em suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro, editadas pela Imprensa Régia em 1820, informa da existência de 12 engenhos de açúcar e 100 fábricas, ou mais, de aguardente, denominadas engenhocas.
 
Haverá outros documentos mais precisos? Não sei. O certo é que a informação coincide com o que foi passado pela tradição oral, sempre falando em 120 engenhos de aguardente e 12 de açúcar.
 
E por que eles foram desaparecendo? A alegação da abertura do Caminho Novo, que desviou para outra rota o ouro que aqui era embarcado para Portugal, por si só não justifica, pois o fato afetou o comércio que dependia da passagem do ouro. A produção de aguardente era uma atividade independente do transporte do ouro.
 
A abolição dos escravos afetou grande parte deles. Como a aguardente não era produto de exportação, o governo não teve a preocupação de dar apoio a industrialização da cana, e os proprietários de engenhos, engenhocas na maioria, moendo a cana de plantação própria nas encostas de morros, em seus pequenos sítios, só conseguiram uma pequena sobrevida colocando os filhos no eito, homens e mulheres, tirando, enquanto puderam, o resultado do trabalho familiar.
 
Os chamados grandes engenhos, não eram poderosos o bastante para suportar a substituição do trabalho escravo sem pagar pesado tributo.
 
Resistiram usando o trabalho de famílias que se agregavam às suas terras, e a troco de terem um pedaço de terreno para as suas plantações de subsistência, a chamada lavoura branca, obrigavam-se a trabalhar na plantação da cana por salário módico.
 
Outro fator a ser considerado foi o esgotamento do solo. A cana era plantada nas encostas dos morros, porque as plantadas nas várzeas sempre encharcadas, cresciam muito, davam boa quantidade de caldo, mas com pouca sacarose.
 
O trabalho de colher, transportar e moer tornava-se bem maior, e o rendimento em aguardente era menor. Sem os conhecimentos de adubação, plantando canaviais sucessivamente nos mesmos lugares, o empobrecimento da terra começou a dar cana raquítica, com resultado direto na produção.
Fosse por esta ou por aquela razão, os engenhos desapareceram, pois os que hoje existem, uma meia dúzia, se tanto, nem nos locais dos antigos estão situados.
 
Bem, a pergunta de quantos engenhos existiram ficou sem resposta. Dias atrás, Francisco Gama Gonçalves,
 
Tico como é conhecido, meu contemporâneo, nascido em criado dentro de engenho de aguardente, lidando com a pinga até bem pouco tempo, garantiu-me que tinha na memória a localização e o nome da maioria dos proprietários, de perto de 100 engenhos, movidos à roda d’água, à caldeira, ou de manjarra, como eram chamadas as engenhocas movidas a burro.
 
E sem dificuldade foi dizendo um a um, chegando a 95. Se alguma falha houver, temos que dar ao Tico o direito de lapsos de memória e mesmo de pequenos enganos, pois o que sabe foi colhido em conversas dos mais antigos, à beira de engenhos e alambiques, ainda quando ele era menino.


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