Na linha do tempo
Caminho de riquezas



Os índios sempre se utilizaram de trilhas, em seus deslocamentos. Trilhas pedestres, que subiam e desciam montanhas, ligando praias do litoral, trilhas que avançavam mata adentro, levando a rios e vales, a outras aldeias, a pontos de caça e coleta.

Uma dessas trilhas, que subia a serra da Bocaina, era utilizada pelos índios guaianás, antigos habitantes da região de Paraty, para chegar ao planalto. Ficou conhecida como trilha do Facão, nome do arraial onde desembocava, hoje a cidade de Cunha. Atualmente, a trilha do Facão é conhecida, em Paraty, como Caminho do Ouro.

Em 1572, o Rio de Janeiro recém-retomado dos invasores franceses se tornou sede do Governo Geral do Leste e do Sul (1) e uma de suas iniciativas foi abrir, por essa trilha, uma ligação com as vilas paulistas que se tornou uma próspera rota comercial chamada Caminho Marítimo-Terrestre (2).

Por essa rota, as mercadorias iam do Rio e Janeiro a Paraty por mar, subiam a trilha do Facão, passavam por Cunha e Guaratinguetá rumo a São Paulo, seguiam para as vilas paulistas do planalto e desciam a serra do Cubatão para São Vicente e outras vilas litorâneas. E, junto com as mercadorias, seguiram idéias e comportamentos de várias épocas.

O Caminho Marítimo-Terrestre se tornaria fundamental, não só para o abastecimento dessas localidades, como, ao longo do século seguinte, das expedições que partiam de São Paulo em busca de riquezas e das povoações que elas deixavam em seu rastro.

E isso pode ter estimulado os colonos da vila de São Vicente, fundadores de São Paulo e dessas povoações, a se estabelecerem na baía de Paraty, de onde saía a trilha do Facão, formando um povoado no atual morro do Forte.

Em 1660, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, ordenou melhorias na trilha do Facão, então uma estreita picada na mata, transformando o antigo caminho guiaianá numa via de riquezas. Nesse mesmo ano, o povoado vicentino, que já havia se transferido do morro do Forte para a boca da baía, se auto-nomeou vila de N.S.dos Remédios de Paraty.

Até o final do século 17, várias expedições em busca de riquezas passaram pela vila em direção ao planalto. Uma dessas expedições foi a de Martim Correia de Sá, que desembarcou na baía, em 1596. com 2.700 homens e o sonho de Sabarabuçu, fabulosa serra no meio da mata, com uma lagoa dourada no sopé e um clarão de esmeraldas no topo.

Várias outras expedições perseguiram o sonho de Sabarabuçu e a mais famosa delas foi a do bandeirante Fernão Dias Paes, que passou para a História como o Caçador de Esmeraldas. E, a partir dessas incursões, nasceu o Caminho do Sertão, que ligava São Paulo a Guaratinguetá e se embrenhava nas matas a nordeste da Capitania.

Foi por esse caminho que, em 1698, a expedição de Antonio Dias encontrou ouro no sertão de Cataguases, em Minas Gerais. E, graças à trilha do Facão, Paraty ganhou posição estratégica no fluxo dessa riqueza, como o caminho mais prático entre Minas e Rio de Janeiro, de onde ela seguia para Lisboa.

Paraty foi oficialmente nomeada como Porto do Ouro e nela foi aberta uma Casa de Registro, para cobrar o imposto sobre o metal transportado. Movimentado porto comercial e escala para as minas, a vila se tornou passagem de milhares de viajantes.

Mas, desde a descoberta do ouro, a Coroa pensava numa mudança de rota, que permitisse um controle maior sobre o fluxo do ouro e um transporte mais seguro para o Rio de Janeiro, evitando um mar infestado de piratas e corsários.

Por isso, logo em 1698, os portugueses começaram a abrir uma ligação por terra entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, que ficaria conhecida como Caminho Novo, em contraposição ao Caminho Velho, como passou a ser chamado o Caminho Marítimo-Terrestre. E, após idas e vindas, o Caminho Velho foi definitivamente fechado para o ouro em 1733.

Mesmo assim, o caminho da serra continuou desempenhando um papel essencial em Paraty, levando mercadorias, escravos e viajantes para as minas e escoando a produção de alimentos das vilas mais próximas do vale do Paraíba, para onde seguiam itens como sal, azeite e vinho.

Em 1763, mais um fato concorreria para a prosperidade da vila: a Colônia transferiu a capital de Salvador para o Rio de Janeiro, deslocando as principais rotas de comércio do nordeste para o sudeste e espalhando a cultura da cana por essa região.

A vila se tornou rapidamente grande produtora de cana e o maior fabricante de cachaça da Capitania do Rio de Janeiro, produto que seria ativamente exportado para as minas e também para a África, onde era trocado por escravos.

E a produção de aguardente se somou ao intenso tráfego comercial pela trilha do Facão. O cronista Pizarro e Araújo, que esteve em Paraty entre 1794 a 1799, registrou que os negociantes de São Paulo conduziam pelo caminho da serra, em comboios de animais, o resultado de suas lavouras e outros gêneros, como fumos, carne de porco e toucinhos.

Os quais, continua ele, quando atendiam ao mercado da vila e de suas vizinhanças, carregavam mais de doze embarcações rumo ao Rio de Janeiro e a portos mais distantes, do norte e do sul, levando junto o café, arroz, milho, feijão, aguardente e outros artigos de troca.

No segundo quartel do século 19, notadamente a partir de 1830, outra riqueza marcaria a economia da vila: o café, que rapidamente se tornou o maior produto de exportação do Brasil. E, nessa época, a única forma de enviar ao Rio de Janeiro a produção cafeeira do vale do Paraíba era transportá-la por tropas de muares até os portos mais próximos, entre eles Paraty.

Com isso, o Caminho Velho foi reativado o tráfego pela serra e se intensificou ainda mais Em 1838, a Regência Trina determinou vários consertos na trilha do Facão, que passou a ter “30 braças empedradas com a largura de 20 palmos e todo o trajeto devidamente reparado”. É a primeira menção a um calçamento contínuo e padronizado nesse caminho (3).

No terceiro quartel do século 19, porém, essa situação foi mudando rápida e drasticamente. A repressão ao tráfico de escravos, proibido desde 1831, foi abalando profundamente as outras fontes de ingresso da vila, que eram a produção de aguardente com mão-de-obra cativa e o ativo contrabando de negros para as fazendas de café..

Em 1864, a ferrovia chegou a Barra do Piraí, no vale do Paraíba e o café passou a ser escoado por trem, deixando aos poucos o caminho da serra. Em 1877, o trem chegou a Guaratinguetá, dando o golpe final no transporte por tropas e na velha trilha do Facão.

A população passou a abandonar Paraty, em busca de futuro, inclusive à beira da ferrovia. A população da cidade, que era de 10 mil habitantes por volta de 1830, baixou para 4 mil almas, no final do século 19.

Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão e levou a economia de Paraty ao colapso final, por falta de mão-de-obra. A trilha do Facão foi definitivamente abandonada à voragem da mata.

Praticamente isolada, a não ser por uma precária ligação marítima com o Rio de Janeiro, Paraty viveu quase 50 anos de isolamento até 1925, quando a estrada Paraty-Cunha a ligou novamente ao vale do Paraíba. Destruída por veículos militares na Revolução de 30, essa via foi reaberta em 1954, por paulistas interessados na cidade como destino turístico.

Mas a Paraty-Cunha continuou uma estrada precária, de rodagem difícil e Paraty continuou praticamente inacessível até 1976, quando a inauguração da rodovia Rio-Santos a despertou para sua nova vocação, que é o turismo cultural.

Em 2002, um estudo de arqueologia na trilha do Facão revelou histórias que ela escondia.


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Notas


(1) De 1572 a 1577 e de 1608 a 1612, houve duas tentativas de dividir o território brasileiro em duas regiões; a região norte, com sede em Salvador e a região sul, com sede no Rio de Janeiro. A primeira dessas tentativas se deu depois dos três primeiros governos gerais, os de Tomé de Sousa (1549-1553). de Duarte da Costa (1553-1557) e de Mem de Sá (1558-1572), entre outras razões porque a invasão francesa, entre 1555 e 1567, mostrou que o território era grande demais para apenas um núcleo administrativo

(2) Muito provavelmente, o Caminho Marítimo-Terrestre foi aberto por volta de 1572, com a instalação do Governo do Leste e do Sul. Antes disso, o Rio de Janeiro estava tomado pelos franceses e, antes dos franceses, era um território abandonado da Capitania de São Vicente.
Portanto, logo ao retomar esse território, seria do interesse da Coroa tirá-lo do isolamento e desenvolvê-lo, dentro do lema povoar para defender, da colonização portuguesa. E o melhor caminho para isso seria ligá-lo, pelo comércio, às vilas paulistas do planalto e do litoral.

(3) No século 18, o ouro de Minas Gerais passou pela trilha do Facão, mas não transportado por muares. A primeira menção a bestas de carga na trilha do Facão é de 1726, quando o governador Luiz Vahia Monteiro manda cobrar pedágio de homens e bestas de carga.
Antes disso, o caminho da serra não passava de uma picada intransitável para animais, as viagens eram feitas a pé e eram escravos que carregavam os fardos e os senhores, quando era necessário. Não por menos, em 1701 o português Luís da Silva, enviado para trabalhar na Casa de Registro de Taubaté, não conseguiu subir pela trilha um engenho de fundição, porque o precário caminho não permitia animais de carga. Igualmente revelador é o relato que D.Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar, fez de sua viagem do Rio de Janeiro e Minas Gerais, em 1717, onde menciona um morador de Paraty, o Capitão Lourenço de Carvalho, como proprietário de “trezentos negros que lhe adquirem grande cabedal” com a condução de cargas serra-acima.
Por outro lado, segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, cavalgaduras e muares só surgiram nos caminhos da Colônia em meados do século 18. Essa afirmação bate perfeitamente com o cuidadoso levantamento feito pela arqueóloga Maria Luiza de Luna Dias no Projeto de Revitalização do Caminho do Ouro em Paraty – Na Trilha da História. Nesse estudo, descobriu-se que o calçamento mais antigo da trilha é de meados do século 18 e tem as pedras arredondadas pela pisadura de muares. Mas, a essa altura, o ouro não passava mais por Paraty, pois o Caminho Velho foi definitivamente fechado para ele em 1733. Assim, o calçamento mais antigo descoberto pela arqueóloga não teria sido feito para o ouro, mas, provavelmente, em função do intenso transporte de mercadorias para as minas e de alimentos do vale do Paraíba para o porto da vila, a essa altura já feito por tropas de mulas. Ainda segundo a arqueóloga, o calçamento mais recente do sítio pesquisado é de meados do século 19 e parece coincidir com as reformas feitas em 1838, a mando da Regência Trina. É um calçamento elaborado, em diferentes padrões, com pedras quadradas obtidas de explosões sob controle, com todos os indícios de uma obra profissional, projetada não só para resistir às enxurradas, mas, aí, sim, para suportar o peso colossal de intermináveis tropas de muares carregando safras inteiras de café

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Fontes:
Ribas, Marcos Caetano, A História do Caminho do Ouro em Paraty, Contest, Paraty-RJ, 2003
Gold Route in Paraty and its landscape, Pro-Paraty WHeritage Permanent Comission, 2003
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