|

O Rosário e o santo negro
Bandeiras brancas
Neste ano de 2009, a Festa de N.S.do Rosário e S.Benedito
vai ficar sob o comando da professora Edith Martinez Adolpho
de Azevedo, do Cembra. Seu marido e grande estimulador desse
trabalho, o fotógrafo, perito criminal e professor Edayr
Adolpho de Azevedo, faleceu repentinamente no início da
produção do evento.
Mas Edayr e Edith, juntos, trouxeram uma inovação a esta
festa: entregaram a realização da festa aos jovens, sob sua
supervisão, para que eles dediquem a ela toda a energia de
sua fé.
“A
festa anterior foi feita pelas senhoras do apostolado e,
este ano, será feita pelos jovens, porque é proposta da
igreja trabalhar com eles. Estamos fazendo a festa com as
pastorinhas e coroinhas, que há tempo nos vinham pedindo
para assumir essa tarefa” diz Edith.
Assim,
as festeiras de fato vão ser Sílvia Assumpção de Oliveira,
14 e Mayara Leonel Duarte Coelho, 15, à frente de uma
Comissão Organizadora reunindo o Grupo de Coroinhas,
Pastorinhas e Acólitos da Paróquia de N.S.dos Remédios de
Paraty.
As
pessoas que desejam ser festeiras escrevem escrevem uma
carta ao padre e ele analisa a proposta junto à Coordenação
da Comunidade. Um dos principais critérios para a escolha de
um festeiro é o engajamento no trabalho da Igreja.
Sílvia
e Mayara contam que sempre tiveram vontade de pegar uma
festa da Igreja, mas não se sentiam preparadas para isso.
Foi quando Edayr e Edith assumiram a responsabilidade e elas
escreveram a carta para o padre, falando desse sonho e
lembrando que S.Benedito tem muitos devotos entre os jovens.
“Os
jovens atraem os jovens e nós queremos trazer os jovens mais
para dentro da Igreja”, diz Sílvia. “Os jovens acabam
arrastados para outras coisas e dizem que não têm tempo para
o trabalho paroquial. Mas você tem que ter um tempo para
Deus, além de se divertir”.
Elas
contam que fazem muito nesse sentido, junto aos jovens,
trabalhando na Pastoral Vocacional, com o Grupo de
Pastorinhas, com a Pastoral da Juventude, com a Renovação
Carismática.
“Deus
não proíbe ninguém de ser feliz, mas as pessoas têm que se
divertir com responsabilidade”, pontua Mayara.
O rei
Congo deste ano vai ser Valdemar do Nascimento, funcionário
do Setor de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde.
É a quinta vez que ele toma essa coroa. E veste a pesada
roupa de veludo azul-marinho, com forro de cetim, rendas,
galões, franjas e botões dourados.
Ele
acha graça do esforço que vai fazer e agradece pela
localização da casa do festeiro deste ano, que é na
Patitiba. Outra vez em que ele foi rei, a casa era perto do
Clube Bandeirantes e ele tinha que subir a avenida de manhã,
voltar ao meio-dia e retornar depois das cinco. :
““O
problema de novembro é a temperatura. É um calorzinho
cruel, andar naquele asfalto, debaixo do sol. Eu sempre
digo: “Gente, não ponham a sombrinha só para a rainha. O rei
é que derrete com o sol. A rainha, não, é aquele vestidinho
mais leve”.
Mas
Valdemar conta que faz tudo isso com gosto, porque seu pai
recebeu uma graça de S.Benedito.
Seu
Tico, como é chamado Seu Joaquim, trabalhava na Paróquia
como zelador e tinha uma ferida crônica na perna, que foi
crescendo a ponto de os médicos recomendarem a amputação.
Mas ele tinha mais de setenta anos, não ia se adaptar a uma
prótese, ficaria preso a uma cadeira de rodas e fez de tudo
para evitar esse desfecho.
“Aí,
eu pedi a S.Benedito que nos iluminasse, que nos mostrasse
um caminho. Então, apareceu um curso para pés de diabéticos
e meu pai fez um tratamento chamado Bota de Unna. Quando
voltou ao médico, ouviu que só precisava de um enxerto para
fechar a ferida”.
Valdemar diz que, se antes fazia o rei Congo com prazer,
agora considerava isso não sua coroação, mas a coroação de
seu pai, que também está com Alzheimer e perdeu a visão por
glaucoma.
“Fé, a
gente sempre teve, de que ia resolver esse problema. Mas não
pensava que ia ser, assim, tão rápido”.
É
D.Laura Rosa Oliveira, 71, metalúrgica aposentada, quem arma
o cerimonial para o desfile dos reis Congos, na Festa de
N.S.do Rosário e S.Benedito: o rei e a rainha vão com as
jóias, rodeados de mucamas e uma delas protege a rainha com
um guarda-sol. Ela fala dos figurinos como uma mestra da
costura::
“Cada
mucama manda fazer sua roupa”, ela explica. “O modelo vem de
outras festas e a gente só troca o tecido. É um vestido de
algodão branco, com aplicações de renda, A roupa da rainha é
uma vestido social, com uma capa de veludo vinho”.
E
empresta vida à tradição, como uma diretora de cena:
“O
quadro é uma coisa séria, mas a gente não pode ficar com
aquela cara marruda, de sofredora. O comportamento tem que
ser diferente, porque os escravos eram assim, apanhavam,
eram maltratados, mas eram uma raça alegre, cantavam,
dançavam, riam.
Em
sintonia com os ensinamentos de S.Benedito, ela dedicou boa
parte da vida aos mais necessitados. E conta que ele lhe deu
muito amparo nos momentos difíceis.
Em São
Paulo, D.Laura deu assistência a sofredores de rua e, toda
semana distribuía, junto com as freiras, a sopa da Baixada
do Glicério, preparada com legumes doados pelos feirantes.
Uma vez, ela conta, a polícia chegou a polícia, a mando do
prefeito da cidade, chutando tudo e dizendo que aquela sopa
só servia para juntar vagabundos.
“Eu
pedi a S.Benedito para não acontecer mais aquilo, para a
gente continuar dando alimento àquelas pessoas. E, um tempo
depois, a gente recebeu uma autorização da Prefeitura para
continuar distribuindo a sopa”.
D.Laura também conta que conheceu uma família cheia de
crianças, no Taquari, com a mãe doente e pai alcoólatra. A
mãe morreu e o pai levou as crianças para a Juatinga, nas
piores condições. Foi então que ela pediu ao santo que lhe
desse forças para ajudar aquela gente.
“Eu
disse ao pai que, se ele parasse de beber, eu ia cuidar das
crianças. Ele parou e eu peguei três meninas para criar. Foi
S.Benedito que me ajudou, porque meus filhos, as pessoas,
todo mundo me criticava por estar fazendo aquilo. E hoje
elas estão alimentadas, bem de saúde e indo para a escola,
graças a Deus”.
E
nenhuma festa religiosa de Paraty acontece sem D.Filinha,
81, ministra da Eucaristia, coordenadora da Paróquia no
Centro Histórico, uma das figuras mais dedicadas do trabalho
pastoral e, como a comunidade carinhosamente a nomeia,
patrimônio tombado da Igreja.
D.Filinha conta que,quando era menina, a cidade era muito
pequena e não havia muita coisa para fazer, a não ser
participar de sua vida religiosa. Então, aos doze anos, fez
a Primeira Comunhão e entrou para a Irmandade do Coração de
Jesus.
“Aí,
tive muita obrigação para fazer. Comecei enfeitando os
altares da Matriz com flores que a gente pedia nas casas com
jardim, porque a cidade não tinha floricultura. Assim eu me
criei, me casei, tive filhos, batizei todos e acompanhei a
evolução da Igreja”.
Ela
conta que, antigamente, quem fazia a Festa do Rosário era
uma irmandade só de negros, que escolhia o festeiro entre
seus membros. Segundo ela, as irmandades cuidavam de tudo,
na Igreja; da festa do santo às alfaias. E, com isso,
detinham o poder na Igreja.
“Mas,
hoje, uma festa como a do Rosário tem uma participação muito
maior da comunidade, porque não são só os negros, como minha
avó me contava. As irmandades só se juntavam na festa de seu
santo. E só elas participavam, não as outras”.
Ao
mesmo tempo, as festas passaram a exigir uma liderança muito
maior, para mobilizar um contingente genérico de fiéis, ao
invés de um segmento específico de devotos. E o custo
financeiro, antes bancado pelas irmandades, caiu pesadamente
sobre a iniciativa individual:
“Antes, no dia da Festa do Rosário, a rainha Congo oferecia
uma mesa de doces, depois da missa das dez e todo mundo ia
para a casa dela. A gente tentou retomar essa tradição,
mas não deu certo, porque nem sempre a rainha tem condições
para isso”.
Até
festeiro está difícil de encontrar, diz D.Filinha. E para
todas as festas, inclusive a da padroeira da cidade.
“Havia
sempre duas ou três pessoas querendo fazer essas festas.
Este ano, até o dia 7 de setembro ainda não havia ninguém
para fazer a próxima festa de N.S. dos Remédios. Em toda
missa eu tenho que pedir que os candidatos a festeiro entrem
em contato com a Igreja”.
Uma
das razões para isso é o grande número de eventos desse
porte no calendário. Além da festa de N.S.dos Remédios, há
as do Divino, de Sta.Rita e do Rosário. Há outros eventos
importantes, como a Semana Santa e o Corpus Christi. E são
quase as mesmas pessoas que fazem cuidam de tudo, da
logística à produção, da ornamentação aos cerimoniais.
Segundo D.Filinha, é muito trabalho e as pessoas andam
cansadas. A responsabilidade é muito grande e, além disso,
cada festeiro quer fazer a festa maior que a do anterior, o
que obriga as pessoas a trabalhar cada vez mais para
arrecadar dinheiro. Por isso, se as festas voltassem a ser
mais simples, como antes, talvez fosse melhor para todo o
mundo. .
“Porque a Igreja precisa de fundos, mas dinheiro não é tudo.
O que tem que haver é uma evangelização mais profunda, tem
que haver mais fé. Não precisa fazer festa de milionário.
Mais importante é ter o Espírito Santo junto de si, sentir
que N.S.dos Remédios é nossa mãe, ter aquele carinho por
nosso santo de devoção”.
Ela
conta que o crescimento do turismo também influi nesse
estresse. Na Festa do Divino, por exemplo, o almoço era na
casa do festeiro, para toda a comunidade, incluindo o padre,
o prefeito e os músicos – que não cobravam cachê, como hoje.
“Aí,
esse almoço começou a crescer. Com a Rio-Santos e a vinda
dos turistas, foi para o Cembra, com mil e quinhentas
pessoas. Hoje, é um almoço para cinco mil pessoas, a gente
sabe isso pelo número de pratinhos que compra. E não dá.
Existem até hotéis que nem colaboram com a festa, mas
incluem o almoço no pacote do Divino”.
...............................................................................................................................................................
Consulte nossa
bibliografia geral
Pesquise
sobre a escravidão, os escravos e suas devoções
Leia também
sobre N.S.do Rosário em
O
Rosário
sobre S.Benedito em
O
santo negro
histórias de S.Benedito em
Histórias do santo negro
sobre a Igreja de N.S,.Rosário em
Feita
por negros
sobre o antigo Reino do Congo, em
Negro reino
sobre a tradição do rei Congo em
Negro
rei
sobre os escravos no Brasil em
A
grande água, entrevista com Marina de
Mello e Souza
Volte a
O
Rosário e o santo negro
Volte a
pARATIANDo |