|

Viagem pela História
Alma de um caminho
“Inúmeras
rochas, ainda guardando suas marcas de explosão e grandes
lajes retiradas jazem abandonadas, como se o trabalho
tivesse sido suspenso de repente, o que coincidiria com a
decadência do transporte pelo Caminho”.
É como conta, com a dramaticidade natural dos fatos, o
relatório do Projeto de Revitalização do Caminho do Ouro –
Na trilha da História, elaborado pela arqueóloga Maria Luiza
de Luna Dias, sob a coordenação do pesquisador Marcos
Caetano Ribas.
Nesse projeto, foi prospectado um trecho de cerca de 3.380 m
da antiga trilha do Facão, hoje conhecida como Caminho do
Ouro, entre a localidades de Penha e a entrada do Parque
Nacional da Serra da Bocaina, retirando-se uma camada
vegetal e sedimentar de 2cm a 48cm que o recobria. A
prospecção do sítio revelou trechos de piso contínuo,
sistemas de contenção de terra e de drenagem de águas
pluviais, pontilhões e mirantes de vigia.
Revelou, também, ruínas até então desconhecidas, como muros,
a ponte e o quartel da guarda do Registro da Cachoeira,
marcos de sesmaria, o pouso do Souza, o Engenho do Martins,
abrigos sob a rocha e locais de depósito, de aquartelamento
militar, de pouso de tropas e de confinamento de escravos.
A prospecção ainda trouxe à tona numerosos artefatos móveis,
como ferraduras, cerâmicas, louças e vidros; na maioria
vindos da Inglaterra, da França, de Portugal e das colônias
portuguesas, entre os séculos 18 e 19.
Depois de transportar ouro, mercadorias, escravos,
viajantes, cachaça e café, o Caminho foi desativado, ao
final do século 19 e funcionou até a década de 1960 no
transporte de banana. Em conseqüência do abandono, as pedras
do calçamento histórico foram utilizadas em construções
adjacentes, como comprova seu desmonte nos trechos mais
próximos da estrada municipal que o atravessa.
Mas, de um modo geral, o monumento se encontra bem
preservado, mantendo inclusive algumas partes de caprichosa
construção na técnica denominada pedra seca, com lajes
travadas por seixos e unidas sem argamassa.
A pesquisa fez a limpeza superficial do Caminho, reparando
trechos erodidos por enxurradas, devido ao atulhamento das
canaletas de esgotamento da água. Evitou-se a retirada de
algumas árvores pequenas e médias que germinaram no leito,
levando-se em consideração que as raízes não estavam
danificando o calçamento e que elas atestavam o abandono de
mais de um século a que ele foi relegado, o que poderia até
funcionar como um atrativo a mais para o turismo. Além do
que, com o monitoramento constante, não será difícil
retirá-las num momento mais adequado. No Caminho, não há
vegetação de grande porte ou primária, porque sua limpeza
foi contínua, durante o uso.
O trecho mais conservado é construído com grandes lajes,
obtidas da explosão controlada de rochedos de granito parati
ao longo do percurso. Para essa explosão, furava-se um
buraco aproximadamente 30cm de profundidade por 3cm de
diãmetro, se enchia de pólvora e se colocava um pavio longo.
As lajes, então, eram dispostas no chão em três diferentes
organizações. Um delas é a capistrana, com as lajes grandes
no centro do calçamento, como nas ruas de Paraty e,
provavelmente, de cidades da mesma época. Outra é o enxamel,
com as lajes grandes em X e as menores nos espaços vazios.
Outra, ainda, é a emoldurada, com lajes grandes ou médias
envolvendo lajes menores.
No trecho menos conservado, provavelmente de meados do
século 18, o sistema de drenagem é falho e as enxurradas
levaram parte do calçamento, criando depressões contidas
pela equipe. Nesse trecho, o granito utilizado é mais poroso
e granulado e não são grandes lajes, mas pedras menores,
muitas delas recolhidas em rios e cachoeiras. Além do
rolamento pelas águas, essas pedras guardaram claras
pisaduras de animais, que as foram abaulando com o tempo,
por baterem as ferraduras sempre na mesma linha.
Num trecho misto, com 725m de calçamento, partes do caminho
do século 18 foram reformadas ou reconstruídas no século 19.
Essa suposição é confirmada pela coexistência dos dois tipos
de calçamento descritos acima, por alguns travamentos entre
as pedras realizados com ferraduras e pelos documentos
históricos:
“Um Caminho que só de Serra tem quatro léguas pouco mais ou
menos que precisa nivelar-se quase todo, quebrando-se muitas
vezes grandes pedras dos saltos e calçar-se em muitas partes
de lajes grossas e pesadas para resistirem as torrentes de
água e trilho (que se há de tornar frequente) dos animais
carregados, que necessita de muros fortes em vários lugares
em uns para segurar a calçada de algum dos lados dos
despenhadeiros, e em outros para dar esgoto as águas sem
risco de desbarranco, que exige muitas seguras pontes nas
cachoeiras e seu braços e inumeráveis outros beneficios que
no decurso do trabalho se conhecem e se fazem
indispensáveis” (Livro de Registros da Câmara Municipal de
Paraty, 25 de julho de 1818).
Finalmente, há trechos sem calçamento, que somam 910,6m,
invariavelmente em terrenos planos, de fácil manutenção, que
provavelmente eram preenchidos com argila ou barro socado,
areia grossa, seixos rolados ou madeiras - as chamadas
estivas.
A prospecção do Caminho revelou grandes rochedos usados como
mirantes, também chamados de vigias ou atalaias, para evitar
o contrabando e os descaminhos de mercadorias e bens. Esses
mirantes ficavam em pontos estratégicos, geralmente no alto
de rochas aplanadas, para dar maior conforto ao sentinela e,
a partir deles, se tinha uma visão privilegiada dos
arredores, que se descortinava até a baía de Paraty.
Esses mirantes também podiam ser recobertos com folhagens
para proteger o sentinela do sol e da chuva. No trecho
prospectado há cerca de seis mirantes e se supõe a
existência de um sistema de comunicação entre os vigias,
através de sinais com espelhos e bandeirolas ou tiros de
mosquete e apitos, conforme os documentos.
“As Sentinelas devem dar parte de todas as pessoas que
descem e sobem pela estrada desse mesmo Registro, para se
fazerem as averiguações declaradas: durante o dia sairá uma
patrulha de dois soldados para sondarem a estrada, que se
segue para cima até o lugar chamado de Souza, mudando-se
esta alternativamente pelos soldados da mesma Guarda, com a
obrigação de embaraçarem, e não consentirem, que por aqueles
matos penetre pessoa alguma, ou quando se desviar da mesma
estrada, imediatamente avisarem a dita Guarda” (ordens do
vice-rei Conde de Rezende ao capitão Domingos Francisco
Ramos Fialho, 1 de dezembro de 1790).
Nos 1.635,6m iniciais entre Penha e Souza, a prospecção não
revelou nenhum ponto constante utilizado como pouso de
tropas. Não há vestígios de fogões ou fogueiras, mas apenas
carvões esparsos e o ponto de água mais próximo fica depois
dos marcos de sesmaria.
Neste trecho, foram localizados no entorno do Caminho dois
marcos próximos entre si, com padrões semelhantes e
identificados popularmente como marcos de sesmaria. São
afloramentos rochososde granito parati, em tudo semelhantes
aos descritos acima, mas com a particularidade de conterem
uma cruz com pedestal, gravada em baixo relevo por
picoteamento com instrumento perfurante.
O proprietário do terreno não permitiu maiores observações
por parte da equipe de prospecção e, futuramente, pretende
construir no entorno. Será necessário, portando, um trabalho
de conscientização da comunidade, apoiado por legislação
municipal, para viabilizar pesquisas e proteger
adequadamente o patrimônio arqueológico de Paraty.
Além dos marcos de sesmaria, jazem no trecho prospectado as
ruínas do antigo Pouso do Souza, pesados alicerces de pedra
com cerca de 6m de extensão por 1,60m de altura, que
pertenciam a uma estalagem do século 18-19, onde se
hospedavam fidalgos e damas em viagem para o litoral ou
interior, de acordo com os documentos:
“No dia 2 de junho (de 1775) dormi ao pé da Serra, em casa
de Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo
impraticável caminho, e vim dormir na Aparição” (carta ao
Marquês de Lavradio, do capitão-general Martim Lopes Lobo de
Saldanha).
As ruínas do Pouso, porém, estão em situação semelhante à
dos marcos de sesmaria: encontram-se em propriedade
particular onde a prospecção não foi permitida e o há
indicações de que o proprietário vai usá-las como base para
uma construção.
Este trecho do Caminho, cortado pela estrada municipal, é o
que apresenta maior destruição e corre o risco de
desaparecer, diante da ocupação urbana desenfreada. Nele há
mais três construções, inexistentes há um ano e outras
surgirão, caso não haja restrições de cunho legal.
...............................................................................................................................................................
Fontes:
Ribas, Marcos Caetano, A História do Caminho do Ouro em
Paraty, Contest, Paraty-RJ, 2003
Gold Route in Paraty and its landscape, Pro-Paraty WHeritage
Permanent Comission, 2003
Dias, M.Luiza de Luna, Projeto de Revitalização do Caminho
do Ouro em Paraty, monografia
Consulte nossa
bibliografia geral.
Pesquise sobre o Caminho do Ouro de Paraty
Leia também
sobre o Centro Histórico de Paraty em
A pé pelo
Centro Histórico
sobre os alambiques de Paraty em
Na rota da
cachaça
Volte a
Viagem pela História
Volte a
pARATIANDo
|